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Nísia na cabeça, sem golpe


06/01/2017 às 18:14
As listas tríplices de nomes para cargos públicos são formadas pelo voto democrático, daí a tradição de que o primeiro nome seja sempre respeitado pelos governos. No caso da Fundação Oswaldo Cruz, o ministro da Saúde só não fraudou a ordem da indicação graças à revolta da maioria dos funcionários da centenária instituição de pesquisa do Rio. Colocada em primeiro lugar na lista tríplice com 60% dos votos, a socióloga Nísia Trindade Lima foi confirmada na presidência.
 
Funcionária de carreira com obra respeitada por sua abrangência e profundidade, Nísia Trindade Lima é autora do livro UM SERTÃO CHAMADO BRASIL (Revan, 1999), que faz uma brilhante releitura das relações históricas entre o litoral urbanizado e os vazios populacionais do interior do Brasil. É um livro que analisa e interpreta as obras de grandes autores nacionais como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Antonio Candido e Darci Ribeiro, entre outros. No entanto, é trabalho pouco conhecido que merece ser difundido para conhecimento de estudantes, jornalistas, sociólogos, historiadores e economistas.
 
O texto que segue, intitulado A Conquista do Sertão, é um dos capítulos de um livro inédito sobre a ocupação agrícola do cerrado, bioma que representa 22% do território nacional, no qual vem se dando o mais recente choque entre a chamada civilização litorânea e a dita cultura caipira- primitiva-rural. Publico-o em homenagem à nova presidente da Fiocruz.           
 
A Conquista do Sertão
 
Para os primeiros habitantes do Brasil, estabelecidos principalmente no litoral do nordeste e do sudeste do país, avançar rumo ao oeste sempre foi a suprema aventura. Caminhar “para dentro” significava desafiar o perigo, correr riscos, sujeitar-se a doenças desconhecidas e...criar um país. Nessa caminhada constante para o interior, os brasileiros tomaram efetivamente posse de um novo território. Quinhentos anos depois, a aventura ainda parece longe do fim. “O deserto é o senhor da colônia”, escreveu o historiador Frederick J. Turner, tentando explicar a corrida dos pioneiros para o oeste norte-americano. 
 
Os aventureiros modernos contam com máquinas sofisticadíssimas, mas a conquista definitiva ainda está por se fazer. No miolo do Brasil abrem-se novos caminhos e inauguram-se novas cidades – tudo numa velocidade sem precedentes na história da humanidade. Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implantação de lavouras é documentada via satélite por organismos internacionais, sob protestos veementes dos ambientalistas, apavorados com a devastação do planeta. Os brasileiros, financiados por consumidores de outros países, são os protagonistas centrais de uma das últimas e decisivas aventuras da humanidade na conquista de espaço para sobreviver e produzir alimentos.
 
O Brasil contém hoje a maior reserva de terras agricultáveis do planeta. Ela fica no cerrado, a última fronteira virgem antes da amazônia, pulmão da Terra. Juntos, esses dois imensos ecossistemas constituem as maiores reservas de água doce do mundo. Manejando o fogo, tratores, sementes transgênicas, computadores e satélites, os brasileiros jogam aqui não apenas o seu futuro, como povo, mas o futuro da humanidade, talvez.
 
Não é apenas o oeste geográfico que está em jogo. No imaginário brasileiro há todo um oeste mítico desenhado como metáfora ao longo dos séculos. Repete-se aqui o fascínio ianque pelo oeste como espaço para a grande corrida da sobrevivência. O cerrado, ex-sertão, ora temido, ora ignorado, é o território do contraditório: na busca da realização individual, milhões de pessoas esmeram-se na prática das mesmas técnicas agrícolas e mercantis, sujeitando-se aos ditames do Mercado, o verdadeiro senhor das colônias modernas.
 
Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o ex-sertão do Brasil Central representa hoje um espaço livre que precisa ser ocupado de qualquer maneira, a qualquer preço, não importando muito a qualidade da ocupação ou a sustentabilidade do modelo adotado. Estimulada pela demanda mundial, essa corrida cega, sem freios, transformou-se num movimento coletivo que se realimenta incessantemente da falta de perspectivas no litoral e das tradicionais promessas do sertão. Aqui o sucesso pessoal é medido por sinais externos como a extensão das fazendas, a capacidade de armazenagem dos galpões ou a largura dos pneus das camionetas. O que será dos brasileiros se fracassarem nessa aventura?   
 
BANDEIRISMO
 
Um dos mitos fundadores do Brasil, a conquista do sertão está presente no imaginário brasileiro desde as primeiras lutas pela independência, no final do século XVIII, quando os mineiros liderados por Tiradentes tentaram articular a revolta popular contra a exploração portuguesa. Não admira que o esforço para conhecer o país e dominar o território tenha contribuído para o surgimento de uma consciência nacional.
 
Diversos pensadores estudaram a contradição litoral x interior, mas ninguém foi mais fundo nessa investigação do que a socióloga carioca Nísia Trindade Lima. Em “Um Sertão Chamado Brasil” (Revan, Rio, 1999), ela afirma que a consciência de que havia uma distinção entre os dois espaços apareceu no início do século XIX. Não se tratava de uma simples diferenciação geográfica. Desde suas origens mais remotas, a dicotomia litoral x sertão tinha conteúdo crítico, pois já se percebia a distância cultural entre ambos.
 
No litoral, sob influência da imigração peninsular, houve desde o início uma civilização conservadora, “de empréstimo”, segundo Euclides da Cunha; nos sertões, ao contrário, formou-se uma civilização mais aberta e original, conservadora também, mas portadora de uma cultura genuinamente americana, fruto do embate direto com a natureza. No interior e não no litoral estaria o cerne da nação brasileira. Daí a busca incessante da integração, ou de um encontro-resgate.
 
Os principais agentes dessa fusão cultural teriam sido os bandeirantes, líderes de históricas incursões aos sertões ignotos. No início eles agiam por encomenda do império português, depois moveram-se também por iniciativa própria e sempre demonstraram um peculiar espírito de pioneirismo. Na busca de ouro e pedras preciosas, percorreram vastos espaços, mas não os ocuparam realmente. Vilas e cidades construídas para apoiar o garimpo e a mineração não lograram a auto-suficiência senão após o fim da febre do ouro, quando parte da população se convenceu de que precisava buscar a saída na agricultura e na pecuária. Esse processo de colonização, bastante lento, foi executado pela pata do boi e as tropas de burros. Definitivamente, a partir de 1800, o antigo papel dos caçadores de esmeraldas passou a ser exercido por agricultores, criadores de gado e tropeiros.  
 
No entanto, a inteligência brasileira demorou a dar-se conta da contribuição dos bandeirantes em geral para a criação de uma consciência nacional. Por muito tempo os intelectuais nativos tatearam no escuro, construindo ídolos de barro. Por exemplo, em certo momento do século XIX, quando esteve em voga a poesia indigenista de Gonçalves Dias, tentou-se entronizar o índio como símbolo da nacionalidade, mas esse apelo nativista esgotou-se com o sucesso dos Guarani – o romance de José Alencar e a ópera de Carlos Gomes. Mais tarde, registrou-se a tentativa de idolatrar o caboclo sertanejo, mas o tiro saiu pela culatra, resultando num estereótipo negativo -- o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Quanto aos modernistas promotores da Semana de Arte de 1922 em São Paulo, até hoje não se sabe muito bem o que queriam -- fora aparecer, exibir-se, protestar.
 
No trabalho dos intelectuais brasileiros, lembra Nísia Trindade Lima, a valorização do bandeirante como elemento-chave na formação da identidade nacional tornou-se recorrente a partir da pregação de Vicente Licínio Cardoso (1890-1931), sociólogo e engenheiro que procurou desconstruir a idéia (colonial, na sua opinião) de que a história do Brasil transcorrera toda ela na costa, como reflexo da tradicional relação com Portugal e a Europa.
 
É verdade que tanto no Rio como em outras cidades costeiras boa parte da população vivia de frente para o mar, à espera do que vinha de Europa, mas uma parcela minoritária do povo encarava a incorporação dos sertões como indispensável à formação da identidade nacional. Nasceu assim uma tensão que estaria viva até hoje, transparecendo, por exemplo, na forma como os nacionalistas brasileiros vêem a conquista/preservação da amazônia e do cerrado -- o que resta do sertão. 
 
Em seu estudo sobre a dicotomia litoral/sertão, Nísia Trindade Lima destaca a importância dos livros de viagens e dos relatórios de missões científicas para a descoberta do país e a consequente formação de uma consciência nacional. Depois do ciclo das bandeiras tradicionais, essa corrida ao interior intensificou-se no início do século XIX com a chegada de cientistas europeus como Spix, Martius e Saint-Hilaire, cujos relatos se tornaram famosos. Entretanto, antes e depois dos pesquisadores ambulantes, diversos estudiosos brasileiros ou identificados com a causa brasileira promoveram uma busca instintiva de razões e pretextos que permitissem ao país sobreviver sem vínculos de dependência a um padrão/patrão europeu. Paralelamente a esses esforços de pesquisa científica, realizava-se uma corrida espontânea por parte dos exploradores dos recursos naturais do território. 
 
Até hoje não se alcançou a autonomia desejada mas, à medida que se interiorizou, a identidade brasileira, originalmente “carangueja”, foi mudando de feição, num processo que se renova ao sabor das trocas entre esses dois pólos da geografia econômica nacional: enquanto a cultura urbana vai impondo seus valores às populações rurais e suburbanas, a cultura sertaneja deixa sua marca no comportamento dos habitantes das cidades. Tanto tempo depois, prevalece hoje o consenso de que a brasilidade não está nesse ou naquele tipo isolado, mas na mistura, na miscigenação. Nesse sentido, a fusão do litoral com o sertão seria fundamental para dar origem a um Brasil organicamente americano, autônomo e feliz.
 
NACIONALISMO
 
Os autores mais identificados com a idéia do sertão como cerne da nacionalidade foram principalmente Euclides da Cunha, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Roquette Pinto. Eles se situam no eixo central de um nacionalismo que serviu de estímulo e inspiração a iniciativas governamentais como a campanha pelo saneamento rural nos anos 1910, a Marcha para o Oeste na década de 1930 e a construção de Brasília nos anos 1950, sem contar expedições mais ou menos avulsas – como a Coluna Prestes, nos anos 1920; ou a Missão Rondon, desde o início do século XX -- organizadas para conhecer a realidade do interior remoto.
 
A conquista do sertão brasileiro teve vários impulsos e um dos mais fortes esteve associado à construção de estradas de ferro entre 1870 e 1920. A morte de milhares de trabalhadores na abertura dessas estradas despertou os cientistas brasileiros para a necessidade de tratar de doenças endêmicas como a malária, o mal de Chagas e a esquistossomose. Por isso Nísia Trindade Lima chega ao ponto de situar os higienistas liderados por Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Belisário Penna como uma espécie de novos bandeirantes – dispostos não a escravizar índios e capturar escravos fugidos, mas a libertar brasileiros da doença, da fome e da miséria. Ela lembra especialmente a viagem do médico Julio Paternostro ao vale do Tocantins no período 1934/38: seu relatório causou um choque ao comparar a vida das comunidades rurais tocantinenses à de populações de séculos passados.  
 
É claro que as medidas oficiais em prol das populações do centro do país não correspondiam apenas a impulsos de fora para dentro; algumas dessas iniciativas eram também uma resposta a pressões originárias do próprio litoral superpovoado, onde muita gente via no interior desabitado uma saída para as periódicas crises nacionais. Além disso, procurava-se atender às brutais carências dos habitantes dos sertões, isolados pelas longas distâncias.
 
Embora desde o início do século XX os bandeirantes já tivessem sido apontados como líderes intrépidos da conquista do território nacional, a construção de seu mito ganhou impulso no final dos anos 1930, durante a ditadura de Getulio Vargas. Os intelectuais franceses que fundaram a escola de sociologia de São Paulo encorajaram o estudo do bandeirismo, ao atribuir-lhe um papel de vanguarda. Com isso não só agradaram a seus patrões, membros da elite paulista, mas deram um mote à ditadura estadonovista, carente de heróis.
 
Um dos que melhor souberam cantar o bandeirante como líder nacional foi o poeta paulista Cassiano Ricardo, geralmente identificado como direitista. Mais à esquerda, o sociólogo paulista Antonio Candido, em seu clássico Os Parceiros do Rio Bonito, reconhece que o caipira herdou do bandeirante o laconismo, a rusticidade, o nomadismo e a capacidade de adaptação ao meio sobrevivendo com o mínimo. 
 
Graças a esses e outros estudos, tornou-se mais ou menos consensual atribuir ao ímpeto bandeirante a extensão das fronteiras do Brasil além da linha imaginária traçada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, pelo qual os reis de Espanha e Portugal dividiram entre si a América do Sul. Nesses vastos territórios situados no miolo do Brasil plantou-se paulatinamente uma réplica do modelo econômico institucionalizado no litoral sob o governo luso (até a independência), por influência inglesa (até a república) e mediante o patrocínio ianque (na maior parte do século XX).
 
EMPREENDEDORISMO
 
Não importa sob a tutela de quem se realizou, o avanço sobre os espaços virgens do interior teve desde sempre um caráter missionário, como se a exploração das florestas e a posse da terra contivessem uma promessa de libertação. Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o Brasil Central sempre prometeu redenção aos aventureiros que ousaram adentrá-lo, perseguindo o mito do enriquecimento. Como um determinismo histórico, parece estar disseminado no inconsciente coletivo brasileiro que é preciso levar adiante a ferro e fogo o trabalho pioneiro de desmonte ambiental e conquista territorial iniciado pelos bandeirantes.
 
O mito do heroísmo bandeirante continua presente no imaginário brasileiro moderno e se reproduz no elogio constante aos empreendedores que desafiam os riscos mais primitivos e transformam os ambientes naturais, gerando progresso e implantando os valores da civilização capitalista nos meios mais distantes – hoje no cerrado e na amazônia. Não é por acaso que entre os tipos mais admirados do Brasil contemporâneo se destacam os derrubadores de florestas, os abridores de estradas, os construtores de barragens, os criadores de cidades e os campeões da agricultura.
 
Também não parece ser por simples coincidência que na virada do século XX tenha se destacado a figura do sojicultor Blairo Maggi, um migrante vitorioso em todos os sentidos. Já em meados da década de 1990 ele foi apontado como o rei da soja em lugar do empreiteiro Olacyr de Moraes. Festejado pelos políticos, Maggi tornou-se suplente de senador antes de eleger-se governador do Estado do Mato Grosso em 2002. Consciente de que a deficiência logística é o calcanhar de Aquiles do cerrado, ele fez da construção de estradas uma prioridade. De alguma forma o bandeirantismo continua vivo no espírito empreendedor de alguns brasileiros com vocação para a liderança.
 

LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“De todo modo, não me parece superada a ideia de uma ciência que se dedique a pensar o Brasil. Esta sociedade de fronteiras móveis, de homens fronteiros, onde talvez seja possível aproximar litoral e sertão.”
 
Nísia Trindade Lima, no último parágrafo do livro “Um Sertão Chamado Brasil”

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