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Serra tem 467 mil habitantes, mas não tem um teatro


12/11/2013 às 11:55
Dia desses usamos argumento semelhante para falar de Vila Velha. Agora é a Serra. O hoje mais populoso município do Espírito Santo, com 467.318 habitantes (IBGE, 2013) tem apenas nove salas de cinema (em shoppings) e nenhum teatro público. Foi a surreal ausência de um espaço teatral numa cidade com quase meio milhão de habitantes que estimulou a formação do movimento Quero um Teatro na Serra.
 
“Não ter um teatro na Serra é não respeitar o direito à cultura, que é um direito constitucional”, critica o produtor cultural Rogério Morais, integrante do movimento, que nasceu para sensibilizar políticos e empresários acerca da importância do solo serrano conceber um teatro. Informalmente, Rogério diz que hoje o município conta com mais ou menos 15 grupos teatrais. 
 
Morais evoca um paradoxo. A bem-vinda Lei Chico Prego, a lei do incentivo cultural do município, todo ano contempla projetos teatrais. Mas onde os contemplados desenvolvem as ideias, se não há teatro? Aí entra em cena o improviso, com o perdão do trocadilho. Ou vão para a rua, ou se arrumam noutro lugar qualquer. O fato é que pouco adianta ganhar um edital para honrá-lo tropegamente.
 
O movimento surgiu da óbvia insatisfação de um grupo de artistas serranos com tal orfandade. Não apenas pela falta de um espaço conveniente para a concepção, maturação e apresentação de um trabalho. Mas também como uma alternativa de entretenimento para a população serrana, que, aliás, não deve mais suportar ter sua cidade associada à violência.
 
De acordo com o Mapa da Violência 2013, realizado com dados levantados em 2011, entre os municípios brasileiros com mais de 20 mil habitantes, a Serra ocupa a 18° posição na taxa de homicídios por grupo de 100 mil. São 93,3 homicídios. O município apresenta números ainda mais desalentadores para os jovens: com 239,9 homicídios, a Serra aparece em 10° lugar entre os 100 municípios com mais de 10.000 jovens.
 
O movimento também apresenta o argumento econômico. “Não é só acesso ao teatro, mas também a economia da cultura. Quando se investe em cultura, há geração de renda”, defende Morais.
 
Ainda não houve resposta de políticos ou empresários. Mas a mobilização já conquistou a simpatia de outros artistas capixabas, como se vê no Facebook do movimento: inúmeros artistas deram seu apoio à causa (como o jornalista e cronista Jace Theodoro, o desenhista e dramaturgo Milson Henriques, o ator José Luiz Gobbi e sua indefectível Creuzodete).
 
A mobilização online do movimento também gerou posts interessantes na rede social: bastou pegar o (bom) exemplo de municípios de população bem inferior à da Serra, mas que dispõem de teatro (Rio Novo do Sul, 12 mil moradores; Guaçuí, 28 mil; Cachoeiro, 210 mil; Montanha, 18 mil; Afonso Cláudio, 32 mil).
 
Já houve uma tentativa de dar um teatro ao município. Saiu da pena do arquiteto Oscar Niemeyer o Memorial Metropolitano, projeto que conta com mirante, teatro e museu. Mas o valor da obra, orçada em cerca de R$ 70 milhões, desanima, tanto que, em 2012, a prefeitura acenou com o modelo de parceria público privada (PPP) para levá-la adiante.
 
Além da exclusão do que o movimento chama de “corredor cultural”, isto é, o conjunto de cidades que possuem um teatro e que, portanto, recebem produções locais e nacionais, há também um processo de acomodação do desenvolvimento cultural serrano. A falta de espaço adequado compromete a formação de novos artistas. Os artistas teatrais serranos ainda têm Vitória como eixo.
 
Alguns possíveis locais já foram sondados. O bairro de Laranjeiras seria um bom local. “Ali tem muitos terrenos da prefeitura, é de fácil acesso e tem o terminal de ônibus”, aponta Morais.
 
O principal também já foi pensado: o teatro. Vislumbra-se um espaço que integre diversas manifestações. Um espaço para o circo, uma sala para oficinas, uma para reuniões, outra para o audiovisual e uma galeria para as artes visuais. Só falta o poder público e os empresários sacarem qual é da ideia.

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