Seculo

 

Charles Baudelaire e As Flores do Mal (parte 2)


10/12/2016 às 11:59

CHARLES BAUDELAIRE

DANDISMO

O dandismo baudelairiano serve tanto à sua ideia ou conceito estético como à uma forma de conduta social e humana, e ele tem na ideia de dândi um procedimento para a poesia e também para a própria vida, e que tem como uma de suas fundações a ideia de que a natureza está corrompida por si mesma, a corrupção da natureza é aqui a própria natureza, seu fenômeno.

Charles Baudelaire e As Flores do Mal (parte 1) 

Como uma reação à ideia comum e tradicional de ver a natureza como fonte do bem e do belo, como em correntes literárias do século XVIII, Baudelaire levanta a ideia contra-intuitiva da natureza como a de que ela é abominável, e sua figura de dândi seria então uma subversão artificial do que já veio subvertido, e seu disfarce de dândi, para Baudelaire, era como um tipo de fuga da dor, uma maquilagem onde ele poderia ter alguma força e vida. 

O dandismo baudelairiano aparece aqui como uma manifestação do espírito, algo que se reflete como um processo da vida interior, e que, falando da visão religiosa de Baudelaire, que se dá como um catolicismo que se volta contra os instintos originais, também sendo uma das formas em que se conclui e se fundamenta este seu dandismo. Tal artifício do dandismo viria, então, como uma forma forçada de corrigir a imperfeição natural, e este seria, por fim, segundo a ideia de atores sociais, o desiderato principal e talvez único de toda a civilização. Quando Baudelaire afirma, fundando o seu dandismo, que tudo o que é natural é abominável, poderíamos nos desligar da ideia primeira de uma subversão para irmos em direção ao que contém outra ideia mais importante e fundamental, que é a do pecado original.

E temos, então, com o dandismo, um tipo de conduta aristocrática, o entendimento possível da estética baudelairiana, o escritor como artista, com esse dândi nos aparecendo como o próprio artista superior, como um demiurgo autoconsciente que do caos vocabular nos entrega arte, e que se consagra à elaboração artificial, como um procedimento intelectual, num processo criativo que tendo o poeta como um dândi, neste processo não temos, portanto, a participação da natureza, pois esta aparece segundo a ideia de corrupção como amoral e monstruosa.

CORRESPONDÊNCIA

Baudelaire tem em Edgar Poe a sua inspiração da imagem do mundo material como correspondência do céu, mas temos também que tal conceito ou ideia tem origens mais antigas, no que podemos ver, portanto, uma teoria das correspondências já presente entre os alexandrinos, isso nos primeiros alvores da era cristã, e também durante o século XIII, nos textos do teólogo italiano São Boaventura. Três séculos depois, por conseguinte, voltamos a encontrá-la nas obras de São João da Cruz. Mas é no século XVII que a teoria das correspondências encontra seu primeiro codificador, que é o filósofo sueco Emmanuel Swedenborg, que em seu Arcana coelestia (1749-1756) Baudelaire decerto tomou conhecimento. E ao longo dos séculos XVIII e XIX a ela irão se referir figuras como Pascal, Malebranche, Spinoza, Hegel, Schelling, Hoffmann e Novalis. 

No contexto da época de Baudelaire, além de Joseph de Maistre, que também tematizou o assunto, temos também três outros autores cujas obras o poeta não ignorava: François Marie Charles Fourrier, autor de uma Théorie de l`unité universelle (1841), o pietista suíço Johann Kaspar Lavater, que foi um dos precursores do romantismo alemão, além do místico polonês Hoëné Wronski. E sabemos também que Baudelaire teve acesso aos textos esotéricos de Eliphas Lévi, cujo Dogme et rituel de haute magie está citado em nota a um de seus poemas e segundo quem “o visível é a medida proporcional do invisível”. 

O mundo visível seria então um tipo de processo platônico em que, na correspondência de um mundo invisível e superior, o mundo visível seria uma imagem imperfeita e caduca desse céu cuja conquista o poeta deveria empreender, com o fito de ver a revelação do que o poeta teria como a “tenebrosa e profunda unidade” que Lavater tematiza e que Baudelaire evoca em sua poesia. E tais correspondências também chegam a Baudelaire por fontes diversas como a do cromatismo musical de Wagner, sobretudo o de Lohengrin e de Tannhäuser, e que tem a ideia de união entre as misteriosas harmonias musicais com os mistérios da harmonia verbal. E podemos também pensar nas sinfonias de cores a que o poeta se refere quando analisa as telas de Delacroix, chegando à conclusão de que, assim como Wagner, Baudelaire também tentou alcançar uma arte total na qual a palavra, a cor e o som, num sistema difuso por analogias fizesse esta sugestão de um infinito sonho de espaço e profundidade na qual houvesse a revelação da beleza.

Assim como Swedenborg, ao deprimir o símbolo, na redução ao mínimo da autonomia da letra e do signo, quando afirma: “O fim enverga os trajes que mais lhe convém para poder existir como causa numa esfera inferior.”, assim também faz Baudelaire, pois lhe caberia, na representação alegórica do mundo, o erguimento de um tipo de refúgio contra a realidade da existência separada, com a sua batalha sendo empreendida no plano possível para ele, o da poesia. 

Lendo Baudelaire em L`art romantique se percebe uma comunhão com os pontos de vista de Swedenborg, segundo quem tudo “o que foi criado guarda alguma relação de semelhança com o homem”. E se nossa ordem física não faz senão reproduzir a hierarquia do espírito, o microcosmo assume a imagem de Deus, e a realidade nada mais é que um pesadelo logo dissipado. E como nos ensina Eliphas Lévi: “A analogia dá ao mago todas as forças da natureza.”

POEMAS:

SEMPER EADEM: O poema se abre, com uma visão sinistra da vida, a qual a poesia também tematiza, pois nem sempre tal arte de versos se dá em idílio, mas também em tédio e amargor, como se vê: ““De onde te vem, responde, essa tristeza infinda/Que galga, como o mar, o negro e nu rochedo?”/_ Quando no coração nossa colheita finda,/Viver é um mal. Ninguém ignora este segredo,/Uma dor muito simples, nada misteriosa,/A todos familiar, como tua alegria./Nada queiras saber, minha bela curiosa!/E, embora a voz te seja afável, silencia!”. Aqui a vida aparece como um mal, e eis que também é, pois sempre nos veremos com a felicidade e a dor, como numa face dupla em que também a poesia refletirá a natureza deste jogo, e fecha entre a vida e a morte, também imagem auspiciosa e terrível de um bem e de um mal, e que neste poema tem face negativa, num sopro gótico e terrível: “Ainda mais do que a Vida,/A Morte nos enlaça em seus sutis idílios.”

REVERSIBILIDADE: O poema evoca a angelitude, aparecem em cada estrofe um anjo, este começa com o anjo da alegria, que em vão enfrenta esta angústia do poeta Baudelaire, quando este diz: “Ó anjo de alegria, já viste a desgraça,/Os soluços, o tédio, o remorso, as vergonhas,/E o difuso terror dessas noites medonhas/Que o peito oprimem como um papel que se amassa?”. A ideia de opressão, presente tanto em situações banais como em lutas graves do espírito, atazanam o poeta, que não poupa este seu difuso terror, mas ainda nutre algo, e se dirige ao anjo de bondade: “Ó anjo de bondade, já viste o rancor,/As mãos em gesto aflito e as lágrimas de fel,/Quando brande a Vingança o seu apelo cruel/E de nossas virtudes torna-se o senhor?”. O fel aqui enegrece as virtudes que ainda viviam em tal infortunado espírito, no que Baudelaire faz então seu clamor ao anjo de saúde, quando vêm os versos: “Ó anjo de saúde, já viste os Delírios,/Que, ao longo das paredes do asilo alvadio,/Como exilados vão em seu passo tardio,/Movendo os lábios e buscando a luz dos círios?”. Os delírios são como sentimentos de exílio, no que Baudelaire enfim evoca o anjo de beleza: “Ó anjo de beleza, as rugas já não viste,/Não viste o medo da velhice e este suplício/De ler o esfíngico pavor do sacrifício/No olhar que outrora nos saciou a gula triste?”. A velhice, com sua sonora decrepitude, aqui o poeta já tem mais virtudes, mas ainda tenta, com o anjo de ventura, salmodiar uma última luz ou clarão, o que é nada mais que uma oração, e com o coração de poeta em tal fim de júbilo, em clamor: “Mas a ti só imploro as tuas orações,/Ó anjo de ventura e júbilo e clarões!”. A esperança está ainda em tal poema, mesmo que repleto de dor.

A BELA NAU: A feiticeira aparece como musa e esta também está na sua relação com a imagem da nau, esta perfeição do mar, segundo os infindos poetas em suas diversas plêiades, e que Baudelaire, numa paixão poética, clama: “Eu quero te contar, lânguida feiticeira,/Tudo o que te orna e te faz bela por inteira!/Quero pintar tua beleza,”. Ele atua aqui como um poeta-pintor, e faz a fusão da feiticeira com a nau, no que seguem os versos marítimos: “És como a bela nau que rumo às ondas larga,/Cheia de véus soltos ao vento,”. E vai ao colo da musa, sem mais: “Teu colo vitorioso é como um belo armário,/Cujos claros gomos convexos/Como os broquéis capturam rútilos reflexos;” (...) “Vinhos, perfumes e licores/Que o coração e a mente inundam de torpores!”. O entorpecimento é este peito que conforta o poeta, o colo da musa, como um vinho potente, um licor forte ou um perfume onipresente: “Teus braços, que aos titãs enfrentam nas porfias,/São sólidos rivais das víboras sombrias,/Feitos para o fatal abraço/E para o amante eternizar em teu regaço.”. O refúgio ou regaço é, ao fim, a busca da paz de espírito, a qual não se dá sem ser na feiticeira, sua bela nau em que ele poderá descansar de seus infernos, e se eternizar em júbilo. 

A UMA DAMA CRIOULA: O poema tem sua musa admirável, e aqui Baudelaire a contempla em versos nada sutis: “No inebriante país que o sol acaricia,/Sob um dossel de agreste púrpura bordado/E a cuja sombra nosso olhar se delicia,/Conheci uma crioula de encanto ignorado.” (...) “A graciosa morena, cálida e arredia,/Tem na postura um ar nobremente afetado;/Soberba e esbelta quando o bosque a desafia,/Seu sorriso é tranquilo e seu olhar ousado.”. Eis uma musa ousada, e que apraz o poeta, este admirador da audácia: “Caso viesses, Senhora, à heroica e eterna França,/Junto às margens do Sena ou onde o Loire se lança,/Tu que és digna de ornar os solares altivos,”. E ele a quer na terra francesa, e é quando poderia fazer seus sonetos, quando diz: “Farias, ao abrigo das sombras discretas,/Mil sonetos brotar no coração dos poetas,”.

MOESTA ET ERRABUNDA: O poema se abre em tais versos: “Dize, Ágata, tua alma às vezes não se evola,/Fugindo ao negro oceano da imunda cidade,/Em busca de outro oceano que jamais se estiola,/Profundo, claro, azul, tal como a virgindade?”. O profundo oceano, de um azul infinito, na fuga da cidade, eis que o poeta então se volta ao mar: “O mar, o vasto mar, nos purga os sofrimentos!/Que duende deu ao mar, jogral de áspero canto/Que acompanha o feroz e imenso órgão dos ventos,/Essa função sublime e sábia do acalanto?”. O sublime do mar se dá aqui como som e música de acalanto, o poeta contempla na distância do olhar, e vêm tais versos: “Como estás longe, paraíso perfumado,/Onde à tristeza e ao ódio o espírito se nega,/Onde tudo o que se ama faz por ser amado,/Onde à pura volúpia o coração se entrega!”. O poeta é irmanado com a volúpia, e evoca, enfim, um jardim prazeroso, no que o poema finda em questão nevrálgica: “Evocá-lo se pode em gritos pungitivos,/Ou talvez animá-lo com voz argentina,/O inocente jardim dos prazeres furtivos?”.

SPLEEN – LXXVI: O poema tenta revelar o espírito do poeta, que é aqui evocado como maior e mais vasto que todo conteúdo material da civilização, uma alma vasta e infinita, no que Baudelaire produz tais versos ousados: “Eu tenho mais recordações do que há em mil anos./Uma cômoda imensa atulhada de planos,/Versos, cartas de amor, romances, escrituras,/Com grossos cachos de cabelo entre as faturas,/Guarda menos segredos que o meu coração.”. Seu coração, o poço de segredos, ultrapassa até esta nossa terra em que vivemos, e os versos continuam: “Sou como um camarim onde há rosas fanadas,/Em meio a um turbilhão de modas já passadas,” (...) “Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias,/Quando, sob o rigor das brancas invernias,/O tédio, taciturno exílio da vontade,/Assume as proporções da própria eternidade.”. Mas eis que um dos temas dominantes da poesia baudelairiana dá as caras, é o tédio, este intruso anti-musa do poema gótico e sinistro: “Uma esfinge que o mundo ignora, descuidoso,/Esquecida no mapa, e cujo áspero humor/Canta apenas aos raios do sol a se pôr.”. Áspero humor, esgar de ironia, farsa, enfim, tédio.

SPLEEN – LXXVII: O poema, mais um da série famosa do spleen baudelairiano, nos brinda: “Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,/Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,/Que, desprezando do vassalo a cortesia,/Entre seus cães e os outros bichos se entendia.”. O tédio, mais uma vez, e Baudelaire dá os seus efeitos: “Em tumba se transforma o seu florido leito,” (...) “E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,/De que se lembram na velhice os soberanos,/Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,/Em vez de sangue flui a verde água do Letes.”. O tédio enfim aqui se junta ao leito mortal do Letes, morte e tédio são aqui sinônimos. 

POEMAS: 

SEMPER EADEM

(N. do T. “sempre a mesma”)

“De onde te vem, responde, essa tristeza infinda

Que galga, como o mar, o negro e nu rochedo?”

_ Quando no coração nossa colheita finda,

Viver é um mal. Ninguém ignora este segredo,

 

Uma dor muito simples, nada misteriosa,

A todos familiar, como tua alegria.

Nada queiras saber, minha bela curiosa!

E, embora a voz te seja afável, silencia!

 

Cala-te, tola! alma de tudo embevecida!

Boca de riso ingênuo! Ainda mais do que a Vida,

A Morte nos enlaça em seus sutis idílios.

 

Deixa-me o coração confiar no que suponho,

Dentro em teus olhos mergulhar como num sonho,

E dormir longo tempo à sombra de teus cílios!

 

REVERSIBILIDADE

Ó anjo de alegria, já viste a desgraça,

Os soluços, o tédio, o remorso, as vergonhas,

E o difuso terror dessas noites medonhas

Que o peito oprimem como um papel que se amassa?

Ó anjo de alegria, já viste a desgraça?

 

Ó anjo de bondade, já viste o rancor,

As mãos em gesto aflito e as lágrimas de fel,

Quando brande a Vingança o seu apelo cruel

E de nossas virtudes torna-se o senhor?

Ó anjo de bondade, já viste o rancor?

 

Ó anjo de saúde, já viste os Delírios,

Que, ao longo das paredes do asilo alvadio,

Como exilados vão em seu passo tardio,

Movendo os lábios e buscando a luz dos círios?

Ó anjo de saúde, já viste os Delírios?

 

Ó anjo de beleza, as rugas já não viste,

Não viste o medo da velhice e este suplício

De ler o esfíngico pavor do sacrifício

No olhar que outrora nos saciou a gula triste?

Ó anjo de beleza, as rugas já não viste?

 

Ó anjo de ventura e júbilo e clarões,

Davi da morte se teria levantado

Sob os eflúvios de teu corpo enfeitiçado;

Mas a ti só imploro as tuas orações,

Ó anjo de ventura e júbilo e clarões!

 

 A BELA NAU

Eu quero te contar, lânguida feiticeira,

Tudo o que te orna e te faz bela por inteira!

Quero pintar tua beleza,

Na qual a infância se conjuga à madureza.

 

Quando vais, sacudindo no ar a saia larga,

És como a bela nau que rumo às ondas larga,

Cheia de véus soltos ao vento,

Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

 

Sobre a robusta espádua e o pescoço roliço,

Tua cabeça se ergue envolta em graça e viço;

A um tempo só triunfante e mansa,

Prossegues teu caminho, majestosa criança.

 

Eu quero te contar, lânguida feiticeira,

Tudo o que te orna e te faz bela por inteira!

Quero pintar tua beleza,

Na qual a infância se conjuga à madureza.

 

Teu colo que arfa sob o traje fluido e vário,

Teu colo vitorioso é como um belo armário,

Cujos claros gomos convexos

Como os broquéis capturam rútilos reflexos;

 

Provocantes broquéis de agudas pontas rosas!

Armários cheios de iguarias tão preciosas:

Vinhos, perfumes e licores

Que o coração e a mente inundam de torpores!

 

Quando vais, sacudindo no ar a saia larga,

És como a bela nau que rumo às ondas larga,

Cheia de véus soltos ao vento,

Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

 

As nobres pernas, sob os folhos que se amassam,

Os maus desejos atormentam e espicaçam,

Quais duas bruxas que, ao acaso,

Um negro filtro vão mexendo em fundo vaso.

 

Teus braços, que aos titãs enfrentam nas porfias,

São sólidos rivais das víboras sombrias,

Feitos para o fatal abraço

E para o amante eternizar em teu regaço.

 

Sobre a robusta espádua e o pescoço roliço,

Tua cabeça se ergue envolta em graça e viço;

A um tempo só triunfante e mansa,

Prossegues teu caminho, majestosa criança.

 

 A UMA DAMA CRIOULA

 

No inebriante país que o sol acaricia,

Sob um dossel de agreste púrpura bordado

E a cuja sombra nosso olhar se delicia,

Conheci uma crioula de encanto ignorado.

 

A graciosa morena, cálida e arredia,

Tem na postura um ar nobremente afetado;

Soberba e esbelta quando o bosque a desafia,

Seu sorriso é tranquilo e seu olhar ousado.

 

Caso viesses, Senhora, à heroica e eterna França,

Junto às margens do Sena ou onde o Loire se lança,

Tu que és digna de ornar os solares altivos,

 

Farias, ao abrigo das sombras discretas,

Mil sonetos brotar no coração dos poetas,

Que de teus olhos, mais que os negros, são cativos.

 

MOESTA ET ERRABUNDA

(N. do T. “triste e erradia”)

Dize, Ágata, tua alma às vezes não se evola,

Fugindo ao negro oceano da imunda cidade,

Em busca de outro oceano que jamais se estiola,

Profundo, claro, azul, tal como a virgindade?

Dize, Ágata, tua alma às vezes não se evola?

 

O mar, o vasto mar, nos purga os sofrimentos!

Que duende deu ao mar, jogral de áspero canto

Que acompanha o feroz e imenso órgão dos ventos,

Essa função sublime e sábia do acalanto?

O mar, o vasto mar, nos purga os sofrimentos!

 

Carrega-me, vagão! batel, leva-me embora!

Bem longe! aqui do nosso pranto faz-se o lodo!

_ Será que de Ágata a alma às vezes não implora:

Para além do remorso, do crime, do engodo,

Carrega-me, vagão, batel, leva-me embora?

 

Como estás longe, paraíso perfumado,

Onde à tristeza e ao ódio o espírito se nega,

Onde tudo o que se ama faz por ser amado,

Onde à pura volúpia o coração se entrega!

Como estás longe, paraíso perfumado!

 

E o verde paraíso das frágeis meninas,

As fugas, as canções, os beijos que roubamos,

Os violinos vibrando por trás das colinas,

Com cântaros de vinho, à tarde, sob os ramos

_ E o verde paraíso das frágeis meninas,

 

O inocente jardim dos prazeres furtivos,

Já estará mais distante do que a Índia e a China?

Evocá-lo se pode em gritos pungitivos,

Ou talvez animá-lo com voz argentina,

O inocente jardim dos prazeres furtivos?

 

SPLEEN – LXXVI

 

Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.

 

Uma cômoda imensa atulhada de planos,

Versos, cartas de amor, romances, escrituras,

Com grossos cachos de cabelo entre as faturas,

Guarda menos segredos que o meu coração.

É uma pirâmide, um fantástico porão,

E jazigo não há que mais mortos possua.

_ Eu sou um cemitério odiado pela lua,

Onde, como remorsos, vermes atrevidos

Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos.

Sou como um camarim onde há rosas fanadas,

Em meio a um turbilhão de modas já passadas,

Onde os tristes pastéis de um Boucher desbotado

Ainda aspiram o odor de um frasco destampado.

 

Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias,

Quando, sob o rigor das brancas invernias,

O tédio, taciturno exílio da vontade,

Assume as proporções da própria eternidade.

_ Doravante hás de ser, ó pobre e humano escombro!

 

Um granito açoitado por ondas de assombro,

A dormir nos confins de um Saara brumoso;

Uma esfinge que o mundo ignora, descuidoso,

Esquecida no mapa, e cujo áspero humor

Canta apenas aos raios do sol a se pôr.

(François Boucher (1703-1770), pintor e gravador francês. Autor de cenas pastoris, religiosas, mitológicas e alegóricas, cujas cores desmaiadas lembram pastéis. Parte de sua obra está no Louvre.)

 

SPLEEN – LXXVII

 

Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,

Que, desprezando do vassalo a cortesia,

Entre seus cães e os outros bichos se entendia.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo a morrer defronte do balcão.

Do jogral favorito a estrofe irreverente

Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.

Em tumba se transforma o seu florido leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Não sabem mais que traje erótico vestir

Para fazer este esqueleto enfim sorrir.

O sábio que ouro lhe fabrica desconhece

Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,

E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,

Em vez de sangue flui a verde água do Letes.

(Em gr. Léthe, um dos rios do Inferno. Sua água fazia esquecer o passado àqueles que dela bebessem.)


 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor 

Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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