Seculo

 

Lewis Carrol


21/06/2015 às 09:21
Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll, foi um romancista, contista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático, além de ter sido reverendo anglicano britânico. Escreveu o clássico livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, e sua via paralela Através do Espelho, além de outros poemas escritos em estilo nonsense ao longo de sua carreira literária, o que inclui naturalmente sua criação poética dos doublets. Também ficou conhecido pelas suas obras de lógica, o que se reflete em seus escritos sobre Alice.
 
Lewis Carroll, apesar de ter feito várias outras atividades, é mais conhecido, e isto até hoje, como autor de literatura infantil. Porém, achar que Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho são livros para crianças, trata-se de uma visão que pode facilmente ser relativizada, pois Lewis Carroll traz nestes livros um mundo muito maior de referências do que simplesmente entretenimento infantil. Seu sentido infantil pode ser mais uma interpretação destas obras na época em que foram publicadas, do que na referência ao trabalho crítico posterior que nos dão a visão atual da Alice de Lewis Carroll, já com toda a sua trama lógico-semântica tematizada.
 
O impulso fantasista que, porventura, possa ser depreendido das obras de Carroll sobre a menina Alice é uma face, contudo, de superfície do que contém estes trabalhos literários. A fantasia é só o que está, numa primeira vista, no aspecto criativo e de personagens de que se faz as obras carrollianas sobre Alice. Pois, numa leitura atenta e fundada do que se trata Alice e suas estórias, isto é, o que vem de um simples sonho de uma menina, tem algo que a justifica, e que não é este suposto impulso fantasista que é uma capa bem apresentável de Alice, mas que está longe de ser o seu sentido.
 
O sentido, então, da matéria de que se faz Alice e suas estórias, sua trama onírica, tem muito do que Carroll estudou e pesquisou, isto é, Alice traz em seu bojo um universo inteiro de referências, e tais modos de apresentação da “fantasia” de Alice é um esquema, na verdade, que reúne alusões literárias diversas, aspectos científicos, e sua base se faz de um fulcro lógico-semântico que tem no paradoxo sua particular obsessão, o que coloca o sonho de Alice como um tratamento nonsense de aprofundamento, entretanto, deste sentido.
 
O sentido sendo subvertido pelo paradoxo é reforçado no sonho de Alice. O sentido é esgarçado o tempo todo para dele Carroll tirar o fundamento. O raciocínio passa por uma contenda de inversões para, no fim, Carroll conseguir na trama de Alice o sumo do que faz a mente funcionar como tal, ou seja, com uma compreensão profunda deste jogo em que o sentido das coisas existentes ganha um fundamento forte.
 
É bom notar que, apesar do cabedal referencial de que as tramas oníricas de Alice está repleta, temos que ter atenção, nas decorrências do trabalho crítico-literário, de não cair na armadilha fácil da superinterpretação, isto é, o viés psicanalítico que é mestre nisso, e  abrir mão de todo tique psicologizante, numa prevenção autocrítica para não colocarmos sentidos demais na escrita feita por Carroll ao “contar” Alice.
 
A superinterpretação, portanto, é denunciada pelos seus próprios cacoetes, ou seja, quando o trabalho crítico ganha uma densidade profunda com pretensão de abarcar sentidos de todas as perspectivas possíveis, podendo este tratamento da obra Alice de Lewis Carroll virar uma amálgama psicológica que, na verdade, se esboroa na sua extensão, e que, em se tratando de Lewis Carroll, o jogo lógico tem muito mais frutos de interpretação do que uma sonda inútil de profundidades psicológicas.
 
As interpretações simbólicas em Alice, então, são a armadilha de Carroll neste aspecto fantasista de que ela carrega em sua superfície. Pois se trata de um aspecto de capa de Alice, a simbologia não é seu sentido, o expresso em Alice como onírico, paraíso da psicologia, é superfície. O que tem de jogo lógico-semântico é que dá sentido às aventuras de Alice, e o paradoxo é seu sustento, como bem interpretou Gilles Deleuze. Uma semiótica objetiva e uma psicanálise subjetiva passam ao largo, inversamente entre si, por exemplo, da matéria de que Alice e os personagens que povoam suas estórias é feita. Pode até haver substrato semiótico ou psicológico, mas a grande versão de Alice é sua trama lógica, de regras do raciocínio, e de sua respectiva subversão.
 
Na leitura fantasista das obras de Carroll sobre Alice, por exemplo, podemos ver aí uma aura de mitificação que a envolve. Isto é, esta base de fantasia, armadilha psicológica, que é superfície, m fundo numa interpretação ingênua da figura e do sentido de Alice e sua trama onírica. Tal base ingênua passa pela publicação e sua época, ou seja, a herança desta interpretação de Alice vem da primeira impressão que houve historicamente, a fantasia como o único aspecto visível da obra de Lewis Carroll, e que se torna, então, uma obra de literatura infantil, o que também é, mas que não decodifica o seu trabalho extenso com o conceito de sentido.
 
A leitura concreta de Alice pode trazer certas limitações interpretativas, mas é o método pelo qual não saberemos “demais” e colocaremos uma justa medida das intenções de Lewis Carroll que, certamente, não teria inventado uma superpsicologia ao criar Alice e sua trama.
 
   O contexto biográfico do escritor tem peso na interpretação, como também aspectos lógico-semânticos que dão fundamento, tanto ao fenômeno onírico de Alice, como de sua referência a estudos conhecidos do próprio escritor nesta área. O não se exceder na interpretação tem como método relativo e adequado o viés concreto de ver o texto, isto é, de se ater mais ao texto de Alice em si, do que cair na inventividade de sua trama, e tentar tirar uma radiografia simbólica que passa para além da fala do texto.
 
É preciso prestar atenção ao que o texto de Alice diz na sua própria fala, nas vozes que aparecem pela trama, e não na invenção extrema desta própria trama. A invenção criativa e onírica, em Alice, tem seu sentido textual, mais do que subterrâneo. Então, o método pelo concreto, isto é, pelo textual, é um princípio seguro de não fazer da superinterpretação uma tentação da crítica literária sobre o que está em Alice.
 
Uma nota importante das duas obras, Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, é que as duas estão imbricadas num paralelismo que as vincula ao projeto lógico-semântico de Lewis Carroll. As duas narrativas estão em harmonia neste sentido lógico-semântico, e também nas cronologias que as estruturam. As duas narrativas são separadas por seis anos na publicação: a primeira é de 1865 e a segunda é de 1871.
 
O nonsense carrolliano tem uma mesma matriz em ambas as narrativas, e também comportam as mesmas técnicas de duplo sentido. Este é o exercício do paradoxo que a trama de Alice tem como sustentação de seu sentido principal. Tal técnica também está presente em uma obra posterior, o extenso romance Sylvie and Bruno, publicado em duas partes, e que dá um passo além para a ambivalência do nonsense, com a orientação realista. Ou seja, em Sylvie and Bruno, Lewis Carroll transforma seu projeto lógico-semântico em literatura anfíbia, juntando o caráter realista com o fantástico.
 
Uma das maneiras principais, ou a mais interessante, de se fazer a conexão entre Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, é no conteúdo dos poemas que aparecem em ambas as narrativas. Pois, quando não são nursery rhymes ou poemas infantis tradicionais, têm uma função paródica, que, em sua ironia, são imitações burlescas de poemas conhecidos dos líricos ingleses.
 
A ironia poética de Lewis Carroll brinca, sobretudo, com as palavras chamadas valise, que são criações que surgem da junção de palavras diferentes, e que formam um duplo sentido, ou melhor, um sentido novo, que, na sua formação, dão vazão aos sentidos originais e a um neologismo ao mesmo tempo. As palavras valise são a criação carrolliana que entram no jogo lógico-semântico, a serviço, na poesia, de uma burlesca corruptela da tradição poética inglesa.
 
Quanto às discussões de caráter lógico-semântico, tais estão concentradas nos diálogos entre Alice e alguns dos personagens. Por exemplo, em Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Alice discute com a Lagarta, com a Duquesa, com o Gato de Cheshire, com o Chapeleiro e com a Lebre de Março, e em Através do Espelho, ela discute com Tweetledum e Tweetledee, com Humpty-Dumpty, com o Cavaleiro Branco, com as duas Rainhas, etc. Os temas das discussões em ambas as narrativas passam pelo termo lógico-semântico que se refere, por sua vez, às questões de identidade, o sentido das palavras, o problema dos nomes, e as proposições lógicas.
 
O sentido da obra de Lewis Carroll, tanto em geral, como quando se fala de Alice, é que, mais do que uma carga simbólica, passível de superinterpretação psicológica, Carroll faz na verdade a percepção de um jogo dialético, nas relações entre significante e significado, do jogo de palavras e do que elas significam, e passa, através deste fenômeno linguístico, pelo questionamento das regras lógicas através do nonsense e pelo paradoxo.
 
Ou seja, Alice e toda a obra de Lewis Carroll tenta edificar o sentido, por sua vez, com a experiência de linguagem e suas decorrências, e nesta experiência ele se coloca numa trama lógica subvertida. Isto é, o uso da linguagem em Alice entra na subversão da lógica por esta, pois a origem dos paradoxos e do nonsense (efeito lógico subvertido) está na linguagem. A experiência linguística é a ferramenta das subversões lógicas de Lewis Carroll.
 
O paradoxo, em Alice, passa por inversões e reversões, isto é: Alice muda de tamanho, passa por reversões na ordem do tempo, e na narrativa temos também reversões de proposições, reversões de causa e efeito, e outras ilusões da lógica subvertida.
 
O paradoxo da identidade infinita, por exemplo, conduz à contestação da identidade pessoal de Alice, e isto entra num jogo carrolliano da dualidade dos sentidos, com a proliferação indefinida dos mesmos, numa trama sem regras definidas e com termos contraditórios entre si.
 
E, é bom frisar, a construção de paradoxos em Lewis Carroll, isto inserido em toda a trama de Alice, se coloca como jogos lógico-semânticos, mas tem sua interpretação mais correta no sentido de compreender-se que, salvo o aspecto lógico em si, tais paradoxos são, antes, fenômenos de linguagem. Tal sentido é fabricado por jogos poéticos e analógicos, tendo seu efeito de raciocínio apenas como decorrência do jogo de linguagem. E, em Alice, pelo paradoxo, temos uma demolição do sentido usual de linguagem, entrando nas fronteiras lógicas de que o uso das palavras podem provocar.
 
Lewis Carroll, contando com seu trabalho lógico-semântico, tanto em sua obra sobre Alice, como em seus trabalhos de lógica propriamente dita, tem-se o entendimento de que a capa infantil de Alice é muito forte, só que Alice também é para adultos, e sua amplitude passa por questionamentos humanos dos limites da realidade, do mundo onírico, tudo isso num esquema surrealista só na aparência, pois a substância do trabalho de Carroll passa ao largo da escrita automática e da obsessão pelo inconsciente dos surrealistas, colocando em termos de linguagem, num jogo, esta subversão que vem do sonho e que, com Alice, se torna apenas o fundo no qual se dá um verdadeiro enfrentamento das palavras e de seu sentido, tudo chega ao limite em Alice, e o pano de fundo onírico é só o detalhe de que tais subversões só seriam possíveis neste contexto. A trama onírica é o único ambiente no qual as experiências lógico-semânticas, incluído o paradoxo, se dão de forma fluida e com segurança.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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