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Rabo preso


18/09/2014 às 17:29
Como em todo processo eleitoral, as empresas de mineração e metalurgia não medem cifras para garantir a consolidação de seus interesses. O levantamento do Valor Econômico das doações feitas pelo setor aos candidatos deste ano mostra bem como funciona esse mercado lucrativo. Já foram liberados, até agora, nada menos do que R$ 91,5 milhões, 42,3% a deputados federais e senadores que buscam a reeleição. Esse dinheiro vira débito depois. E a fatura é altíssima.
 
Assim como sempre ocorre no Espírito Santo, a Vale lidera as doações por enquanto, com R$ 52,88 milhões. Mas adota o mesmo expediente dos últimos anos para se esconder. O dinheiro sai da conta de empresas do grupo, com CNPJs diferentes. A ArcelorMittal também aparece no topo, mas bem inferior à parceira de poluição da Grande Vitória, com R$ 13 milhões. 
 
Embora de saltar os olhos, esse volume de dinheiro não acaba aí. É referente à segunda prestação de contas dos candidatos. A terceira vem só após as eleições, em novembro. Os empresários gostam mesmo é de liberar dinheiro nesta reta final, para evitar exposição. Ou seja, muita gente ainda deve encher o bolso.
 
A atenção especial das mineradoras às campanhas proporcionais não é à toa. Elas estão de olho na aprovação do novo Código da Mineração, que tramita na Câmara, e no projeto que transfere do Executivo para o Legislativo a demarcação de terras indígenas – há proposta de regulamentação da mineração também nessas áreas. 
 
Os integrantes da comissão especial criada para discutir o novo Código da Mineração, como não poderia deixar de ser, foram os que levaram a maior parte da bolada, R$ 10 milhões, entre titulares e suplentes. 
 
Na lista, duas representantes da bancada capixaba. A deputada federal Rose de Freitas (PMDB), candidata ao Senado, foi a campeã geral: R$ 1,4 milhão, o que representa 96% de toda sua arrecadação até agora. Já a petista Iriny Lopes, que tenta a reeleição, levou R$ 290 mil - com trajetória política ligada aos movimentos sociais, doações de poluidoras a Iriny tem sido regra nas últimas eleições. 
 
No caso de Rose, ela conseguiu “bater” até mesmo o relator do novo Código, deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG), que arrecadou R$ 1 milhão das empresas do setor. Isso se deve ao fato de seu suplente, Luis Pastore (PMDB), ser do ramo – é dono da Copper Trading, ligada  à Vale.
 
No restante da lista, aparecem outras empresas como Votorantim-Aracruz Celulose (Fibria), CBMM, Grupo Rima, Gerdau, Grupo Equipav, Ferrous Resources do Brasil, AngloGold e Ibrama. Muitas delas já conhecidas dos capixabas e que adotam o mesmo tipo de estratégia para encontrar no poder público um parceiro duradouro e fiel. 
 
As mudanças na legislação no Código da Mineração irão beneficiar exatamente as “gigantes do setor”, determinando quem terá a prioridade para exploração de lavras minerais e o valor dos royalties pagos. No debate sobre a nova proposta, foram excluídas as questões ambientais e os trabalhadores da área. As próprias empresas ditam as regras. 

O financiamento de campanha não passa, portanto, de um investimento, com retorno garantido. Ninguém doa tanto dinheiro sem esperar nada em troca. A quitação do débito é no mandato. Já se sabe como: favorecimentos e lobbys. 
 

Manaira Medeiros é mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local e especialista em Gestão e Educação Ambiental
Fale com a autora: manaira@seculodiario.com

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