Seculo

 

Reportagem Especial
Reféns do eucalipto


09/03/2014 às 09:20
Wendson Valentin, 13 anos; Jery Valentin, 18 anos; e Wando Valentim, 13 anos, tiveram o mesmo fim: morreram envenenados. “E minha irmã ficou cega”, conta Manoel Pedro Serafim. O quilombola de 62 anos, após casos recorrentes registrados na região norte do Espírito Santo, área dominada por extensos eucaliptais da Aracruz Celulose (Fibria), resolveu encarar a empresa. 
 
As doenças e mortes são o resultado da elevada quantidade de venenos que a Aracruz utiliza na conservação e replantio da monocultura do eucalipto. “É tanto veneno, que existem casos como de uma moça que atravessou os eucaliptos, vindo da cidade para sua casa, e ficou vários dias tremendo. Ela mora aqui na comunidade Nossa Senhora Aparecida. Se quiser ouvir dela o que estou lhe dizendo, levo você lá”, atestou Serafim, que é responsável pela criação da Associação dos Pequenos Agricultores Vizinhos dos Empreendimentos Industriais de Conceição da Barra e São Mateus, municípios situados no norte do Estado. 
 
Embora dono de 16 alqueires de terra, área relativamente expressiva para os padrões da região, Serafim não conseguiu proteger sua lavoura dos efeitos nocivos do vizinho indesejável. Como grande parte dos agricultores que insiste em permanecer na região, o veneno tornou sua roça improdutiva.
 
Uma riqueza, porém, Serafim conseguiu preservar: a água. Sua propriedade ainda mantém uma densa cobertura de espécies nativas de Mata Atlântica, uma espécie de oásis em meio ao deserto verde de eucaliptos. O rico bioma mantido por Serafim protege um córrego que nasce em seus domínios e deságua no rio Cricaré, em Conceição da Barra. 
 
Como previu anos atrás o professor de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Aziz Ab Saber, as raízes pivotantes do eucalipto, que buscam água em grande profundidade, corrompem o lençol freático. Os reveses são percebidos quando um poço é aberto na região. São necessários mais de 100 metros de profundidade para alcançar a primeira lâmina de água. 
 
A sedenta monocultura do eucalipto já sugou uma centena de córregos na região e reduziu drasticamente o curso das águas de outra centena, além do assoreamento de rios importantes para a população do norte do Estado, como o Itaúnas.   
 
“Se naquele tempo viver na região já estava acima da capacidade do ser humano, agora, com mais essa calamidade do aumento do uso de veneno...O  que será de nós se não reagirmos?”, indagou Serafim. 
 
Não há como não entender que a ação dos eucaliptos ultrapassa as previsões e as advertências que fez, em sua época de atuação no mundo científico, o naturalista capixaba Augusto Ruschi. Autor de uma expressão que bem resumiu toda a tragédia que o eucalipto carreou para o Espírito Santo: “deserto verde”.
 
O naturalista dedicou-se ao exame e aos estudos dos efeitos do plantio do eucalipto no Espírito Santo, assegurando que ele promoveria um verdadeiro desastre ecológico. Como consequência, principalmente, da erradicação violente das florestas e do emprego farto de eucaliptos, convencido de que a cultura do eucalipto privilegiaria novas pragas. 
 
Os pássaros, que se alimentam de insetos, seriam uma das suas primeiras vítimas, previa Ruschi. Desapareceriam também os mamíferos que comem as aves e os peixes teriam o mesmo destino com o carreamento dos solo envenenado para o leito dos rios. 
 
Na época, Ruschi foi muito preciso quanto aos destinos dos rios e córregos: “Os córregos secarão. O lençol freático foge, tira-se de uma só vez uma imensidão de florestas para plantar eucaliptos. É a alta chuva quem alimenta o lençol freático, que depois vai soltando através dos córregos. Você tira a cobertura natural, entra com o eucalipto que se alimenta de água, cria o elemento primordial para destruição do lençol freático”, alertava o ambientalista. 
 
O que se passa hoje com as comunidades vizinhas dos eucaliptos é um autêntico duelo com a própria existência. Não bastassem terem passados por todos esses ciclos de destruição por causa do eucalipto, a sobrevivência destas comunidades ficou reduzida praticamente ao carvão, como assinala Serafim: “Nos restou ficar com a cara na boca de um forno destruindo a nossa saúde”. E emenda: “Não bastasse tanta desgraça, agora eles vêm com o veneno”.
 
Veneno
 
O uso do veneno nas plantações de eucalipto tem o propósito único de economizar mão de obra. Quando a Aracruz Celulose começou a operar na região, a partir de 1968, chegou a usar cerca de 20 mil homens para capinar a capoeira por entre os eucaliptos. Logo trocaria a mão de obra braçal pela capina mecânica e depois pela capina química, feita à base de veneno.
 
 
Nesse processo, a empresa extinguiu mais de 19 mil postos de trabalho, passando a executar a tarefa com apenas 800 homens, numa atividade de alto risco à saúde, que deixa o trabalhador em estreito contato com o veneno, que carrega nas costas. 
 
O trabalho insalubre já provocou doenças graves, lesionou e inutilizou um número significativo de trabalhadores. Fora os registros de algumas mortes.
 
“O veneno sempre esteve presente nos eucaliptais, só que nos últimos seis anos as quantidades vêm se multiplicando. O mais grave é que a empresa conta com total cobertura dos órgãos de controle ambiental, que vão do governo às prefeituras”, denunciou o quilombola.
 
Entre as doenças provocadas em decorrência da exposição ao veneno, uma forte incidência de glaucoma foi registrada na população de quilombolas. Não há justificativa científica para tantos casos, já que o glaucoma não é uma doença transmissível. 
 
Os altos índices da doença surpreenderam os médicos. Após a análise de cientistas e ambientalistas, entre eles Augusto Ruschi, chegou-se à conclusão que o glaucoma fazia parte de doenças latentes advindas das mudanças climáticas, que formaram o ambiente propício para sua existência.   
 
Quanto à situação atual, Serafim, na condição de representante da Associação dos Pequenos Agricultores Vizinhos dos Empreendimentos Industriais de Conceição da Barra e São Mateus, tentou discutir o problema do veneno com a própria empresa. Ele chamou a atenção para a suspeita de envenenamento dos dois córregos que restam para as comunidades. “Fui despachado na hora pelo indivíduo que a Aracruz mandou me receber. Ele foi direto: ‘Usamos veneno porque podemos”’, disse o representante da Aracruz.
 
Os dois córregos, defendidos por Serafim, são o Santana e o Lucindo, no município de Conceição da Barra, onde o eucalipto cobre 82% da área rural do município. E eram os últimos ainda em uso. Uma situação dramática. Com a contaminação desses dois córregos, só sobrou o da propriedade do Serafim, mas o acesso a ele é restrito às comunidades que moram nas redondezas. 
 
Em São Mateus, cidade vizinha, a situação também é crítica. O deserto verde da Aracruz já compromete o abastecimento de água no município. A solução paliativa encontrada é recorrer aos caminhões-pipa da prefeitura.       
 
Diante da recusa da Aracruz em abrir um canal de diálogo com a comunidade para discutir o problema do veneno, Serafim recorreu à Ouvidoria Agrária Nacional. Ele pediu ao órgão o exame das águas dos córregos Santana e Lucindo. Em julho de 2012, o ouvidor Gercino José da Silva Filho solicitou ao Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que fizesse a análise. A Ufes, porém, recusou-se em atender ao pedido, alegando que não possuía qualquer mecanismo de regulamentação para esse tipo de serviço e que não contava com infraestrutura humana e material para atender à determinação.
 
Diante da comprometedora recusa da Ufes, o ouvidor incumbiu a análise à Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). Um mês depois da recusa daUfes, em agosto de 2012, em expediente assinado pelo então presidente da companhia e seu diretor de Meio Ambiente, respectivamente Neivaldo Bragato e AnselmoTozi, nova recusa, sob a esfarrapada desculpa de que a Cesan não dispunha de equipamentos para executar a análise.
 
 
Depois das duas recusas, liberou-se totalmente o uso de veneno. A empresa inovou adaptando tratores para pulverizar com maior volume os seus eucaliptos. Novas consequências foram registradas, como aponta Serafim. E das piores. Por exemplo, os escorpiões, que haviam adaptado o seu metabolismo à existência nos eucaliptos, abandonaram o habitat e procuraram abrigo nas casas do entorno. Não há mais quem não durma à noite sob o pânico de uma iminente ferroada. Avolumou-se o número dos que já experimentaram tal dor. Representou também um verdadeiro genocídio à reduzida população de pássaros.  
 
Sob os efeitos do volume do veneno sobre as plantações, Serafim disse que ninguém escapa. Quem não perde tudo, perde no volume da colheita. 
 
Serafim é uma das vítimas de deserto verde. Até a multiplicação do uso do veneno, o quilombola vivia do plantio do coco. Dos 400 pés de coco, confirmou o repórter percorrendo o campo, não sobrou um único coqueiro ativo para contar a história. Serafim disse que os coqueiros envelheceram precocemente. Perguntei se as mortes não se deram em função da idade. ‘‘Era tudo coqueiro novo. Veja pelo seu diâmetro. Eles produziam tanto, que eu vivia somente deles. Mas agora...”.
 
Há um diagnóstico científico que corrobora com a perda da fertilidade dos coqueiros de Serafim. O estudo do cientista chileno Rodrigo Catalan comprova que o eucalipto promove a destruição do ecossistema, ocupando solos de florestas nativas e agrícolas. Resultado, se produz menos alimentos. 
 
Catalan afirma que esse processo contribui para o êxodo rural. Ele destaca que a cultura do eucalipto trocou a mão de obra por maquinários em lugares basicamente agrícolas. 
 
Nos países em que o eucalipto foi introduzido, especialmente na América do Sul, Ásia e África, essa monocultura destruiu florestas nativas e terras comunitárias. Com empobrecimento das regiões, perdas de suas terras e de empregos, poluição dos rios, contaminação do ar, da terra e da água. E o êxodo. Situações que são registradas também em um trabalho de Larry Lohman, do The Comer House, da Inglaterra.
 
Cupim de laboratório
 
Não bastasse a ruína do veneno, a Aracruz, para reduzir ainda mais o número de braços da cadeia produtiva, desenvolveu em laboratório um cupim transgênico para ajudar na decomposição dos gravetos dos eucaliptos. Na foto abaixo, Serafim exibe uma casa de cupim transgênico. O exército de cupins deixa, de graça, as árvores limpinhas para a Aracruz
 
 
O supercupim é resistente aos coquetéis de veneno lançados sobre os eucaliptais. Além de fazer a “faxina”, o cupim transgênico também devora as raízes de outras plantas que tiverem por perto. Seu cardápio predileto tem sido as raízes de mandioca, principal cultura da região. 
 
Grilagem de terras
 
Além de envenenar o solo e a água, e criar criaturas em laboratório que saem devorando tudo que encontram pela frente, a Aracruz se apropriou ilegalmente das terras quilombolas. A empresa praticamente não precisou empatar seus investimentos na compra de terras para construir esse enorme território que possui hoje.
 
À época, o então governador Arthur Gerhardt Santos (1971 – 1975), quando ainda era integrante do governo de Christiano Dias Lopes Filho, destinou à empresa os territórios indígenas (Aracruz) e quilombolas (Sapê do Norte).
 
A região dos eucaliptos no norte do Estado provocou um êxodo de cerca de 50 mil pessoas. A população que restou vive hoje como refém do eucalipto. Nada mais do que um mero rescaldo quilombola. 
 
Os dados disponíveis dão conta que em Conceição da Barra sobraram apenas 175 pequenos agricultores. O município teve uma drástica redução populacional. Em São Mateus, no que concerne à antiga área de pequenos agricultores, a redução de sua população foi também significante.  
 
Testemunho
 
Sou um velho repórter que acompanha a história da Aracruz Celulose no Espírito Santo há décadas. Sou do tempo em que o temido major Orlando Cavalcante, capanga da Aracruz, expulsava índios Tupiniquim das áreas griladas pela empresa. 
 
Registrei a derrubada da Mata Atlântica para dar lugar aos seus extensos eucaliptais. Também testemunhei seus descalabros e os seus crimes ecológicos, além da cumplicidade dos governos. 
 
No decorrer das reportagens, passei a lidar com grande parte das lideranças quilombolas, conhecendo melhor essas comunidades.  
 
Ainda não conhecia pessoalmente o Serafim, só de ouvir dizer. O meu primeiro encontro com ele foi na boca de um forno. Ele de calça escura, camisa escura, um negro com pouco menos de um metro e setenta de altura, olhos vivos e sem nenhum temor em atacar o comportamento perverso da Aracruz. Ao contrário, achando que denunciar as mazelas da Aracruz é um desafio a ser encarado. 
 
Serafim chegou de volta à região em 1989, a um cenário que o chamava para o confronto. Mas que não havia sido como devia. E que o resultado estaria ai agora. “Perdemos a oportunidade de brigarmos melhor contra o roubo de nossas terras. Mesmo pagando um preço alto, não teríamos chegado ao ponto que chegamos hoje”, lamenta o quilombola.
 
 
“Pois não há nenhum de nós que não tenha tido terras roubado pela Aracruz. Do meu pai levaram 105 alqueires. O Pelé (um negro que a Aracruz contratou para ajudar o tenente Merçon na pressão aos quilombolas para tomar suas terras) apanhou a escritura do terreno do meu pai para regularizar e não a devolveu mais. Fomos ao cartório onde a escritura estava registrada e não havia nada. O registro simplesmente sumiu. Todo mundo aqui têm uma história parecida com essa. O que mostra a maneira de agir desta empresa, que agora quer nos asfixiar aos poucos com seu veneno”, desabafa Serafim.
 
O quilombola conta que tem feito um trabalho forte de militância à frente da associação, e tem procurado outras entidades para fortalecer o grupo de resistência. “Estou fazendo a minha parte, como agora nesta cruzada contra o uso do veneno. Isso é parte de uma luta que não tem hora para acabar”.
 
Ao me despedir dele, a iluminação dos seus olhos passava a exata noção de um quilombola dentro do ódio das desigualdades contra a voracidade da Aracruz. Como estivesse a pregar um futuro sem os lastros do medo. Encontrei um personagem convencido da necessidade de enfrentar o inimigo que responde pelo nome de Aracruz. 
 
Não há mais tempo para essa luta ser de outro jeito. Do contrário, segundo Serafim, terão que viver sob a permanente intimidação da Polícia Ambiental e do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), que tentam impedir a produção do carvão pelas comunidades. Eles são acossados também pela segurança particular da Aracruz, que a cada dia está mais truculenta. “Se não formos para o confronto, teremos que abandonar nossas terras e engrossar as filas de desempregados na Capital”, adverte Serafim. 

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