Seculo

 

Pescadores denunciam deformação de peixes em Linhares e Colatina


21/10/2016 às 14:30
A contradição continua: qual é o sentido que há em se proibir a pesca, apenas marinha, e restrita à região ao sul da Foz do Rio Doce, e manter liberada a atividade ao norte da Foz, ao longo de todo o rio e também nas lagoas de Linhares, após o crime da Samarco/Vale-BHP?

“Muito esquisito, até demais. A gente não é especialista, mas acho muito estranho”, observa a pescadora Adriellen Almeida Nascimento, de Maria Ortiz, em Colatina.  “Como que está contaminado na Foz e no Rio não?”, indaga Milton Jorge, presidente da Colônia de Pesca de Linhares (Colônia Z-06 Caboclo Bernardo).
 
Mas, não tendo outra fonte de renda, muitos continuam pescando, mesmo desconfiando da segurança do ato. E, enquanto no mar simplesmente não há quem compre o pescado, no rio as vendas ainda continuam, porém, desde fevereiro, deformações nunca vistas antes nos peixes começaram a se tornar cada vez mais comuns.

Em Linhares, os pescadores têm presenciado o fenômeno durante todos esses meses e, esta semana, uma denúncia vinda de Colatina traz a mesma aberração. “Eu nunca vi aquele tipo de coisa. Meu esposo mora aqui há dezesseis anos e eu há seis. Nem nós nem minha sogra nunca vimos. Depois disso, a gente não entrou mais na água”, relata, assustada, a pescadora Adriellen.

Já Milton Jorge afirma que casos como esse estão acontecendo cada vez com maior frequência. Há oito meses, espécies com pele mais fina, como robalos, tucunarés e bagres amarelos, praticamente foram exterminados. A tainha também diminuiu muito e as que ainda aparecem estão cheias de machucados e deformações, o mesmo tem ocorrido com tilápia (espécie encontrada por Adriellen em Colatina) e a Curmatã. Situação um pouco menos dramática é a do Cascudo, Manjubinha e Carapeba.

Fim da pesca

“Eles exterminaram a cultura do pescador”, denuncia Milton. O presidente da Colônia de Pesca de Linhares também desaprova a forma como foram feitos os cadastros pela empresa, que acabaram contemplando muita gente que não é pescador. “A empresa foi cadastrando todo mundo que se dizia pescador, sem pedir comprovação. E um monte de pescador de verdade, registrado aqui, ficou de fora”, reclama.

Para o recadastramento que a Samarco/Vale-BHP anunciou fazer, está sendo exigida entrega de notas fiscais de todos os materiais de trabalho, coisa que a maioria dos pescadores não possui. “A Samarco exterminou toda a pesca em Linhares e no mar do Espírito Santo, não foi punida, e agora está querendo que o pescador seja culpado”, inflama-se.

Milton tem clamado por explicações e ajuda para seus companheiros, no rio e no mar. “Nossa preocupação é que o pessoal de Barra Seca, a Samarco não reconheceu”, diz.

Uma sugestão que já fez à empresa e ainda não foi aceita é de repovoamento das lagoas, junto com o município. Linhares tem 69 lagoas e estão todas “cercadas” desde novembro, mês do crime do rompimento da barragem, como forma de impedir a entrada da lama a partir do Rio Doce.

O problema é que a medida foi tomada em novembro, no auge do período reprodutivo dos peixes – que vai até 28 de fevereiro –, quando eles entram para as lagoas para reproduzir. Impedidos de seguir seu ciclo natural, acabaram condenando as lagoas a um despovoamento cruel.

Feito o repovoamento, o pescador teria como “ocupar a cabeça” com a pesca novamente dentro de um ano, aproximadamente. Outra reivindicação é que a Samarco/Vale-BHP reconheça todos os pescadores do município, inclusive os que pescam nas lagoas.

Por ora, os que foram cadastrados estão recebendo um auxílio de R$ 800 a 1.500, dependendo do número de dependentes. 
 
Adriellen pede que seja feita uma “pesquisa mais aprofundada” sobre a saúde do pescado no Rio Doce, duvidando dos laudos que dizem sobre a segurança em se comer o peixe e ingerir a água. “Deviam pesquisar um pouco mais e abrir a pesquisa pra população que foi atingida”, reivindica. “Aqui [Maria Ortiz] é uma vila de pescador. O lazer que a gente tinha, aquela vontade da pessoa pescar, as crianças que brincavam e jogavam bola no rio, e mesmo os adultos que iam jogar bola, hoje não existe mais”, lamenta. 

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