Seculo

 

Por que sim ao Trump?


09/11/2016 às 15:47
O mundo acordou nesta quarta-feira (9) perplexo com a vitória do milionário Donald Trump, eleito o 45º presidente dos Estados Unidos. No meu caso, fui dormir por volta das cinco horas da manhã, sem ver a proclamação do resultado oficial, mas com a certeza de que uma nova ordem mundial estava prestes a ser instaurada. Sem fazer maiores digressões sobre as posições do candidato eleito, me permito lançar um olhar sobre o resultado das urnas, que fez cair por terra a opinião da maioria dos analistas políticos.

Seja na mídia americana, quanto na tupiniquim, todos chamaram atenção ao recado do eleitor de Trump. Que ao meu sentir não revela, a priori, uma simples concordância tácita com as posições pessoas de Trump – um sujeito homofóbico, racista, xenófobo, misógino, entre outros adjetivos desprezíveis. Foi sim uma mensagem forte contra o chamado establishment, ou no bom e velho português, um basta às elites.

No caso deles, representada pelas elites econômicas de Wall Street, que foram contempladas pela recente recuperação econômica dos Estados Unidos, que ainda não chegou aos trabalhadores e cidadãos mais comuns. Foi traçado ainda um perfil do eleitor de Trump: americano branco, de meia idade, sem ensino superior, oriundas das cidades mais atingidas pela crise e que estão frustrados com o “fim do sonho americano”.

Voltando os olhos para nossa realidade, muitos dizem que a vitória de Trump pode inflar nomes como o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-SP), que defende uma pauta conservadora, baseada em “valores da família” e vê com saudosismo o período da ditadura militar. Ao meu sentir, mais um grande erro dos analistas que se apressam em tentar analisar fenômenos (aliás, o termo fenômeno é utilizado para tudo aquilo que não conseguem antecipar ou fazer uma explicação plausível).

O pretenso eleitorado de Bolsonaro e os eleitores de Trump nada têm a ver, em uma primeira visão. O presidente eleito americano fez um discurso atacando as empresas globais – que ameaçavam sair do País, defendendo a adoção de medidas rigorosas para punir essas grandes corporações para garantir os empregos locais. Trump propôs ainda uma espécie de “desglobalização”, revertendo um processo de internacionalização da economia – que fatalmente atinge a maior parte da população.

Diante disso, fica claro que o discurso populista é muito mais ligado à questão econômica do que qualquer outro ponto. Essa talvez seja a grande falha no discurso do “bolsomito”, que se resume à pauta conservadora que pode até contagiar parte das redes sociais, mas não chega à grande massa que decide as eleições – quais sejam de mulheres, negros, moradores das regiões Norte/Nordeste, jovens pobres e os trabalhadores que se preparam para sair da classe C. Confundir a classe média americana com a brasileira é um erro, afinal, se apresentam como sociedades totalmente diferentes, apesar da proximidade dos desejos do eleitor.

O péssimo resultado eleitoral do PT no pleito municipal deste ano tem muito mais a ver com a rejeição do partido em função da Operação Lava Jato do que a ascensão de um novo discurso entre a população. Neste cenário, me parece muito acertado o caminho seguido pelo senador Magno Malta (PR), que já entendeu bem qual é o establishment brasileira, ligado não à economia (hoje o capital é quase todo estrangeiro), mas sim às elites dentro do funcionalismo público. Ele defendeu um pacto nacional para limitar o teto salarial de todos os magistrados e parlamentares. Uma proposta que se apresenta mais do que plausível.

O País vive hoje talvez uma das crises financeiras mais severas de todos os tempos. As famílias perderam seu poder de compra e o Estado é incapaz de assegurar o cumprimento de suas obrigações, sobretudo, quanto aos direitos sociais. Apesar disso, o governo Temer insiste em uma proposta de limitar os gastos públicos por vinte anos, e consequentemente, limitando a capacidade de prestar seus serviços aos cidadãos. Em paralelo, o governo cede aos apelos por reajustes expressivos aos integrantes do Poder Judiciário e raras exceções entre carreiras do serviço público.

Não vejo que esse fato vai passar incólume por muito mais tempo aos sentimentos de milhões de brasileiros, tanto importa se estão desempregados ou são meramente assalariados. “Juízes que recebem R$ 100 mil ou funcionários do Senado que recebem R$ 60 mil por mês, isso não pode”, bradou Magno, em pronunciamento nessa terça-feira (8). Ele sugeriu um salário máximo de R$ 15 mil a essas autoridades, proposta que certamente soaria como piada, por exemplo, aos ouvidos da magistratura, que hoje recebe R$ 4,3 mil mensais apenas de auxílio-moradia.

Mas pergunte a um trabalhador comum, se ele conseguiria viver com um salário desses ou mesmo o valor de tal “penduricalho”? Acredito que diria que “sim, com certeza”, ainda enumeraria o que faria com o dinheiro que sobra. Enquanto isso, os integrantes do Judiciário e do Ministério Público pleiteiam a compensação de perdas (!). Essa é a força dessa possível narrativa contra essa nova elite, inserida dentro do “contexto Brasil”, e que, de certa forma, segue ignorada pela mídia.

Chama atenção que as primeiras reações contra essa disparidade vêm de dentro do próprio poder público, na luta de classe dentro do funcionalismo. Mas não estranharia que um discurso bem encaixado, somado a um eventual insucesso do governo na área econômica, pode dar margem à figura de um novo salvador da pátria. Uma vez lá atrás em nossa história, um “caçador de marajás” chegou à Presidência da República utilizando esse recurso. Será que vamos repetir esse filme?

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