Seculo

 

Charles Baudelaire e As Flores do Mal – Parte III


18/12/2016 às 11:27
RELIGIOSIDADE
 
Um dos aspectos que também pode ser levantado da poética baudelairiana é o de sua religiosidade, e de como esta não é evidente, mostrada como uma forma complexa e ambígua muitas vezes, por isto não evidente como sentido bem discernível de qual a sua orientação, pois a poesia, esta forma diluída por excelência, é o espaço da polêmica e das contradições, sempre fruto de uma interpretação açodada que é a conhecida ignorância plena, como se diz. E tal interrogação aparece sobretudo na questão do cristianismo de Baudelaire, se ele era ou não um cristão. Enquanto para alguns o cristianismo de Baudelaire pode ser uma mera falácia, peça de ficção, para outros esse mesmo cristianismo jamais o abandonou.
 
Além do que nos permite concluir a própria leitura dos poemas que integram As Flores do Mal ou dos fragmentos de que se compõem as Fusées e Mon coeur mis à nu, estudos como os de Bénouville, Paul Arnold, Maurice Barrès, Victor Chrabonnel, León Daudet, Benjamin Fondane, Stanislas Fumet, Charles Du Bos, Friedrich Kemp, Pierre Emmanuel, Pierre Louis, Jean Massin, Jean Pommier, Paul Soulay e Robert Vivier, entre alguns outros, parecem não deixar nenhuma dúvida quanto à vocação cristã de Baudelaire. Só que a forma de atuação de Baudelaire é controversa, pois sua poesia oscila entre Deus e o Diabo, o que o leva amiúde à prática das mais ingênuas e primitivas formas de maniqueísmo. E também temos as blasfêmias habituais do poeta satanista, que podem ser interpretadas como um tipo de visão mística de quem se perdeu no abismo do pecado. Baudelaire nos aparece, portanto, como um poeta do Limbo, ou do Purgatório, poeta de verve espiritualista que levou às últimas consequências o pecado como condição da vida terrestre da alma.
 
Lúcida ao grau extremo, a poesia de Baudelaire pratica um agônico e lancinante movimento no sentido de substituir a religião perdida pelo prazer estético que lhe proporciona a consciência de seu altíssimo valor. O culto da beleza deveria assim atender às suas ávidas exigências religiosas, pois Baudelaire, na vivência das dúvidas de seu século, não era um crente de dogmas e tradições. Baudelaire era capaz, ademais, de criar uma religião particular que não tinha nenhuma relação com as formas da religião tradicional. E foi isso o que o poeta realizou, estabelecendo uma espécie de estranho gnosticismo neopagão e maniqueísta em que Lúcifer ocupa todos os altares.
 
O pessimismo haurido em Joseph de Maistre e sua pascalina angústia do abismo o induzem diretamente à fé no poder de Satã, que o poeta fundamenta com o dogma do pecado original. Baudelaire tem a compreensão da natureza, portanto, como essencialmente corrupta, com o poeta se rebelando contra a obra do Criador e identificando a ideia da Queda à dualidade, à multiplicidade caduca e contingente cuja miséria e decadência desfilam ao longo dos “Tableaux parisiens”, dessa Paris quase dantesca e da qual não se pode dizer que seja infernal, porque é o próprio Inferno.
 
Há, por fim, na poesia baudelairiana, ademais, um otimismo e um entusiasmo diante da vida, e Fumet e Du Bos, além de Massin, não deixam dúvida quanto ao cristianismo que existe no pensamento de Baudelaire, mas isto não implica em colocá-lo como um católico ortodoxo ou homem da Igreja. Pois Baudelaire, como produto genuíno do romantismo, tinha suas contradições inconciliáveis, de tensões espirituais cujos pólos antitéticos jamais lograram superar-se naquele momento superior que caracteriza a síntese hegeliana. E, por fim, neta contradição romântica, o absoluto e o infinito pelos quais tanto ansiou o poeta ao longo de sua existência lhe estiveram desde sempre interditos por sua visão da Queda. Por outro lado, podemos apontar o cristianismo baudelairiano como um dos traços dominantes de As Flores do Mal.
 
 
POEMAS
 
SPLEEN – POEMA LXXVIII: O poema, em clima gótico, veia bem comum e distribuída generosamente por toda As Flores do Mal, tem este escurecimento da Esperança (em maiúscula), com o tal espírito mais uma vez como vítima dos açoites do tédio, o grande bocejo que abre a grande obra poética baudelairiana: “Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa/Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,” (...) “Quando a terra se torna em calabouço horrendo,/Onde a Esperança, qual morcego espavorido,/As asas tímidas nos muros vai batendo”. E o poema segue, como um fenômeno psíquico que por fim vai consumir em vermes o cérebro do poeta, este ser fúnebre, sempre gótico, com pendor pela escuridão das formas e das imagens poéticas: “Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,/Imita as grades de uma lúgubre cadeia,/E a muda multidão das aranhas sombrias/Estende em nosso cérebro uma espessa teia,/Os sinos dobram, de repente, furibundos/E lançam contra o céu um uivo horripilante,”. O uivo talvez seja um último grito contra a morte ou o tédio, que aqui, falando em Baudelaire, podem muito bem aparecer como sinônimos, no que o poeta então, também uiva, ao fim, no que chora a esperança e sofre o golpe final seu infortunado crânio: “_ Sem música ou tambor, desfila lentamente/Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;/Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,/Enterra-me no crânio uma bandeira preta.”
 
O GOSTO DO NADA: O poema, em tom pessimista, também tem este negror do clima gótico, em que temos a sombra já na abertura: “Espírito sombrio, outrora afeito à luta,/A Esperança, que um dia te instigou o ardor,/Não te cavalga mais!”. Tem um quê de nostalgia, se fala de um espírito que foi esperançoso e iluminado, mas algo aconteceu, mas o poema não dá motivo, apenas descreve o processo de luto como um simples fenômeno, ao qual o poema se detém, em toda a sua potência: “Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta./Espírito alquebrado! ao velho salteador/Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;”. E o rasgo de direção que é, enfim, o Tempo, este senhor de tudo e de todos, caudal da luz e da angústia: “O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,/Como a neve que um corpo enrija de torpor;/Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,/E nem procuro mais o abrigo de uma gruta./Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?”. Ao fim tal tempo é uma avalanche, o poeta está imerso tanto na angústia como no caos. E a cara ideia da queda aparece, esta presença constante no poema baudelairiano tanto quanto o bocejo do tédio.
 
ALQUIMIA DA DOR: O poema abre como uma face dupla, da mais visceral, que é a de luz e sombra: “Um te ilumina com ardor,/O outro te enluta, Natura!/O que diz a um: Sepultura!/Ao outro diz: Vida e esplendor!”. E o poeta se faz Midas, então, no que segue: “Tu me fazes igual a Midas,/O mais triste dos alquimistas;/Por ti do ouro o ferro improviso/E torno inferno o paraíso;” (...) “Um corpo querido amortalho,/E às margens do celeste estuário/Grandes sarcófagos entalho.”. Aqui temos um Midas alquimista, mas em forma invertida, não faz ouro, mas produz inferno e ao fim a morte tem aqui as imagens da mortalha e do sarcófago para corroborar a ideia funesta de uma alquimia do pessimismo ou da dor.
 
O IRREMEDIÁVEL: O ser de angelitude aparece no poema em sua forma inteira, ser pleno, morada do azul, no que o poema se abre: “Uma Ideia, uma Forma, um Ser/Vindo do azul e arremessado/No Estige plúmbeo e enlodaçado/Que o olho do Céu não pode ver;/Um Anjo, viajante imprudente”. Este Anjo se perdeu, é um ser imprudente, e paga o preço, é agora prisioneiro: “Um prisioneiro do bruxedo/Em suas frívolas manobras/Para evitar répteis e cobras,/Tateando a lâmpada e o segredo;/Um réu a descer sem lanterna,/Rente a um abismo cujo odor/Trai a fundura e o frio horror/De uma oscilante escada eterna,” E o poema segue: “_ Claros emblemas, traços reais/De uma fortuna atroz e vã,/Como a dizer-nos que Satã/Faz sempre bem tudo o que faz!”. O satanismo baudelairiano tem sua forma evidente neste poema, que da ideia comum da queda angélica, nos faz ver Satanás, e que é a própria consciência do Mal, aqui em forma metafísica ou absoluta, digamos espiritual: “Fonte do Ser, límpida e impura,/Onde pulsa uma estrela fria,/Farol irônico, infernal,/Archote aceso a Satanás,/Consolo e glórias sem iguais/_ A consciência dentro do Mal!”
 
PAISAGEM: Este belo poema nos brinda com uma suave abertura: “Quero, para compor os meus castos monólogos,/Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,/E, junto aos campanários, escutar sonhando/Solenes cânticos que o vento vai levando.”. E o clima de céu se vê também camuflado no clima urbano, a cidade também aparece neste poema como imagem poética: “Verei a fábrica em azáfama engolfada;/Torres e chaminés, os mastros da cidade,/E o vasto céu que faz sonhar a eternidade./É doce ver, em meio à bruma que nos vela,/Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,/Os rios de carvão galgar o firmamento/E a lua derramar seu suave encantamento./Verei a primavera, o estio, o outono; e quando,/Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,/Cada postigo fecharei com férreos elos/Para na noite erguer meus mágicos castelos.” As imagens que se sucedem são bem elaboradas, num poema baudelairiano que eu gosto particularmente por não se ater demais no clima gótico, como é comum na produção do poeta, e o poema segue e fecha na luta da poesia, esta fonte de harmonia, contra o tumulto, a sempre relembrar a primavera, esta forma de plenitude que o idílio tanto canta, e que a poesia tem nela a sua graça maior: “O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,/Não me fará volver a fronte ao que se passa,/Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento/De relembrar a Primavera em pensamento”
 
O SOL: O poema fala do sol e de seu poder: “Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros/Persianas acobertam beijos sorrateiros,/Quando o impiedoso sol arroja seus punhais/Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,/Exercerei a sós a minha estranha esgrima,/Buscando em cada canto os acasos da rima,/Tropeçando em palavras como nas calçadas,/Topando imagens desde há muito já sonhadas.”. E que inspira o poeta, no que o sol também aparece para Baudelaire como um tipo especial de poeta que ilumina tudo, no que o poema segue: “Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,/Eis que redime até a coisa mais abjeta,/E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,/Quer os palácios, quer os tristes hospitais.”. O sol, ao fim, espanta até a tristeza dos hospitais, um poema solar em forma literal na obra baudelairiana.
 
A UMA MENDIGA RUIVA: O poema se dirige a uma musa infortunada, mas que é exaltada, apesar da miséria que lhe envolve: “Moça de ruivo cabelo,/Cuja roupa em desmazelo/Deixa ver tanto a pobreza/Quanto a beleza,/Para mim, poeta sem viço,/Teu jovem corpo enfermiço,/Cheio de sardas e agruras,/Tem só doçuras.” (...) “Em vez da meia em pedaços,/Que aos olhares dos devassos/Te brilhe à perna o tesouro/De um punhal de ouro;” (...) “Muito servo ébrio de amor,/Muito Ronsard e senhor/Rondariam o postigo/De teu abrigo!/Em teu leito contarias/Menos lírios do que orgias”. A exaltação aqui ganha em esplendor de forma, ébrio de amor, os servos seguem a mendiga ruiva, mas o poeta sabe qual é a realidade nua, e o poema não a esquece, a miséria total aparece aqui como a ideia de nudez: “_ Contudo vais mendigando/A sobra que foi ficando” (...) “Segue, pois, nua de tudo/_ Pérola, incenso, veludo _,/Só de teu corpo vestida,/Minha querida!”
 
 
SPLEEN – POEMA LXXVIII
 
Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa
 
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
 
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
 
Um dia mais escuro e triste do que as noites;
 
 
Quando a terra se torna em calabouço horrendo,
 
Onde a Esperança, qual morcego espavorido,
 
As asas tímidas nos muros vai batendo
 
E a cabeça roçando o teto apodrecido;
 
 
Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,
 
Imita as grades de uma lúgubre cadeia,
 
E a muda multidão das aranhas sombrias
 
Estende em nosso cérebro uma espessa teia,
 
 
Os sinos dobram, de repente, furibundos
 
E lançam contra o céu um uivo horripilante,
 
Como os espíritos sem pátria e vagabundos
 
Que se põem a gemer com voz recalcitrante.
 
 
_ Sem música ou tambor, desfila lentamente
 
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
 
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
 
Enterra-me no crânio uma bandeira preta.
 
 
O GOSTO DO NADA
 
 
Espírito sombrio, outrora afeito à luta,
 
A Esperança, que um dia te instigou o ardor,
 
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
 
Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.
 
 
Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.
 
 
Espírito alquebrado! ao velho salteador
 
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
 
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
 
Prazer, dá trégua a um coração desfeito em dor!
 
 
Perdeu a doce primavera o seu odor!
 
 
O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,
 
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
 
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
 
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.
 
 
Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?
 
 
ALQUIMIA DA DOR
 
 
Um te ilumina com ardor,
 
O outro te enluta, Natura!
 
O que diz a um: Sepultura!
 
Ao outro diz: Vida e esplendor!
 
 
Hermes que oculto me conquistas
 
E para sempre me intimidas,
 
Tu me fazes igual a Midas,
 
O mais triste dos alquimistas;
 
 
Por ti do ouro o ferro improviso
 
E torno inferno o paraíso;
 
Roubando às nuvens seu sudário,
 
 
Um corpo querido amortalho,
 
E às margens do celeste estuário
 
Grandes sarcófagos entalho.
 
 
(obs: Midas: Rei da Frígia (c.715-676 a.C.), filho de Górdio. Rei poderoso, sua fortuna provinha das minas de ouro da Frígia e de Urartu, bem como das pepitas do rio Pactolo. Conta a lenda que Dioniso lhe deu poder de transformar em ouro tudo aquilo em que tocasse.)
 
 
O IRREMEDIÁVEL
 
 
I
 
Uma Ideia, uma Forma, um Ser
 
Vindo do azul e arremessado
 
No Estige plúmbeo e enlodaçado
 
Que o olho do Céu não pode ver;
 
 
Um Anjo, viajante imprudente
 
Que ousou amar o que é disforme,
 
Dentro de um pesadelo enorme
 
A debater-se na corrente
 
 
E a lutar, angústias sombrias!
 
Contra o refluxo mais feroz,
 
Que como um louco ruge a sós
 
E faz na treva acrobacias;
 
 
Um prisioneiro do bruxedo
 
Em suas frívolas manobras
 
Para evitar répteis e cobras,
 
Tateando a lâmpada e o segredo;
 
 
Um réu a descer sem lanterna,
 
Rente a um abismo cujo odor
 
Trai a fundura e o frio horror
 
De uma oscilante escada eterna,
 
 
Onde velam monstros horríveis
 
Cujos fosfóreos olhos fazem
 
Mais escura a noite em que jazem
 
E onde eles só ardem visíveis;
 
 
Um barco no pólo insulado,
 
Como num laço de cristal,
 
Buscando por que onda fatal
 
Foi neste cárcere atirado;
 
 
_ Claros emblemas, traços reais
 
De uma fortuna atroz e vã,
 
Como a dizer-nos que Satã
 
Faz sempre bem tudo o que faz!
 
 
II
 
Conversa a dois, clara e sombria,
 
Espelho que a alma em si procura!
 
Fonte do Ser, límpida e impura,
 
Onde pulsa uma estrela fria,
 
 
Farol irônico, infernal,
 
Archote aceso a Satanás,
 
Consolo e glórias sem iguais
 
_ A consciência dentro do Mal!
 
 
PAISAGEM
 
 
Quero, para compor os meus castos monólogos,
 
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
 
E, junto aos campanários, escutar sonhando
 
Solenes cânticos que o vento vai levando.
 
As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,
 
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
 
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
 
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.
 
 
É doce ver, em meio à bruma que nos vela,
 
Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,
 
Os rios de carvão galgar o firmamento
 
E a lua derramar seu suave encantamento.
 
Verei a primavera, o estio, o outono; e quando,
 
Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,
 
Cada postigo fecharei com férreos elos
 
Para na noite erguer meus mágicos castelos.
 
Hei de sonhar então com azulados astros,
 
Jardins onde a água chora em meio aos alabastros,
 
Beijos, aves que cantam de manhã e à tarde,
 
E tudo o que no Idílio de infantil se guarde.
 
O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,
 
Não me fará volver a fronte ao que se passa,
 
Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento
 
De relembrar a Primavera em pensamento
 
E um sol na alma colher, tal como quem, absorto,
 
Entre as ideias goza um tépido conforto.
 
 
O SOL
 
 
Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros
 
Persianas acobertam beijos sorrateiros,
 
Quando o impiedoso sol arroja seus punhais
 
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
 
Exercerei a sós a minha estranha esgrima,
 
Buscando em cada canto os acasos da rima,
 
Tropeçando em palavras como nas calçadas,
 
Topando imagens desde há muito já sonhadas.
 
 
Este pai generoso, avesso à tez morbosa,
 
No campo acorda tanto o verme quanto a rosa;
 
Ele dissolve a inquietação no azul do céu,
 
E cada cérebro ou colmeia enche de mel.
 
É ele quem remoça os que já não se movem
 
E os torna doces e febris qual uma jovem,
 
Ordenando depois que amadureça a messe
 
No eterno coração que sempre refloresce!
 
 
Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,
 
Eis que redime até a coisa mais abjeta,
 
E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,
 
Quer os palácios, quer os tristes hospitais.
 
 
A UMA MENDIGA RUIVA
 
 
Moça de ruivo cabelo,
 
Cuja roupa em desmazelo
 
Deixa ver tanto a pobreza
 
Quanto a beleza,
 
 
Para mim, poeta sem viço,
 
Teu jovem corpo enfermiço,
 
Cheio de sardas e agruras,
 
Tem só doçuras.
 
 
Calças com pés mais ligeiros
 
Os teus tamancos grosseiros
 
Do que essas damas tão finas
 
Suas botinas.
 
 
Em lugar de exíguo andrajo,
 
Que te envolva um régio trajo
 
Das espáduas singulares
 
Aos calcanhares;
 
 
Em vez da meia em pedaços,
 
Que aos olhares dos devassos
 
Te brilhe à perna o tesouro
 
De um punhal de ouro;
 
 
Que laços pouco apertados
 
Mostrem aos nossos pecados
 
Teus seios por entre os folhos
 
Como dois olhos;
 
 
E que para desnudar-te
 
Teus braços, com lábia e arte,
 
Sustem a golpes vivazes
 
Dedos audazes,
 
 
Corais de oceanos secretos
 
E de Belleau os sonetos
 
Por teus amantes rendidos
 
Oferecidos,
 
 
Escória de rimadores
 
A consagrar-te louvores
 
E a perseguir-te as passadas
 
Sob as escadas,
 
 
Muito servo ébrio de amor,
 
Muito Ronsard e senhor
 
Rondariam o postigo
 
De teu abrigo!
 
 
Em teu leito contarias
 
Menos lírios do que orgias
 
E a teus pés mais de um Valois
 
Sempre haverá!
 
 
_ Contudo vais mendigando
 
A sobra que foi ficando
 
Por um Véfour atirada
 
À encruzilhada;
 
 
Olhas de esguelha e sem jeito
 
Joias de brilho suspeito
 
Que não posso (hás de perdoar!)
 
Jamais te dar.
 
 
Segue, pois, nua de tudo
 
_ Pérola, incenso, veludo _,
 
Só de teu corpo vestida,
 
Minha querida!
 
 
(obs: Rémy ou Remi Belleau (1528-1577), poeta francês que Ronsard reconheceu, a partir de 1554, como um dos poetas da Plêiade. Sua principal obra é Petites inventions (1556), na qual se descrevem as flores, os frutos e os insetos./ Pierre de Ronsard (1524-1585), poeta francês que, ao lado de Antoine de Baïf e de Joachim du Bellay, dispôs-se a restaurar a poesia francesa em toda a sua amplitude, tornando-se chefe da nova escola La brigade, que, em 1556, passou a chamar-se La plêiade. Suas principais obras são Amours (1552) e os Hymnes (1555-56)/ Valois: dinastia que reinou na França de 1328 a 1589.)
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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