Seculo

 

Credibilidade zero


11/08/2014 às 17:13
Os recentes relatórios apresentados pelo grupo SOS Espírito Santo Ambiental, contestando os números da empresa Ecosoft, responsável por realizar os monitoramentos das emissões de poluentes na Grande Vitória, reforçam as suspeitas levantadas há anos por ambientalistas. Sempre houve um esforço concentrado das poluidoras e do poder público para tentar justificar a indiscutível omissão na área, transferindo para terceiros a responsabilidade pela poluição do ar registrada na região. 
 
No nosso caso, para os veículos. É óbvio que a crescente frota contribuiu e muito para a concentração de poluentes na atmosfera. Mas em uma região que abriga as plantas industriais da Vale e ArcelorMittal e com vento predominantemente nordeste, não há a mínima possibilidade de comprar esse discurso de que as emissões das poluidoras são secundárias e os veículos os principais responsáveis. É de uma irresponsabilidade e tanta.
 
Um dos relatórios dá a dimensão exata da disparidade. Estudos de 2011 da Ecosoft, contratados pela Vale, apontaram uma diferença de 1.076% para mais do que registrou o Inventário de Emissões, realizado em 2002. O aumento da frota não acompanhou a mesma proporção.
 
Além de contratada pela principal poluidora da Grande Vitória, a Ecosoft também é acusada de utilizar métodos contestados por especialistas em suas pesquisas, sempre favoráveis às empresas. Foi desta forma que conseguiu encontrar, como num passe de mágica, um índice pra lá de favorável à mineradora: redução de 77% das emissões de poluentes após instalação das telas Wind Fences. Seria ótimo, se fosse verdade. Até hoje, a população não percebeu qualquer melhoria. Pelo contrário. 
 
Essa mesma Ecosoft aparece agora prometendo realizar o tão esperado e necessário estudo do DNA do pó preto, com base em uma nova metodologia. Mas o processo já começou errado. A proposta foi apresentada no grupo técnico composto por representantes da própria Ecosoft, do Ministério Público Estadual (MPES), da Vale e Arcelor, da Prefeitura de Vitória e do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). Não tem participação popular. 
 
É a Ecosoft, ainda, a responsável por realizar os relatórios de qualidade do ar na Grande Vitória, que sempre apontam que está tudo ótimo. Outro dia, fiz referência ao Primeiro Diagnóstico da Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar no Brasil, desenvolvido pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente, alertando para a vulnerabilidade dos monitoramentos no País. O Estado foi enquadrado no seguinte caso: feitos por empresas privadas e custeados pelas próprias poluidoras - aquela velha história das galinhas tomarem conta do galinheiro.
 
Os resultados divulgados por aqui contrariam a própria percepção dos capixabas, que não suportam mais tanto pó preto, nem as doenças geradas pela poluição. E, ainda, estudos nacionais, como do respeitado Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que, por mais de uma ocasião, colocou Vitória na frente da cidade de São Paulo em índices de poluentes, cidade mais populosa do País e famosa por seu intenso fluxo de veículos.
 
Com esse enredo todo, o governo do Estado ainda é o primeiro a validar os números da Ecosoft. Nunca contestou os números, nem nunca vai contestar, pois atendem perfeitamente ao sistema consolidado no Estado entre poder público e poluidoras. Até quando?


Manaira Medeiros é mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local e especialista em Gestão e Educação Ambiental
Fale com a autora: manaira@seculodiario.com
 

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