Seculo

 

Aracruz Celulose insentifica violência contra quilombolas dentro do território reconhecido


16/09/2016 às 18:19
O emprego de violência é a marca registrada da forma com que a Aracruz Celulose (Fibria) sempre lidou com as comunidades quilombolas – e também indígenas – do norte e noroeste do Estado. Há quase meio século, ela roubou os territórios desses povos tradicionais e exterminou a Mata Atlântica para plantar seus soldados estrangeiros do deserto verde. O resultado é que hoje cerca de 250 mil hectares são ocupados com a monocultura de eucalipto, seja por ação da Aracruz o da Suzano.

Desertificação estabelecida, crise hídrica cada vez mais acentuada, a violência continua. Após uma ampla mobilização de antropólogos e ativistas dos direitos dos quilombolas, várias comunidades tiveram seu território reconhecido pelo governo e aguardam titulação. Mesmo assim, a empresa continua utilizando da violência e do apoio da Polícia Militar para oprimir e criminalizar as lideranças quilombolas.

Desta vez, as vítimas diretas foram o agricultor Antonio Rodrigues de Oliveira, da comunidade de Linharinho, e o contra-guia do Ticumbi – manifestação folclórica mais emblemática de Conceição da Barra e uma das mais importantes do Estado – Berto Florentino, de São Domingos. Ambos estão sendo ameaçados pela Polícia Militar de terem suas roças – de pimenta-do-reino e abóbora, respectivamente – destruídas para o plantio de eucalipto.

Antonio foi abordado no domingo (11) pela empresa de segurança patrimonial da Aracruz Celulose, que depois trouxe a Polícia Ambiental. O motivo foi o corte de acácia, para servir de apoio aos pés de pimenta-do-reino. A ideia é, em seguida à retirada das acácias, espécie invasora, proceder um reflorestamento com espécies nativas e frutíferas. Quinhentas mudas já foram disponibilizadas, na forma de permuta, com um produtor de Nova Venécia.

Na comunidade de Antonio, passa o Córrego do Caboclo, um dos poucos que sobreviveu na região, devido aos cuidados que os moradores têm dispensado às nascentes. E mesmo nos arredores do Caboclo, muitos poços já não têm água. “Mais de mil nascentes secaram no nosso território”, denuncia Antonio.

No domingo, Antonio foi levado pela Polícia Ambiental até a delegacia de São Mateus. Mas antes, conseguiu levar os policiais até uma área, próxima de onde ele retirou as invasoras acácias, onde a Fibria desmatou toda a mata ciliar (Área de Preservação Permanente – APP). “Passaram com máquina e desmataram tudo”, relatou. Antonio conta que o sargento constatou o crime ambiental da empresa e após prestar seu depoimento na delegacia, assinou um termo circunstancial, que ele não soube explicar do que se trata.

Dois dias depois, novamente a empresa o coagiu, desta vez com apoio da Polícia Militar. “Não entendo, a acácia é uma vilã e eu estou dentro do meu território. Mas o comandante me tratou de forma agressiva, disse que ia mandar a empresa passar em cima da madeira”, desabafa.

Respeito sim, medo não

Levado para a Delegacia de Conceição da Barra, mais depoimento e mais papeis assinados sem conhecimento do conteúdo e objetivo. “Na visão deles, a empresa é dona da terra, não vê que é área devoluta. A empresa faz com que a polícia me veja como um criminoso”, denuncia Antonio.

“Minha dó é passar por cima da minha biodiversidade, que eu estou recuperando lá, é a empresa ir lá com a máquina e moer tudo”, clama. “A empresa é bilionária é está tirando alimento da minha casa. Eu estou aqui pra defender a Agroecologia. São Mateus está bebendo água salgada há seis meses, porque as nascentes estão secas, a água não chega no rio, o mar invade”, explica.

Em São Domingos, a violência aconteceu nesta quinta-feira (15), também através da segurança patrimonial e da Polícia Militar. A ameaça é de destruir a plantação de abóboras com trator. Duas viaturas já foram ao local e os policiais chegaram a disparar tiros para o alto.

“Dissemos que não era pra fazer. O único córrego que tem água por aqui é o que eu cuido, que não deixei plantar eucalipto”, defende Berto. “Não estamos deixando plantar. Se plantar nós vamos arrancar o eucalipto todo”, avisa.

Em ambas as comunidades, os líderes ameaçados estão se mobilizando para acionar o Ministério Público Federal. “Eles vêm pra amedrontar a gente. Eu respeito a autoridade, mas medo eu não tenho, não”, declara o velho Berto, guardião da cultura popular há 45 anos, ajudando a manter vivo o Ticumbi de São Benedito.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Cara e crachá

Uns publicaram vídeos e notas nas redes sociais, outros só notas, outros nada. Mas a CPI da Lava Jato continua na conta dos deputados arrependidos

OPINIÃO
Editorial
A Ponte da Discórdia
Terceira Ponte entra novamente no centro dos debates políticos em ano eleitoral. Enquanto isso, a Rodosol continua rindo à toa...
Piero Ruschi
O Governo do ES e seu amor antigo ao desamparo ambiental
Mais um ''Dia Mundial do Meio Ambiente'' se passou. Foi um dia de ''comemoração'' (política)
Bruno Toledo
Estado sem PIEDADE!
As tragédias que se sucedem no Morro da Piedade sintetizam as contradições mais evidentes e brutais do modelo de sociedade e de Estado que estamos mergulhados
Geraldo Hasse
Mundo velho sem catraca
Cinquenta anos depois, é possível fazer um curso técnico por correspondência via internet
Roberto Junquilho
Hartung, o suspense
O governador Paulo Hartung mantém o suspense e pode até não disputar a reeleição em 2018
BLOGS
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Uma revoada de colibris
MAIS LIDAS

Visita de interlocutores de Hartung a Rodrigo Maia sinaliza mudança de cenário

Juiz Leopoldo mais próximo de ir a Júri Popular por assassinato de Alexandre Martins

Contrato do governo do Estado com a Cetesb sobre poluição do ar continua sigiloso

Hartung, o suspense

LDO será votada na próxima segunda-feira na Assembleia