Seculo


  • Lava Jato no ES

 

Quatro refeições por dia


22/12/2016 às 13:45
Nesta véspera de Natal, voltou-me à memória uma frase de Lula: "Eu gostaria que cada brasileiro tivesse o direito de fazer quatro refeições por dia".
 
Foi promessa de campanha e virou meta de governo atingida parcialmente com o Bolsa Família, um programa tão generoso que começou com um nome negativo – Fome Zero.
 
Ambicioso socialmente e modesto financeiramente, em 2015 o BF consumiu R$ 33 bilhões ou, seja, 5% das despesas com a dívida pública, mas a ninguém do governo ocorre a hipótese de congelar o pagamento de juros e amortizações aos credores.
 
Ao contrário, segundo a óptica elitista que domina as ações oficiais desde o Brasil-colônia, é preciso enxugar o que se gasta na base para que não faltem recursos nas altas esferas.
 
Índios fora, escravos esquecidos, imigrantes ludibriados, pobres sem chance de ascensão ou resgate: assim tem sido o Brasil na maior parte do tempo.
 
Recentemente, bastaram alguns anos de concessões às bases carentes da população para se iniciar um temerário processo antissocial que busca reduzir o papel do Estado na sociedade. Como se o Mercado ou a iniciativa privada fossem assumir as tarefas que nem os governos fazem direito.
 
O Bolsa Família tem um lado assistencial – o dinheirinho entregue mensalmente às famílias cadastradas; mas seu aspecto mais importante é o vínculo educacional obrigatório de 16 milhões de jovens matriculados em creches e escolas públicas.
 
Pela primeira vez no Brasil se criou uma fórmula de resgate da miséria pela via escolar. Mesmo com defeitos e problemas, o BF acena com uma saída ao lembrar aos pobres que a única forma de escapar da degradação moral provocada pela miséria é através da aquisição de instrução e saber.  
 
Ajudar os pobres: essa é uma fantasia que não se realiza porque as elites brasileiras não cortam seus privilégios em favor da justiça social.
 
A gente até entende quando um cidadão isolado se incomoda diante de um pobre que vasculha o lixo ou pede uma ajudazinha pelo amor de Deus. O responsável por uma instituição pública, porém, tem o dever constitucional, não apenas moral e humano, de ajudar os desvalidos.
 
O Bolsa Familia não é uma esmola, mas uma ajuda cristã em favor de quem está sob risco de perder a autoestima por falta de amparo civil. Sem falar que a merreca do BF se transforma integralmente em consumo, contribuindo para ativar a economia.
 
A visão egocêntrica das elites está difusa no comportamento da maioria dos empresários, dos políticos e dos integrantes das instituições de governo, especialmente no Judiciário, o mais bem aquinhoado em salários e benefícios indiretos.
 
Até agora a ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, não traduziu em fatos concretos sua preocupação com a situação dos presídios brasileiros.
 
Se Carmen Lúcia quer mesmo fazer alguma coisa concreta, que comece por transferir para os encarcerados o auxílio-moradia dos magistrados, que não precisam dessa mordomia, pois têm os melhores salários do serviço público.
 
São 14.000 magistrados que recebem, cada um, R$ 50 mil por ano a título de auxílio-moradia. Seriam R$ 700 milhões a beneficiar 600 mil presidiários, dando o empurrão inicial a um processo de resgate de uma parcela dos cidadãos brasileiros que perderam não apenas a liberdade, mas alguns dos direitos mais elementares, entre eles quatro refeições por dia.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
"A quem o pouco não basta, nada basta".
Epicuro, filósofo grego (341-271 a.C.)

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Cortina de ferro

Como o PT vai sair do imbróglio em que se meteu após a eleição de Coser (foto) para comandar o partido?

OPINIÃO
José Rabelo
A ocasião faz a cabeça
Preocupado em descolar a Reforma Trabalhista de Temer, Ricardo Ferraço se alinha à narrativa dos tucanos cabeças pretas
Piero Ruschi
Ecomemória: lembranças da destruição ambiental no ES
Guardo em casa um jogo curioso. Na capa, o Museu Mello Leitão ao lado da Aracruz Celulose - uma atroz incoerência lógica
Lídia Caldas
Nutrição e gestação
Será que uma gestante tem mesmo necessidade de uma dieta alimentar diferenciada?
Geraldo Hasse
Salgado Filho, um simples herói
Hoje ninguém mais lembra o advogado que regulamentou o comércio dos ambulantes
Caetano Roque
Água da mesma pipa
Na verdade, não houve embate na eleição no Sindicomerciários
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Uma festa para Ro Ro que rolou escada abaixo
Panorama Atual

Roberto Junquilho

O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Meu dia, seu dia
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Ferraço: 'Hartung continua o mesmo: enganando, tripudiando e passando por cima de todos'

Distritão ganha força no Congresso e pode pôr fim ao 'efeito Tiririca'

Cortina de ferro

Audiência pública debate contaminação e mortandade de peixes em rios de Aracruz

Comdema nega recurso à Infraero e mantém multa de R$ 535 mil por emissão de poeira