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O crime ecológico compensa

A Samarco ou, seja, a Vale estava usando a água para esconder a sujeira da mineração, prática milenar que em si mesma constitui um crime contra a Natureza.
O que se chamou de acidente foi a súbita revelação de um crime continuado só comparável a dois outros crimes não menos hediondos praticados no mesmo ambiente — o desbravamento das selvas do rio Doce e o genocídio dos índios que habitavam essa região em tudo similar à Amazônia.  
Tudo similar: fauna, flora, clima, solo, subsolo. A única diferença é que as matas do rio Doce estavam no leste, junto ao Atlântico, enquanto a floresta amazônica configura uma ilha verde isolada no miolo da América do Sul e distante de quaisquer oceanos. Uma ilha que está sendo submetida ao mesmo processo de exploração vigente na mata atlântica de Minas, sul da Bahia e Espírito Santo.
Agora não adianta chorar a lama derramada. O que cabe fazer é tirar do desastre as lições cabíveis. Como? Com educação ambiental, aprimoramento da legislação ambiental e aplicação da justiça, sem com isso penalizar ainda mais as vítimas da catástrofe.
Ainda que a Natureza tenha um imensurável poder regenerador, não podemos deixar de comparar o enlameamento do rio Doce a outros grandes acidentes ecológicos provocados pela desídia empresarial combinada ao afrouxamento da vigilância técnica.
A ruptura das barragens da Samarco lembra a contaminação química por mercúrio da baía de Minamata no Japão; o envenenamento do rio Bophal na India pela Rhodia; a explosão da plataforma de petróleo da Petrobras e os frequentes acidentes com petroleiras no mar. São acidentes provocados por grandes empresas que se comportam como se estivessem acima das leis e dos direitos das pessoas.
Tudo isso está fartamente documentado. Basta uma consulta ao Google para ser tomado pela sensação de que as grandes corporações empresariais estão usando seu poder para destruir o planeta. Há um desmanche em curso. A Vale e a Petrobras são as campeãs nacionais nessa corrida sinistra.
O pior é a derrota moral: nos acomodamos diante desse imperialismo empresarial e, impotentes, perdemos a capacidade da indignação.
A rigor, a Samarco devia ser fechada e seus dirigentes presos sob a acusação de irresponsabilidade, homicídio, mortandade animal, corrupção, negligência, atentado contra o patrimônio natural etc. Mas não, no fundo, todo mundo torce para que a empresa volte a funcionar, mantendo-se os empregos, salvando-se os tributos das administrações públicas, as receitas cambiais da mineração e os dividendos dos acionistas. Não é assim que funciona o capitalismo? Então bola pra frente e que se retirem do campo os inconformados.    
Ou, seja, é possível que o crime compense. O Ministério Público fez um acordo para que a empresa constitua um fundo de R$ 1 bilhão. Parece razoável que a autoridade se adiante em vez de ficar esperando laudos sobre os prejuízos. Mas, na realidade, a Samarco ganhou um salvoconduto para continuar sendo a mesma, ou seja, negligente e irresponsável. Na prática, abre-se caminho para que outras empresas do mesmo porte sigam fazendo da mineração uma fábrica de danos ambientais e de doenças humanas. 

 

LEMBRETE DE OCASIÃO
“Após as privatizações da década de 90, o custo social de minerar se tornou muito maior para o povo do que o lucro que a mineração traz para a sociedade”
Amyra El Khalili, economista especialista em “commodities ambientais”

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