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Quiproquó serrano


02/01/2017 às 20:18
Há quem considere a sessão desse domingo (1) na Serra de posse dos vereadores como um episódio corriqueiro, típico de um município que é dividido há duas décadas em dois grupos políticos: um comandado pelo prefeito reeleito Audifax Barcelos (Rede) e outro pelo ex-prefeito e deputado federal Sérgio Vidigal — derrotado pelo rival na eleição de outubro último por uma pequena margem de votos.
 
Na patética sessão dominical teve um pouco de tudo: ofensas, xingamentos e até agressões. Isso mesmo. O filho do vereador Nacib (PDT), Samir Haddad, não se conformou com a decisão da vereadora Neidia Maura (PSD), que se escreveu como primeira secretária na Chapa 1, de oposição, e ao mesmo tempo na Chapa 2, da base de apoio ao prefeito, como presidente, e partiu para cima dos vereadores Adriano Galinhão (PTC) e Alexandre Xambinho (Rede), que conduziam a sessão.
 
Como os grupos políticos agem em família na Serra, Samir se sentiu no direito de tomar as dores do pai, ao entender que Neidia havia traído o acordo firmado com Nacib e outros vereadores da oposição. Não pensou duas vezes. Pegou o livro de posse que jazia sobre o púlpito e atirou em direção a Xambinho e Galinhão
 
O episódio foi o estopim que faltava para pôr fogo de vez na sessão. A partir daí o clima que já era tenso esquentou de vez. Com os nervos a flor da pele, familiares, amigos e assessores dos vereadores ligados a Audifax e Vidigal se ofendiam à vontade no plenário. Detalhe, o acesso ao plenário era restrito uma lista “Vip” de convidados dos vereadores. O restante da torcida se espremia na acanhada galeria. Apesar do desconforto provocado pelo forte calor e a superlotação, ninguém estava disposto a arredar o pé da Câmara enquanto não houvesse um vencedor.
 
Como já se tornou tradição nas disputas políticas serranas, imperou a rivalidade, que lembra muito o clima das torcidas organizadas de futebol. Uma obsessão que cega as pessoas e costuma acabar mal.  
 
Foi nesse clima hostil, com a presença da polícia, fazendo intervenções pontuais para controlar os ânimos dos mais ensandecidos, que transcorreu a sessão que de posse aos vereadores e definiu a nova Mesa Diretora da Câmara. 
 
Inacreditável que entre os 23 vereadores não tenha tido um único com bom senso para alertar aos demais que não havia um ambiente minimamente seguro para prosseguir com a sessão. Houve princípios de corre-corre mais de uma vez. A superlotação criava as condições propícias para uma tragédia, caso houvesse uma emergência. E se alguém mais exaltado — e os exaltados não eram poucos — estivesse armado e decidisse apelar. Essa era uma hipótese plausível, já que as pessoas que acessaram o plenário não foram revistadas. Aliás, segurança da Casa foi outro ponto lamentável, digno de nota.
 
Apesar da insegurança, a sessão seguiu e a Mesa Diretora foi empossada aos trancos e barrancos com Neidia na presidência, como queria a base aliada do prefeito. 
 
Audifax, a propósito, assim que percebeu que os ânimos estavam um pouco mais serenados, apressou-se para fazer seu juramento e convidar os presentes para a festa que o aguardava do lado de fora da Casa. 
 
Três horas depois de todo o quiproquó ocorrido na Câmara, Audifax se comportou como se nada tivesse acontecido, como se tudo estivesse na mais perfeita ordem. Fez gestuais de coraçãozinho e tudo o mais. 
 
Talvez o prefeito tenha sido honesto, o que seria ainda mais preocupante. É preciso se chocar com as cenas dantescas registradas no primeiro dia do ano na Câmara da Serra. É preciso se indignar e dizer que um município que já beira a casa dos 500 mil de habitantes não pode mais ser palco de um espetáculo tão bizarro, protagonizado por dois grupos políticos anacrônicos. A população da Serra merece sorte melhor.

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