Seculo

 

Dona do jogo


26/08/2014 às 17:14
O anúncio da empresa Manabi de que irá construir ramal ferroviário em parceria com a Vale para atender ao Porto Norte Capixaba (PNC), é mais uma prova de que, no Espírito Santo, quem dita as regras são as poluidoras. Os empreendimentos, além de rejeitados pela população, sequer foram licenciados. Mas nem parece: a Manabi aparece na imprensa corporativa certa de que terá seus interesses assegurados. Só falta cumprir o protocolo. 
 
No jornal A Gazeta desta terça-feira (26), a empresa informa que fechou parceria com a mineradora e que o ramal ferroviário terá 80 quilômetros de extensão, com previsão de construção de 15 meses. O traçado do projeto margeia o Rio Doce, depois passa sobre o rio, e vai até o Porto Norte. O mineroduto da empresa também continua nos planos e ligará o Morro do Pilar, em Minas Gerais, a Linhares.
 
Como de costume, o secretário de Estado de Desenvolvimento, Nery De Rossi, fala maravilhas dos empreendimentos na matéria. O ex-governador Paulo Hartung (PMDB), que tenta voltar ao antigo posto nesta eleição, é outro que faz questão de lembrar, sempre que encontra uma brecha, que foi o responsável por "trazer a Manabi para o Estado". A empresa está na lista de principais clientes da empresa Éconos, sociedade de Hartung e o ex-secretário José Teófilo - finalizada em junho de 2013 -, que renderam quase R$ 6 milhões aos negócios da dupla em três anos - 2010 a 2013. A Manabi Logística S/A pagou R$ 275 mil.
 
Nos casos dos empreendimentos da empresa, os licenciamentos não cabem ao Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), que conhecemos muito bem, mas sim ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Muda alguma coisa? Não. Na única audiência pública sobre o porto, o Ibama mostrou claramente de que lado está. E não é do lado da população. 
 
Mas o governo do Estado é o responsável por criar a atmosfera favorável, concedendo todas as facilidades, em acordos selados a portas fechadas. Enquanto isso, moradores do norte do Estado e surfistas rejeitam veemente a construção do porto em Degredo. Há motivos de sobra para isso.
 
Primeiro, em decorrência dos impactos irreversíveis ao meio ambiente, às tradições culturais e à pesca tradicional. Segundo, devido à proximidade do empreendimento de Regência, uma das melhores praias para a prática de surfe do Brasil, que terá suas características completamente alteradas, assim como ocorreu na Praia de Camburi, após a chegada da Vale e da ArcelorMittal em Ponta de Tubarão. Regência será tão impactada como Degredo. Com mais um agravante: o Projeto Tamar realiza trabalho de proteção às tartarugas no vilarejo há décadas.
 
A insatisfação da população já foi demonstrada em abaixo-assinado e nas redes sociais. Em Regência, cartazes pendurados em casas ecoam o grito de “Fora Manabi”. Mas esses são devidamente abafados. Com o apoio da Prefeitura de Linhares e do governo do Estado, a empresa tenta seduzir a população com agrados, falsas promessas de empregos e reformas. Estratégias já conhecidas para desmobilizar a população e vender à sociedade uma realidade distorcida dos fatos. 
 
Daqui a pouco, a Manabi faz como o Itaoca Offshore, terminal previsto para Itapemirim, e lança a pedra fundamental de seus projetos antes mesmo da licença ambiental. Com direito a festa e elogios da classe política capixaba. Não será surpresa alguma. 
 
Sem uma reação à altura da sociedade civil, a Manabi vai chegar atropelando. E não demora. 
 
 

Manaira Medeiros é mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local e especialista em Gestão e Educação Ambiental
Fale com a autora: manaira@seculodiario.com

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Comentários

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OPINIÃO
Renata Oliveira
Mau negócio
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