Seculo

 

Povo do Watu


16/12/2015 às 12:14
Texto e fotos: Rogério Medeiros



Os índios Krenak que encontrei consternados à beira do rio Doce na região de Governador Valadares, em Minas Gerais, depois da tragédia socioambiental da Samarco/Vale-BHP em Mariana, passam a nítida apreensão de que a história de seu povo corre o risco de se desmoronar junto com esse crime hediondo, destituindo o bem maior deles, que é o Borun Watu (povo do rio Doce). Os Krenak são os derradeiros Botocudo junto ao rio e agora ouvem seus angustiantes gemidos de morte.

Os relatos são realmente impressionantes. De um grupo de doze mulheres, acomodadas num improvisado banco à margem do rio, ouvia-se, diante da chegada da lama tóxica ao rio Doce: “Os peixes abrindo a boca e morrendo, que tristeza!”; “Não tem mais o barulho do rio dizendo que está vivo”; “A ligação com o rio vai além da água”. De outro grupo, desta vez com maioria masculina, mais lamentos: “Os antigos não admitem viver sem ele. É um dos nossos antepassados. Nos ensinaram que não existe vida sem ele. Vamos fazer silêncio, que o rio está morrendo”.



Mas a exata noção do significado desse rio para o povo Krenak foi dado pela pajé Deija. Ela ressaltou que o rio era tudo para o seu povo, dava vida aos Krenak. Era mãe e pai do povo. Tinha função da religiosa ao sustento. Peixe para a alimentação, água para beber e para limpeza, e água para os animais, sobretudo, dos que viviam nas matas em torno dele.

“Essa lama”, disse ela, já em tom pesaroso, “está matando tudo e não passa um dia que não se tem notícia de uma capivara encontrada morta. A garças estão desaparecendo”. E fala do drama de um quati que foi tomar banho no rio e morreu ao sair da água, deixando quatro filhotes à beira do rio. Os índios recolheram os filhotes e levaram para alimentá-los. “Sem a mãe não há vida para certos animais”, ensinou.

A história do quati, segundo ela, se repete todos os dias com outros bichos. “E os cachorros? Você já viu índio sem cachorro? Acostumados aos banhos no rio, morrem todos os dias. Os bois também”. A pajé sentencia: “Acabou o rio, acabou o nosso povo”.



Boa parte dessas lamentações, assim como as firmes palavras da guia religiosa dos Krenak, dizem respeito a um crime fora de catálogo, por ser de natureza ecológica. Mudou o destino de um povo indígena que chegou ao rio Doce há 300 anos (do século XVI em diante), soberano em boa parte desse tempo em abater fortes expedições que queriam  expulsá-los da região, num período anterior ao século XIX. O príncipe alemão Maximiliano Wied Neuwied, que os visitou numa dessas épocas, considerou os Botocudo o “mais formidável de todas as feras de suas  impenetráveis matas”.

As expedições que tentaram removê-los do rio Doce foram as do Espinosa, Tourinhos, Adorno, Martim Carvalho, Coronel Bento Lourenço, Vaz de Abreu Lima e Francisco Teixeira Guedes. Ou foram abatidos ou voltaram com baixa para os seus lugares de origem -  amargando o vexame de humilhantes derrotas impostas pelos índios.

Os Botocudo só começaram a sentir riscos, chegando até a acumular algumas derrotas, no século XIX, com a invasão de seu território por tropas policiais acompanhadas de especialistas em matar negros e de poderosos fazendeiros de outras paragens, com seus respectivos jagunços a tiracolo, anunciando os horrores que estariam por vir.

Na sua permanência pelo rio Doce, Saint-Hilaire, outro importante viajante europeu, registrou a existência do enorme ódio dos lusos- brasileiros em relação aos Botocudo, como se estivesse prenunciando o mortal decreto que viria em seguida com a declaração de guerra  do ministro da Agricultura do Império, o Conde de Linhares, recheado de  atrativos para acabar de vez com a raça Botocudo, contemplando com terras todos aqueles que os matassem, assim como a escravização daqueles que aprisionassem.



Essa truculência contida no decreto do Conde de Linhares levou fortes  contingentes, oriundos principalmente de Minas Gerais e do Espírito Santo,  à região dos Botocudo para se apossarem de  suas terras. E o fizeram com sanguinários matadores profissionais, com forças policiais à retaguarda seguindo os vestígios deixados para trás. Os  confrontos passados, em que  os Botocudo haviam sido sempre bem sucedidos, deram lugar a batalhas desiguais que custaram a vida de algumas centenas  de Botocudo, que sempre foram guerreiros pela própria índole, acrescida das circunstâncias  de dominarem territórios ambicionados pelos brancos.

Mesmo diante da possibilidade de serem aniquilados ou mortos, eles  não deixaram de realizar as cerimônias fúnebres  dos seus mais importantes caciques, mortos também nesses confrontos finais: tiveram os  seus corpos lançados  no rio Doce,  num reconhecimento à trajetória em vida na defesa do povo Botocudo. Ganharam essa regalia os caciques  Ninkate, Timóteo, Poté, Poton, Krakatan, Inhome, Nereré, Giporok,  Manuel Pequeno e Quirino Grande.

Regalia póstuma que não alcançaram os Pojichas, Paulo e Wakiman, também da estirpe dos melhores guerreiros Botocudo, que, por  ocasião dessas batalhas fatais, encontravam-se com os seus  guerreiros nas matas de São Mateus, recuperando as energias despendidas dos  embates com as forças invasores. Foram traiçoeiramente emboscados e trucidados por forças militares. Os corpos deles, bem com os de seus guerreiros, serviram a um lauto banquete às feras das matas, para infelicidade de sua própria história glorificada em grandes combates.

A vida dos Krenak no rio Doce também não foi fácil, principalmente por portarem a identidade Botocudo. Originário do Baixo Recôncavo Baiano, eles chegaram ao rio Doce pelo século XIX. Só que ao contrário dos Botocudo, que preferiam os esconderijos, os Krenak viveram sempre em aldeias.

Inicialmente eram seis mil Krenak, reduzindo-se na velocidade em que fazendeiros apossavam-se  de suas matas  para abrir  propriedades, período em que também cortaram o seu território  com  a  estrada de ferro Vitória-Minas, da mineradora Vale, que controla a Samarco junto com a anglo-australiana BHP.  Por essa época, o governo mandou para a região o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) para normatizar o assentamento dos fazendeiros e promover a retirada dos Krenak, levados para diferentes aldeias indígenas, dando preferência às amazônicas, pela dificuldade em encontrarem  o caminho da volta.

A  presença de Século Diário na  região dos Krenak, neste momento crucial dos impactos do rompimento da barragem, foi gerada pelo acompanhamento  à região da  pajé Guarani da aldeia capixaba Piraquê-açu, de Aracruz (norte do Estado), Keretxu-Edy, na sua missão de realizar um culto ao rio Doce para livrá-lo dos males da lama.



Essa presença da Keretxu subiu de importância por ser a pajé neta de uma das mais importantes xamãs da nação Guarani,  Tatatin Rua Retée, que, em determinado momento de sua andança religiosa, conviveu com os Krenak por mais de dois anos. Keretxu estava acompanhada do seu filho, o cacique Perú, familiares, e um devoto amigo da causa indígena, Everaldo Barreto.

Ela foi hóspede da pajé Deija (que acima posicionou-se frente à tragédia do rio Doce), de enorme ascendência sobre os demais integrantes da sua tribo. Dois de seus filhos ocupam posições estratégicas na aldeia: um é vice-cacique (Daniel) e outro professor (Itamar), que reintroduz  no currículo escolar o idioma Krenak do  tronco linguístico Macro-Jê.



Encontra-se também na companhia dela um irmão que resgatou numa aldeia Terena em Mato Grosso, por onde ficou  56 anos de sua existência, sem qualquer notícia da sua aldeia de origem. Ele havia ido para lá numa leva de mais de dois mil Krenak que o SPI distribuiu estrategicamente por aldeias amazônicas, com o velado propósito, como já dito, de evitar que eles pudessem retornar ao lugar de origem, o que realmente ocorreu, tanto que dessa leva que foi o irmão da Deija, poucos voltaram ao lugar de origem. A aldeia foi repovoada, mesmo, com os que ficaram pelas aldeias próximas, nos Maxacali e na Fazenda Guarani, ambas em Minas Gerais.

Esse irmão que a Deija resgatou e que atende pelo nome Euclides Krenak  é a própria  história  dessa diáspora a que submeteram os Krenak. Sorte dele, que apesar dos 105 anos de idade, voltou inteiro para junto do seu povo. Por sinal, bem lúcido, passando a impressão de um moço de meia idade, na melhor das condições físicas e mentais, e com os fatos vividos bem organizados na cabeça. Sobretudo desse seu exílio de 56 anos, bem como do tempo de bonança no rio Doce e nas matas.



Quando o levaram, ele estava ainda na casa dos 20 anos, deixando para trás duas mulheres e três filhos, que não reencontrou na volta: haviam morrido praticamente de velhice, diferente dele, que quando regressou ao seu lugar de origem, já estava com 90 anos. Falar do desaparecimento de sua família – como tentei - não fez bem a ele. Notei que o seu rosto na hora perdeu totalmente o brilho, recomendando-me que deixasse essa dor de lado.

Neste ponto, desisti de prosseguir querendo conhecer o seu interior. Deixei para outra época, não muito distante, porque a idade do repórter também é área de risco. E o tempo, como dizem, urde. Passei dele para outros personagens da saga Krenak, que reuni debaixo de uma mangueira no terreno da pajé Deija.

Antes, porém, vou fazer um flash do tempo em que o velho Euclides Krenak era jovem e frequentava o rio e as florestas da sua tribo. Diferente, naturalmente, de como era e como o encontrou na volta: toda pelada. Não havendo, praticamente, mais mata. “Eles (os fazendeiros) destruíram quase tudo. Tomaram as nossas terras, matando índio e crianças no facão”.

Ele também falou de um Krenak que atendia  pelo nome de Joaquim Grande e foi barbarizado e levado para uma cadeia que o SPI construiu na aldeia para prender os índios que resistiam ao tratamento bárbaro dos policiais, em especial aqueles que eram culpados não pelo o que faziam, e sim por aquilo que podiam fazer.

Segundo ainda o velho Krenak, antes do SPI chegar, eles viviam de tanga, de floresta em floresta, caçando, colhendo frutos e extraindo raízes, pelas cavernas e nas malocas. É inesquecível para ele os banquetes que o pai oferecia de onça na brasa, numa época em que se fazia fogo batendo pedra com pedra.



Deixemos, pois, o centenário Krenak para outra ocasião, para ouvir outros personagens da saga dos Krenak. A do povo da Deija debaixo de uma mangueira em seu terreno, quando fiquei sabendo que esses autênticos Botocudo não passam hoje de 700, reunidos em seis aldeias. Ocupam uma área de 900 mil e 400 hectares, à margem esquerda do rio Doce, e lutam para ocupar a margem direita, que também os pertence, mas área onde o branco explora água mineral e por onde também trafegam os barulhentos e poluidores trens de minério da Vale.

Ouvi que o rio estava fraco (alusão ao seu assoreamento), mas continuava dando tudo para a vida deles. No rio, os índios ensinavam as crianças a nadar, pescavam, e caçavam nas suas matas ciliares. Ouvi também inúmeros e tristes relatos de desencontros na busca de parentes que haviam sido levados para outras aldeias. A prisão a qual submetiam os índios a torturas, o rio Doce acabou com ela. A enchente de 1979 destruiu a cadeia que, por sinal, era sólida e espaçosa. Como disse um deles, o rio foi companheiro até nessas horas.



Ainda por esse tempo, os índios Krenak conheceriam uma nova invasão de seu território, sob o comando do capitão Pedro Ferreira, da Polícia Militar de Minas Gerais, que  notabilizou-se na região como um sanguinário matador a serviço das suas elites rurais. Ele evacuou os Krenak debaixo de todo tipo de violência e tortura.

Ainda haveria uma terceira tentativa de expulsá-los, muito embora tivessem ocupando uma pequena faixa de terra junto ao rio. Foi por ocasião em que o SPI havia dado lugar à Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967, e o país já se encontrava sob regime de exceção, resultado do golpe militar que instalou-se em 1964. Também foram tirados na base da violência por forças militares comandadas por um oficial da Polícia Militar de Minas Gerais, o  capitão  Manoel dos Santos Pinheiro – rivalizava com o capitão Pedro em matéria de violência -, que os confinou  num reformatório que atrevidamente deram o nome de Krenak, em Resplendor (MG).

Os Krenak, que são hoje o que sobrou da raça Botocudo, empenham-se na Funai e demais órgãos do governo federal para reaver os Sete Salões, onde, em vários momentos das perseguições sofridas, se refugiaram e realizavam os seus cultos religiosos. Era sagrado e onde dizem que ouviam as vozes dos seus xamãs.

São sete salões amplos interligados e profundas cavernas. Ficam no alto de um morro. Dentro deles os índios encontravam toda sorte de alimento e, quando faltavam, contam que havia o recurso de um cipó que aliviava a fome. Corre, ainda segundo eles, um vento frio, e as iluminações são fortes, principalmente à noite. Há o barulho de um rio, sem que exista qualquer rio. Até muito forte, como sempre foi a presença do rio Doce.



Pelo que ouvi da pajé Deija, não há dúvida de que por lá circulam as almas das xamãs, principalmente daquelas que subiram por ocasião das perseguições e não desceram mais. Os Krenak asseguram, com absoluta convicção, que nenhuma das invasões do seu território levou os invasores aos Sete Salões. Foram atacados na subida por onças, gatos maracajás, gaviões e os muitos animais peçonhentos, com a cobra à frente.

Como os valores tendem sempre a desaparecer, essa retomada dos Sete Salões é uma manifestação clara da conservação da própria identidade do Botocudo. Povo do qual os Krenak, que agora se sentem mais uma vez ameaçados, são hoje a única referência de existência.

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