Seculo

 

Três meses


24/11/2016 às 19:00
Pouca gente se deu conta de que nunca antes neste país a Presidência da República tinha sido ocupada por um descendente de imigrantes árabes. Antes de Michel Temer, quem esteve mais próximo do cargo foi o “biônico” Paulo Maluf. Em 1985, ele se candidatou mas foi derrotado por Tancredo Neves, eleito pela via indireta na Câmara dos Deputados.
 
OK, o novo presidente não é um “biônico”, mas chegou lá de carona, como vice da chapa de Dilma Rousseff, defenestrada do Palácio do Planalto por uma ação de despejo constitucional promovida por uma frente tão ampla que só excluiu a Esquerda. Foi um golpe parlamentar executado em nome da moralidade por um congresso vendido aos financiadores de campanha: na política vale tudo, ainda mais quando o Judiciário assina embaixo. 
 
Três meses depois, aí está refestelado na cadeira presidencial esse político escolado no conchavo político. Numa entrevista nesta semana, a ex-presidenta afirma que ele “não representa o brasileiro médio”, uma forma sutil de chamá-lo de medíocre. De fato, como estreante no Executivo, ele se agarrou ao cargo ao qual não chegaria por seus próprios méritos.
 
Michel Temer dispõe de mais 25 meses de mandato. Se quiser disputar um novo mandato de quatro anos, em outubro de 2018, terá de limpar sua ficha eleitoral, tisnada por uma prestação de contas irregular junto ao TSE. É pouca coisa mas, tecnicamente, ele é “ficha suja”.
 
O que fará Temer para tirar dos próprios ombros a suspeita de ser cúmplice, parceiro ou sócio do deputado Eduardo Cunha na gestão, via caixa dois, de verbas de campanha de origem criminosa – as populares propinas oriundas de empreiteiras de obras públicas? 
 
Quanto à administração pública, que é o que interessa de fato, ficou evidente durante o período de afastamento da presidenta Dilma, entre 17 de maio e 31 de agosto, que Michel Temer, como líder do PMDB, no afã de garantir a expulsão do PT do Palácio do Planalto, deixou-se levar pelos partidos situados à sua direita (DEM, PP, PR, PSD, PSDB etc.). Nunca uma base governista mudou tão rápido. Foi como um Maracanã lotado deixar o Flamengo de lado e passar a apoiar o Fluminense.  
 
Por incrível que pareça, do núcleo central do governo-tampão, o menos dotado de ideias próprias é o próprio chefe. Falto de autonomia, descortínio e liderança, ele tende a engolir os pratos feitos que lhe puserem na frente. Seus ministros, Serra na sala, Meireleles na copa e Padilha na cozinha, vêm tratando de lhe servir um fast food à moda ianque, bem como o Diabo gosta e o Sr. Mercado aprecia.
 
É um alinhamento perigoso: ainda que tenha se tornado o eixo de uma nova inflexão política conservadora reclamada pelo Mercado (que representa os EUA, a banca, o empresariado, a classe média, as famílias consumidoras e as igrejas), o PMDB não terá respaldo popular se trabalhar contra os interesses da maioria trabalhadora, retirando-lhe direitos trabalhistas e previdenciários, como vem sendo anunciado; ou cortando verbas para programas sociais.
 
Não parece haver muita esperança de que o PMDB, acostumado a agir como coadjuvante, assuma o papel de protagonista central do jogo político brasileiro, até mesmo porque não se sabe claramente qual a prioridade administrativa do país – se a economia, a política, a educação, a saúde ou a segurança das pessoas e de seus pertences. Mas tudo indica que a inclusão social e a distribuição de renda são cartas fora do baralho – primeiro porque foram fartamente usadas nos últimos 13 anos pelo PT; segundo, porque não fazem parte das prioridades dos assaltantes do Executivo.  
 
Por isso, para tentar descobrir qual o futuro de Temer, será interessante buscar na História o papel exercido pelos arabedescendentes na realidade brasileira. Os estudiosos da presença árabe no Brasil concordam que a imigração sírio-libanesa teve quatro fases ou levas:
 
I – De 1880 a 1920
 
II – De 1920 a 1940
 
III – De 1945 a 1975
 
IV – De 1975 a 2000
 
Pouco estudada ainda, há uma quinta fase que corresponde à migração mais recente de jordanianos e palestinos atingidos por disputas de territórios e conflitos religiosos. Também muito afeitos ao comércio, esses neoimigrantes são particularmente atuantes em cidades fronteiriças como Livramento, Jaguarão e Chuí, além de Foz de Iguaçu, nos estados do Sul.
 
Em todas fases históricas, os imigrantes árabes não contaram com subsídios oficiais como aconteceu com alemães e italianos: eles saíram de seus países por conta própria, em busca de melhores condições de sobrevivência econômica. É certo que encontraram no Brasil um clima propício à prosperidade individual, sem restrições de qualquer natureza.
 
A não ser por algum preconceito (hoje bastante carregado de afeto) contra os “turquinhos”, a relativa tolerância racial, religiosa e política existente no Brasil contribuiu para despertar nos arabedescendentes um novo sentimento de pátria que se manifesta no afã com que chamam parentes e amigos para experimentar esta terra.
 
Liberais na economia, eles tendem a comportar-se conservadoramente na política. Há poucas exceções à esquerda, caso do ex-governador capixaba Vitor Buaiz, médico cuja marca principal é o humanismo. No centro democrático, tivemos a figura do ex-governador gaúcho e ex-senador Pedro Simon, que sempre perorou contra os corruptores. Na direita, ninguém superou Paulo Maluf, cujo sobrenome inspirou até um novo substantivo – malufismo, que representa um passo adiante do fisiologismo.
 
O fato é que, mais de um século depois da chegada dos pioneiros, o Destino colocou no Palácio do Planalto um arabedescendente. “Fora Temer”, gritam seus opositores, não por sua origem étnica, mas por sua extração política reacionária.  Se ficou mal na foto como “golpista”, Temer aceitará entrar para a História como o “exterminador do futuro dos trabalhadores”?  
 
É real a sensação de que o sujeito, por ter chegado de carona ao trono, representa uma provação moral para os brasileiros, especialmente os pobres tirados da barriga da miséria pelos governos liderados pelo PT.
 
Estamos diante de um enredo tão rico que a crônica política brasileira, assim como a história econômica nacional, supera a ficção mais surrealista. O escroque que comandou o processo de impeachment está recluso preventivamente em Curitiba. Breve saberemos o que entregou ao juiz. Já o crápula que dirige o Senado tira do bolso do colete um projeto para fazer valer o teto salarial previsto na Constituição -- não para moralizar os costumes e sim para afrontar o poder privilegiário maior, onde prevalece primeiramente a lei de murici e, segundamente, a lei de Gerson, ficando em terceiro a Lei Magna. 
 
A história brasileira das últimas décadas é suficientemente clara: nossos vices não tinham cacife para mudar o rumo das coisas. A Café Filho, vice de Vargas, sucedeu JK; João Goulart, vice de Jânio, abriu caminho para a ditadura militar; José Sarney, vice de Tancredo Neves, pariu Collor cujo vice Itamar Franco assinou o Plano Real, dando asas a FHC para seu vôo de oito anos.  
 
Michel Temer foi um vice bonzinho enquanto o vento não lhe era favorável. Agora que está no cargo principal, sua atenção está toda voltada para obsequiar a Direita. O que provavelmente resultará dessa propensão sinistra é uma candidatura tucana em 2018, mas desde logo os setores populares já sabem que não terão refresco. Se receberem água, será em forma de jato para dispersar multidões.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“O ressentimento, nascido da fraqueza, não é prejudicial a ninguém mais do que ao próprio fraco”
Nietzsche

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