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Comunidades de Povoação e Pontal do Ipiranga fecham estrada em protesto contra a Samarco-Vale-BHP


29/12/2016 às 10:27
“Ninguém tem mais sossego não, tá uma agonia. Pode até acontecer uma tragédia“. A frase é do presidente da Associação de Moradores de Povoação, Jocenilson Cirilo Mendonça, dita na manhã desta quinta-feira (29), após protestos que fecharam o acesso às estradas que ligam Linhares aos balneários de Povoação e Pontal do Ipiranga, no bairro Aviso.


O objetivo foi chamar atenção da Samarco-Vale/BHP e das autoridades e deixar um recado: se até dia 20 as comunidades não forem atendidas, irão aumentar os protestos e até acampar na estrada. Após grande tumulto, o trânsito foi totamente liberado às 8 horas da manhã.

Radicalismo? Sensacionalismo? De forma alguma. Quase 14 meses após o crime, a empresa sequer conseguiu concluir um cadastro dos atingidos que funcione. E não se trata de incompetência, não, é estratégia de guerra, como bem lembrou o procurador da República em Linhares, Paulo Henrique Camargos Trazzi: “Dividir para conquistar. É uma estratégia de guerra que todas as grandes empresas usam. Se você não cuidarem disso, elas vão passar por cima de vocês. ”, alertou o procurador durante reunião da Fundação Renova em Regência no início de dezembro.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que há décadas mobiliza as comunidades atingidas por hidrelétricas e outros grandes empreendimentos com barragens, tem no fortalecimento das comunidades um de seus principais focos de trabalho. Ao chegar na Foz do Rio Doce, sempre enfatizou essa questão, reunindo todos os atingidos numa pauta única de reivindicação. “A união, a organização e a luta são os principais caminhos para obter conquistas”, afirma Pablo Dias, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) na Bacia do Rio Doce.

De fato, a tensão social em que vivem as comunidades ribeirinhas e litorâneas atingidas pelo crime da Samarco/Vale/BHP, ao norte e ao sul da Foz do Rio Doce, é talvez um problema tão sério quanto a própria contaminação ambiental provocada pela enxurrada de lama de rejeitos de mineração que irresponsavelmente a empresa deixou vazar de sua barragem em Mariana/MG.

Samarco tem que assumir o que fez

“Tá difícil de viver aqui”, lamenta Jocenilson. “Três meses mapeando uma comunidade com 1,5 mil moradores? Ficam fazendo cadastro a vida toda e a comunidade fica brigando entre si”, denuncia. Segundo o presidente da Associação, a percepção é de que a comunidade está dividida, metade recebendo o auxílio e a outra metade não. E no último recadastro em curso, “há três meses”, o objetivo da Samarco/Vale/BHP é tirar o cartão de algumas pessoas, ao invés de aumentar o número de beneficiados.

O recado dado no protesto do hoje foi claro: pagar a todos os moradores, e não só de Povoação, mas também de Pontal do Ipiranga, Zacarias e Degredo, citou, lembrando as comunidades mais próximas. O prazo é até o dia 20 de janeiro. “Pra eles pararem de pagar eles tem que limpar o rio”, avisa.

Todos foram atingidos. A comunidade é uma ilha, com o mar de um lado e o rio do outro. Depois da lama, o turismo acabou, o lazer acabou, a festa da manjuba e a festa do robalo acabaram. “O Natal passou com comércio com as portas fechadas”, conta. “Um ano e três meses que estamos brigando por esse benefício e eles não dão resposta nem a mim nem a comunidade”, protesta.

“Eles têm que entender que fizeram um crime bárbaro. O que eles fizeram não é coisa que se faça em nenhum lugar não. Sempre ganharam muito dinheiro com o Rio Doce e não fizeram nada pra evitar a tragédia”, afirma. “A Samarco destruiu e não quer se responsabilizar. Ela tem que assumir o que ela fez”, reivindica. 

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