Seculo

 

Novo livro de Isabella Mariano busca encontrar sentido em meio à desordem


03/08/2015 às 14:22
 
“Cortes Lentos” é um livro sobre perdas, uma obra que busca encontrar um sentido em meio à desordem. O segundo livro de Isabella Mariano é feito de um apanhado de poemas que versam sobre não deixar perder a própria essência em meio a mudanças drásticas.  “Corte Lentos”, definitivamente, é um livro sobre amor também, uma obra que reflete o momento pelo qual passa sua autora – que não tem receio algum em falar sobre seus textos serem reflexos de sua própria imagem. “Sou muito sincera quando escrevo poemas. Acho que poetas precisam ser sinceros na hora de escrever, senão falta poesia", detalha ela.
 
Detalhes, inclusive, fazem-se gritantes o tempo inteiro em “Cortes Lentos”, a começar pela capa que dividi-se cuidadosamente pelas cores vermelho e preto e que se estendem ao interior do livro, formando bordas e páginas completas derramadas em cores de luto. “É por esse caminho que Isabella quer nos levar em ‘Cortes Lentos’. Não a força, sem empurrão, apenas nos pegando pela mão”, escreve Juane Vaillant no prefácio –  passagem que define bem a proposta minuciosa do livro: um luto convidativo. 
 
As minúcias da obra reverberam a imagem da escritora, que tomou frente da escolha do desenho de capa, diagramação, recorte dos poemas e até alguns trâmites burocráticos. “Fiz quase todos os processos para reduzir gastos, mas até brinquei com a Marília, minha editora, e disse que seja qual for a situação quero continuar publicando em editoras independentes exatamente por ter esse espaço maior para o autor interferir em todas as escolhas”. Curiosa, ela pergunta: "Dá para perceber que o desenho de capa tem algumas ‘letrinhas’ por baixo? “Não consegui tirar todas!”, deixando explícito seu detalhismo com a obra.
 
A editora citada é Marília Carreiro, da “Pedregulho”, pela qual “Cortes Lentos” é lançado e chegará às mãos do público na próxima quinta-feira (6), a partir das 19h, na Kaffa Cafeteria, em Jardim da Penha, Vitória. A obra será vendida ao preço de R$ 20,00. 
 
Proposta literária de Cortes Lentos
 
Isabella Mariano é jornalista e escritora. “Cortes Lentos” é seu segundo livro. O primeiro foi “Gotas”, lançado em 2013 de forma independente e que também apresentava poemas. Lendo ambos os livros é possível perceber que o trabalho iniciado em “Gotas” é desenvolvido em “Cortes Lentos”. A simplicidade dos poemas, a busca pela oralidade, o descompromisso com as regras gramaticais, um desgoverno que toma forma em “Cortes Lentos” para homenagear o amigo Saulo. 
 
Saulo Ferreira Tavares foi assassinado no início do ano no terminal de Vila Velha, por um homem em surto. O jovem, estudante de artes visuais, era o amigo citado por Isabella. “O meu melhor amigo morreu e isso, para o poeta é a carga poética necessária para você jogar tudo no papel. Eu precisava escrever. Senti que se não escrevesse surtaria mais ainda. Daí escrevi muito de fevereiro para cá. Quando vi que eu tinha esse livro e que muitos dos poemas se relacionavam com ele, pensei que eu tinha que lançar. Menos por mim, mas para deixar registrado na história o nome do Saulo”.
 
A criação de “Cortes Lentos” foi súbita, mas não despreparada. O trabalho com o jogo de palavras e a simplicidade foram muito bem pensados pela escritora. “O simples também pode ser complexo. Acredito que isso se mantém nos meus dois livros, a diferença é que 'Gotas' parece que tem uma adolescente escrevendo, uma criança querendo brincar, te chamando para ler poesia. Já 'Cortes Lentos' passou por uma dificuldade que foi essa perda. Ele é o reflexo de alguém tentando lidar com uma dor -  e quando tem a dor as coisas ficam muito mais profundas e complexas”, explica.
 
As influências são muito claras no livro. Isabella lê Drummond, Leminsk e Oswald de Andrade – o primeiro, inclusive, é reverenciado por duas vezes em “Cortes Lentos”. Os poemas apresentam uma profunda reflexão acerca da existência humana, da retomada de rotinas, do incômodo com a cidade que está o tempo inteiro presente em “Cortes Lentos”. “Certo dia, ao andar  de ônibus vi algumas pixações em paredes da cidade e reconheci quem as fez. Pensei ‘cara, sou o tipo de cidadã que reconhece quem fez a pixação’ e, se eu reconheço tanto essa cidade, então essa cidade sou eu e ela vai estar presente no que escrevo. Ela é de onde vem meus medos, minhas amizades, alegrias, os encontros permitidos”, contou.
 
 
A escritora afirma reconhecer-se mais no poema, apesar de manter um site de textos em prosa, o “Boas de Prosa”. Por lá, Isabella testa e exercita contos e crônicas, já que para ela a poesia abrange mais do que só o poema, ela pode fazer-se presente numa crônica, como conta.“O exercício é justamente fazer com que os textos do site tenham poesia, toquem as pessoas e façam com que elas se identifiquem, porque isso é a poesia, é a identificação, o sentimento”. 
 
O site é realizado com a amiga Juane, a mesma que assina o prefácio e foi escolha óbvia da escritora em tê-la no livro. “Quando a Marília falou para escolher quem escreveria o prefácio, fiquei pensando que ‘tinha de ser o Saulo!’, mas ele não está mais aqui. Então de imediato foi a Juane, não tinha outra pessoa senão ela, que acabou vivendo também esse meu período de perda, conversou muito comigo, me ajudou muito. Eu sabia que ela entenderia todos esses poemas e sobre o que eles tratam.  A Juane é muito minha amiga, a admiro muito e o sonho que eu tenho de viver só de literatura ela também tem”. 
 
Saulo não se faz presente só nos enredos dos poemas, a ilustração de capa também nasceu de um desenho que ele deixou. A ideia em colocar uma arte do amigo na capa foi prontamente aceita por Marília e, assim, Isabella entrou em contato com a família do amigo para ter acesso aos desenhos que ele sempre guardou no caderno da faculdade. “O Saulo tinha mania de desenhar nos cadernos como se fossem rascunhos”, lembra ela.  O desenho escolhido foi uma mão a segurar uma ampulheta que, dependendo da perspectiva de onde se olha, pode estar cheia ou vazia. “Tem tudo a ver com o livro, mostra que o tempo dele aqui se foi e o tempo que eu estou vivendo a saudade ainda corre”, finaliza a escritora. 
 
Serviço
O livro “Cortes Lentos” (Pedregulho, 2015), de Isabella Mariano, terá evento de lançamento na próxima quinta-feira (6), das 19h às 21h, na Kaffa Cafeteria – Rua Darcy Grijó, 50, Jardim da Penha, Vitória. O livro será vendido por R$ 20 

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