Seculo

 

Não à criminalização


05/01/2017 às 16:07
Mais uma vez, a imprensa corporativa capixaba criminalizou os protestos de rua rotulados como “não oficiais”. Os “oficiais” são os que recebem o selo de “legítimo” das forças de segurança pública e da imprensa porque são feitos por “gente do bem”. Os estudantes que foram às ruas de Vitória contra o aumento de 16,36% na tarifa do Transcol (saltou de R$ 2,75 para R$ 3,20) devem ser “gente do mal”. 
 
As manchetes dos jornais desta quinta-feira (5) se encarregaram de criminalizar o ato, tornando-o ilegítimo. Os 300 manifestantes que estavam exercendo o direito democrático de se expressar contra o aumento, considerado abusivo, pagaram o pato pela ação inapropriada de meia-dúzia, mas isso não deveria invalidar o objeto do protesto.
 
Transformar o protesto em um ato insano de vândalos que não deve ser apoiado pela sociedade. Essa era justamente a estratégia do governo e imprensa. “Protesto contra o aumento da passagem acaba em Vandalismo” (A Gazeta, 05/01/17); “Quebra-quebra, bombas e prisões” (A Tribuna, 05/01/17). Os dois principais jornais do Estado se preocuparam em criminalizar o ato. 
 
Havia uma orientação da cúpula da Secretaria de Segurança para tratar os manifestantes como “vândalos”. O Sindijornalista recebeu denúncias sobre a ação truculenta da PM, que reprimiu com violência os manifestantes que tentavam registrar as imagens do protesto, especialmente as que flagravam a repressão da polícia. “O Sindijornalistas tomará as devidas medidas cabíveis e junto com os fatos das manifestações anteriores iremos denunciar os abusos de autoridade aos organismos nacionais e internacionais”, postou um dos membros da diretoria do sindicato no perfil do Ninja ES, no Facebook. 
 
Antes de embarcar no senso comum e sair pichando o protesto, é preciso fazer uma reflexão: será que a maioria dos usuários do Transcol está satisfeita com a qualidade do serviço oferecido? Não adianta a GV Bus publicar um informe nos jornais para registrar que a tarifa do Transcol é uma das mais baixas entre as regiões metropolitanas do Sudeste, Sul e Centro-Oeste. 
 
Na verdade, comparar as tarifas praticadas pelo Transcol às de outras regiões metropolitanas não justifica o reajuste. A opinião de muitos especialistas segue na contramão desse argumento. A passagem de ônibus no Brasil é cara pelo serviço que é prestado e o subsídio do poder público é baixo, e essa não é uma exclusividade do governo do Espírito Santo. É geral, em estados e municípios.
 
Para iniciar a conversa, os especialistas apontam que é preciso comparar as tarifas brasileira com as de outros países. Os dados mostram que o valor do subsídio governamental financia mais da metade do custo da operação na Europa. Em Barcelona (Espanha), o subsídio do governo passa de 50%; índice próximo aos concedidos em Buenos Aires (Argentina), Pequim (China) ou Turim (Itália). 
 
Os especialistas lembram que essa tendência é mundial. O subsídio, além de representar um alívio para o orçamento do trabalhador que depende do transporte público, é uma maneira de incentivar o uso de modais alternativos ao automóvel. Dentro dessa lógica, a participação do usuário na tarifa gira em torno de 40% a 48%. O restante do custo da operação vem de subsídios públicos e outras receitas, como publicidade, por exemplo.
 
No Espírito Santo, o subsídio está longe da realidade européia. Nem precisa ir tão longe. Em São Paulo, o subsídio na tarifa de ônibus é de 31% - que ainda é muito aquém do ideal. O governo capixaba entra com menos ainda: 18,75%, ou R$ 0,60. A tarifa que subiu para R$ 3,20, na verdade, custa R$ 3,80. Se seguíssemos os padrões europeus ou mesmo dos nossos vizinhos argentinos, a tarifa ficaria, mesmo com o reajuste de 16,36%, em torno de R$ 1,30 a R$ 1,60. Tudo isso sem comparar o custo-benefício lá e aqui. Há um abismo entre a qualidade do transporte público brasileiro e europeu.
 
Parece que a manifestação dessa quarta-feira (5) não se resumia a um “irresponsável quebra-quebra”. 

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