Seculo

 

Milson, o multimídia


27/06/2016 às 17:23
Acostumado a comentar assuntos políticos neste espaço, vou deixar de fazê-lo hoje para homenagear uma das maiores expressões culturais do Espírito Santo: o multimídia Milson Henriques, que morreu na madrugada do último sábado (25), no Hospital das Clínicas, em Vitória.
 
Presto essa homenagem movido pela gratidão da enorme contribuição que Milson deu à cultura do Espírito Santo e pela emoção de ter participado de parte da sua rica vida. Das gerações que compareceram ao seu sepultamento, faço parte da mais antiga delas. Conheci Milson trazido por outra inesquecível figura e não menos importante da intelectualidade capixaba: a jornalista e cronista Carmélia de Souza.
 
Trabalhava no jornal A Tribuna nos idos de 1960. Carmélia chegou com Milson e me pediu para que o apresentasse ao diretor do jornal, Djalma Juarez Magalhães. Disse que trazia uma boa proposta. Olhei para aquela figura magrela, alta, sorridente, simpático, inquieto, e disse-lhe: “Pera aí, meu caro, isto não é comigo.
 
Como ele insistia que eu olhasse a peça que carregava consigo, acabei levando para uma pequena sala que era Redação. Dividia o espaço com Gilson Felix, que fazia esporte, e o professor Américo Guimarães, que era o redator. O resto do jornal era com o Djalma, que dava conta de tudo. Ele ainda arrumava tempo para cuidar da coluna da sua mulher, Maria Nilce.
 
Quando Mison desenrolou uma página de jornal desenhada apareceu a proposta de um jornal nanico, que tinha o título de “Jornaléco”. Repeti: “Isto não é comigo, não. Tentei lhe explicar que eu era apenas um repórter de geral. Fazia matérias para as editorias de política, cidade, e ainda cuidava de uma coluna de opinião sobre política.
 
A ideia do Jornaléco era ótima. Levei para o Djalma, mas antes, taticamente, passei pelas mãos da mulher do Djalma, a Maria Nilce, que fazia uma coluna social de grande sucesso. Ela gostou e Milson emplacou o seu Jornaléco. E Djalma passou a contar com outro problema pelo conteúdo crítico do Jornaléco, que juntou-se à coluna da Maria Nilce, demolindo figuras da alta sociedade capixaba.
 
Pouco tempo depois, assistiria Milson como personagem central da peça Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, dirigida por Toninho Neves, e que tinha no elenco além de Milson, Zélia Stein, Cláudio Lanchini, Alcides Vasconcelos, Sheila Bandeira, Margarida Del Caro, e os músicos Afonso Abreu e Tião de Oliveira. Um sucesso enorme; cinco meses de casa cheia.
 
Viria a reencontrá-lo tempos depois, em O Diário, quando fui dirigi-lo. Ele criou um personagem interessante para o momento em que vivia o país: em plena ditadura e sob o AI-5. Era o boneco de seu Justino. Lado a lado. Num ele estava triste e explicava o motivo; noutro surgia alegre e também dizia por quais motivos. No dia em que Vitória recebia o arcebispo de Olinda, D. Helder Câmara como paraninfo da formatura de uma turma de economistas da Ufes (D. Helder era uma figura que constava entre os impublicáveis da censura dos militares), Milson fez um seu Justino com a boca tampada por um crucifixo. Deu cana.
 
Não posso encerras essas reminiscências sobre Milson sem deixar de registrar a grande paixão vivida por ele com a cronista Carmélia M. de Souza. Não é sem razão que o destino reservou para os dois estarem enterrados na mesma ala do Cemitério de Santo Antonio. Que sejam ali, felizes para sempre.

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