Seculo

 

Idaf autoriza plantio de mais 1,9 mil hectares de eucaliptos no norte do Estado


19/09/2016 às 17:26
Num dos momentos mais dramáticos da história hídrica do Espírito Santo, o anúncio de aumentar a área de monocultura de eucalipto no já tão castigado norte capixaba, parece piada de mau gosto. “É o cúmulo do absurdo”, critica Valmir Noventa, camponês e coordenador estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Pois é verdade. O Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) emitiu no último dia cinco, a Licença Prévia nº 002/2016 para plantio de 1,9 mil hectares de eucalipto pela empresa Suzano Papel e Celulose, no imóvel rural denominado Bloco II (fazendas Alvorada, Balão, Esplanada, Juazeiro, Luiz Siqueira, Oriental e São Jorge), localizada no município de Montanha, com validade de um ano.

Enquanto isso, os camponeses continuam sendo “cozinhados” pelo governo estadual e o Programa Reflorestar tem mais propaganda do que ação concreta. O programa é citado abundantemente nas matérias oficiais do governo sobre a crise hídrica, mas nem nos textos e vídeos palacianos são mostrados dados resultados relevantes. “É muito tímido, muito burocrático”, lamenta Valmir.

Há mais de duas semanas, Século Diário solicitou à assessoria de imprensa da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), que repassasse dados atuais do Reflorestar, com ênfase no número de contratos firmados a partir de 2015, já que no site do Programa, os últimos contratos informados datam de 2014. Nenhuma resposta ainda. Parece que não há, mesmo, o que falar de positivo.

Nesse sábado (17), o governador Paulo Hartung (PMDB) gravou um pronunciamento em vídeo sobre a crise hídrica e cita a ampliação do Reflorestar. E nesta segunda-feira (19), o Diário Oficial do Estado tem o drama da seca como matéria de capa. Nova citação vazia ao Programa, ao lado de uma enxurrada de números sobre as perdas da agricultura nos últimos dois anos.

Os agricultores familiares e agroecológicos, os camponeses, os assentados e os trabalhadores rurais sem terras do Espírito Santo sabem bem o que são essas perdas. A Jornada Campo-Cidade – campanha articulada por mais de uma dezena de coletivos que trabalham pela agroecologia, agricultura familiar e reforma agrária – tem denunciado a negligencia do governo Hartung com o campo, reivindicando apoio para arrebate das dívidas das famílias e ampliação do Programa Reflorestar para as famílias camponesas.

Há cerca de um ano, as manifestações e protestos se intensificaram, mas até agora a Jornada foi recebida uma única vez pelo governador, que permaneceu na audiência por menos de 15 minutos, deixando que seus subordinados conduzissem o teatro de anúncio de promessas que ainda não foram cumpridas.

Enquanto se omite em apresentar providências reais para minimizar os efeitos da seca, o governador isenta as empresas de responsabilidade, reduzindo os alertas apenas ao consumo da população.

É possível produzir e preservar

O último ato da encenação da gestão Hartung correu no dia 25 de agosto, quando o vice-governador César Colnago (PSDB) recebeu uma comissão do movimento e se comprometeu a estudar o conteúdo de uma minuta elaborada em conjunto com técnicos do governo, com propostas para o salvamento da agricultura familiar. Até agora, nenhuma resposta.

A verdade é que o governo Paulo Hartung tem desprezo pelos movimentos sociais do campo, que defendem um projeto alternativo ao agronegócio, esse sim, avidamente protegido pelo atual governador. Um projeto que passa pela reforma agrária – política púbica não só social, mas essencialmente, também, ambiental -, pela diversificação da produção, pela conversão à agroecologia, pelo direcionamento da comercialização para o mercado local, pelo repovoamento do campo e fixação do jovem no campo (através de estudo de qualidade, trabalho e cultura), pelo resgate das sementes genuínas (ou crioulas) e pela preservação dos recursos naturais. São pilares do projeto de agricultura defendido pelos movimentais sociais desprezados por Hartung. Não são palavras vazias, discursos vazios. São as diretrizes, a realidade.

“Um modelo que vai garantir, para as gerações futuras, alimento, água e ar puro”, conclama o coordenador do MPA. Mas que não tem recebido nenhum apoio governamental. “Pelo contrário, tem recebido muita resistência”, denuncia.

Apesar de toda a dificuldade, os movimentos agroecológicos têm conseguido implementar importantes experiências em vários municípios, especialmente no norte, com excelentes resultados. “É possível produzir em quantidade e qualidade e ainda preservar a natureza. Produção não precisa estar casada com a destruição, como no agronegócio”, explica Valmir. 

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