Seculo

 

Ruschi preveniu sobre o avanço do deserto verde no Espírito Santo (parte 2)


04/01/2017 às 16:45

A substituição da Mata Atlântica por plantações de eucaliptos no norte e noroeste do Espírito Santo foi outro antigo e grave crime socioambiental denunciado veementemente por Augusto Ruschi e que mancha de sangue e cinzas a história do Espírito Santo.

Extermínio regional de um dos biomas mais biodiversificados do mundo, desertificação do solo, desaparecimento de centenas de córregos e rios, morte, expulsão, marginalização e, agora, criminalização e perseguição – inclusive com apoio policial – de comunidades tradicionais... Será possível pagar um passivo socioambiental desse tamanho?
 
Incrível como “a mais avançada tecnológica ambiental” está sempre muito aquém das necessidades de proteção da vida. Na década de 1960, era moderno derrubar floresta nativa com correntões para plantar uma espécie exótica em grandes extensões de terra.
 
Era o “progresso”, ao qual se submeteram – e ainda se submetem, a maioria, servilmente – os governantes, concedendo incentivos, isenções e tantas outras facilidades para que a instalação da parte mais suja e criminosa da indústria mundial fosse concretizada nas terras de indígenas e quilombolas.
 
Ruschi pesquisou, escreveu, falou, bradou, lutou muito contra a instalação das monoculturas de eucalipto no Espírito Santo. Mas essa foi uma batalha perdida. Não só a Justiça, mas também os governos, empresários e acadêmicos gananciosos e corruptos são cegos e lançam suas vendas contra os olhos da população. Ainda se sustenta o discurso de que é polêmica a agressividade da silvicultura exótica em larga escala. “Não há provas...”
 
O velho “dividir para conquistar”
 
Assim como “não há provas” também de que houve grilagem e expulsão de indígenas e quilombolas para que a Aracruz Celulose (Fibria) e depois a Suzano instalassem seu manto verde mortal sobre a região. 
Joice Nascimento Cassiano, liderança na comunidade do Linharinho, em Conceição da Barra, conta, com tristeza, uma das mais novas estratégias de guerra da Aracruz Celulose (Fibria) para minar a luta quilombola pela retomada de seu território tradicional.
 
Ao lado da criminalização e perseguição das lideranças, a empresa tem difundido o Programa de Desenvolvimento Rural Territorial (PDRT), em que as famílias que fazem a adesão, assinam um contrato em que aceitam os termos da empresa, onde ela diz “ceder suas terras” para uso das famílias, e somente em atividades e espaços por ela determinados.
 
Trata-se de uma forma de abrir mão da luta pela titularidade da terra, ao aceitar a cessão da mesma por parte da empresa. “É o velho ‘dividir pra conquistar’”, lamenta Joice. “Esses contratos dão direito e poder pra empresa dizer que a terra é dela”, adverte.
 
Justiça convoca testemunhas
 
A CPI da Aracruz Celulose, instalada na Assembleia Legislativa em 2002, foi encerrada sem relatório final por força de uma ação da empresa acatada pela Justiça. Mas os dados levantados pelos deputados serviram de base para o Ministério Público Federal ingressar com uma Ação Civil Pública contra a Aracruz, o Estado e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
 
Segundo matéria publicada na última terça-feira (03) no site da Assembleia, a ACP (0000693-61.2013.4.02.5003) “pede a anulação dos títulos de domínio de terras devolutas cedidas à empresa pelo processo ter sido realizado de maneira fraudulenta, a devolução das terras obtidas e, caso o Estado verifique a condição de quilombolas, a titulação em favor das comunidades que ocupavam essas áreas, além do pagamento de indenização”.  E que, no último despacho do caso, constante no site da Justiça federal, o juiz responsável deferiu, no dia 13 de dezembro, pela produção de prova testemunhal, cabendo às partes envolvidas indicarem suas testemunhas sobre os fatos em questão.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Quem segura?

Depois da seca, a bonança. Hartung tirou o último mês do ano para liberar seu ''pacote de bondades'''

OPINIÃO
Editorial
Morta-viva
Enfim, cumpre-se o destino óbvio no País das relações promíscuas: a Samarco/Vale-BHP tem as primeiras licenças ambientais para voltar a operar
Piero Ruschi
INMA e Ruschi em rota (s) de colisão
Nomeação de diretor dá sequência ao processo de imoralidades e falta de transparência contra patrimônio deixado por Ruschi
Gustavo Bastos
A volta do shoegaze
Ressurgimento do shoegaze se deu, sobretudo, com o retorno oficial do My Bloody Valentine
Geraldo Hasse
Aprimorando a arte das panacéias
Proliferam nas ruas os vendedores de panos de prato a 10 reais por meia dúzia
JR Mignone
Gazeta AM 34
Pode-se definir essa emissora em três fases distintas nesses 34 anos de comunicação
Roberto Junquilho
O abono como estratégia política
Como hábil conhecedor do seu mister, Hartung vislumbra apenas a conjuntura de 2018
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

Quem me ensinou a nadar
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Quem quer dinheiro?
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Redução de número de comissionados gera embate entre deputados na Assembleia

Questionamentos judiciais podem anular resultado da disputa ao comando do Crea-ES

Cesan e Cariacica negam responsabilidade sobre esgoto lançado na baía de Vitoria

Funcionário dos Correios é condenado por desviar encomendas do centro de triagem do aeroporto de Vitória

Projeto que garante abono aos servidores segue para sanção de Hartung