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Palestra na Ufes aborda contaminação do manguezal de Vitória por pó preto


26/10/2016 às 17:54
Fotos: Diego Ortega Romero Nunes/ Iara da Costa Souza
 
São três as principais fontes de poluição do manguezal da Baía de Vitória: os efluentes industriais (lançamento direto no mar e emissários submarinos), os resíduos sólidos (formados basicamente pelo passivo ambiental da Vale: centenas de sacos de pó de minério jogados pela empresa no final da Praia de Camburi desde a década de 1970) e o material particulado no ar (popularmente conhecido como pó preto, emitidos pela Vale e ArcelorMittal). Agrotóxicos também têm uma presença relevante, mas esgoto doméstico não foi detectado.

Das três principais, no entanto, a única que permanece na cadeia trófica, ou seja, é encontrada nos organismos dos peixes, ostras e plantas pesquisados, foi o pó preto. Esses e outros resultados de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas pela equipe da bióloga Iara da Costa Souza desde 2013 e serão apresentadas nesta quinta-feira (27), às 10h30, no auditório do Centro Tecnológico da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em Goiabeiras.



Inicialmente com apoio da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do extinto Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia do Município de Vitória (Facitec) e do governo da Argentina, a pesquisa, na segunda fase, recebeu financiamento também dos governos da Inglaterra, da Escócia e de São Paulo.

“Por mais que eu tenha procurado, não houve apoio do órgão ambiental ou das empresas para a realização das pesquisas, algo bem crítico”, lamenta Iara. O Fundo de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) só veio somar ao trabalho em 2015.

A bióloga, que é mestre e doutoranda em Ecologia e Recursos Naturais, conta que as técnicas empregadas são conhecidas mundialmente como análise ambiental forense, uma área que não existe no Brasil e cujo enfoque é a utilização de diversas técnicas da área geológica, química e biológica. Em conjunto, explica, essas técnicas fornecem dados sobre a abrangência de impactos industriais e as medidas mais adequadas, tanto mitigadoras quanto compensatórias.

“O interesse do órgão ambiental deveria ser primordial, uma vez que parte dele a decisão sobre estas medidas. O envolvimento da empresa é necessário para evitar qualquer questionamento posterior e porque, no final, quem vai melhorar o processo produtivo para evitar o impacto é a empresa”, justifica a bióloga.

Na palestra desta quinta-feira, Iara apresentará parte dos dados já levantados, como o fato dos resíduos sólidos, ou o passivo ambiental da Vale, apesar de estarem em concentrações elevadíssimas, as maiores já detectadas em todo o mundo, não entrarem na cadeia trófica, que é alterada exclusivamente pelos metais pesados presentes no pó preto. “São partículas pequenas, mais fáceis de absorção, e estão disponíveis o tempo todo”, explica. O passivo, por sua vez, continua Iara, “não entra na cadeia trófica porque não solubiliza, fica estático”.



O famigerado pó preto não só foi encontrado na cadeia trófica do manguezal e das praias da Capital, como também no manguezal de Santa Cruz e, incrivelmente, pode impactar uma área ainda mais distante, alcançando até 500 quilômetros, extrapolando, portanto, os limites do Espírito Santo, seja para o norte ou para o sul, a depender da posição do vento.

A próxima etapa é estudar os efeitos das nanopartículas dos metais pesados do pó preto sobre o sistema respiratório. As primeiras experiências acontecerão em janeiro próximo, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar/SP).

“O que a gente pretende fazer agora é, identificada a fonte, saber o que entra passivamente nos pulmões humanos”, antecipa a pesquisadora.  O método consiste em utilizar células de pulmão humano cultivadas, que serão expostas às nanopartículas dos metais pesados presentes no pó preto. “Essas nanopartículas são a parte do material particulado que viaja, alcançado até 500 km, e que entram passivamente nos pulmões”.



O avanço de suas pesquisas e o crescimento no número de instituições apoiadoras não fazem Iara perder de vista a dificuldade em se fazer esse tipo de estudo no Brasil. “A luta pela compreensão e abrangência de um impacto ambiental no Brasil é solitária e depende de um envolvimento pessoal, que envolve a paixão por pesquisa”, conta.

Envolvimento pessoal e paixão que lhe sobram, desde a infância. “Foi por causa do pó preto que decidi ser bióloga. Brincava na rua e achava lindo aquele pó. Na década de 1990 era muito forte a contaminação. Achava muito bonito aquele metal pesado, mas já tinha curiosidade de saber o que ele podia provocar na saúde das pessoas”, recorda. 

O pó preto emitido pelas empresas do Complexo de Tubarão – Vale e ArcelorMittal Tubarão – possui vários metais pesados além do ferro, como arsênio, chumbo e titânio, que são maléficos para a saúde.

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