Seculo

 

Interlocução de mão única


09/01/2017 às 22:27
Na coluna Praça Oito desta segunda-feira (9), o jornalista Vitor Vogas recupera uma conversa que teve com o governador Paulo Hartung no finalzinho de 2016. O pemedebista, que já admitia estar pensando em mudar de partido, dispara novas críticas ao presidente da República, apontando erros e acertos do governo federal — obviamente, mais erros que acertos. 
 
Até aí nenhuma novidade. Hartung, desde a interinidade de Temer, vem criticando as medidas adotadas pelo presidente, sobretudo as que passam pela política econômica. Mas na conversa com o colunista de A Gazeta, Hartung aponta um ponto fraco curioso de Temer, considerando de quem partiu a crítica. 
 
“Esse governo ainda tem pouco capacidade de dialogar com a sociedade”. Hartung se esquece que seus dois primeiros governos foram marcados pela falta de interlocução com a sociedade civil organizada. Prova dessa deficiência se refletiu na estratégia de campanha traçada para a conquista do seu terceiro mandato. 
 
Ao analisar os pontos fracos do então candidato, os marqueteiros de Hartung notaram que havia um distanciamento abismal entre o peemedebista e o povo. Perceberam que Hartung era uma figura quase irreal, um espectro, que não podia ser tocado. A estratégia foi humanizá-lo. Mostrar que Hartung era feito de carne e osso. Daí surge o bordão de campanha “Abraça o Paulo”. Era preciso mostrar que o “novo Paulo” poderia ser tocado, até abraçado. Meio sem traquejo para incorporar o personagem pela falta de prática, o candidato saiu distribuindo abraços a torto e a direito, sempre paramentado em trajes mais informais e preferindo ser chamado apenas pelo primeiro nome para “quebrar o gelo”. 
 
A estratégia funcionou. Garantiu o terceiro mandato a Hartung, mas tão logo ele assumiu o governo, caiu na rotina, recolheu o personagem (Abraço o Paulo) para o fundo do armário e voltou a ser Paulo Hartung. 
 
Os dois primeiros anos de governo foram igualmente marcados pela falta de diálogo. Hartung não negociou o lançamento do Escola Vida com a comunidade escolar, que resistiu ao programa principalmente por não ter sido convidada para participar da discussão; não criou um canal de negociação com os servidores públicos. Muito ao contrário, mandou recados, em alguns momento ameaçadores, dando a entender que o funcionalismo capixaba teria que levantar as mãos aos céus e agradecer que os salários estavam em dia, diferentemente da situação caótica do vizinho Rio de Janeiro.
 
Essa mesma falta de diálogo foi registrada com outras categorias, que também tinham (ou têm) pautas pendentes com o governo do Estado. 
 
Ainda repercutindo o conteúdo da Praça Oito, o governador do Espírito Santo “ensina” ao presidente Temer que numa crise econômica dessa gravidade “é preciso explicar, explicar, explicar, porque você precisa convencer”. E acrescenta: “Só convencendo você mobiliza, você motiva”. 
 
Hartung sempre tomou suas decisões sem se preocupar em dar explicações à sociedade do que fez, pretende fazer ou deixou de fazer. Suas “explicações”, se é que se pode chamar assim, são transmitidas via “mídia amiga”, já com os devidos filtros, ou seja, são publicadas as informações que estrategicamente interessam ao governo. 
 
Dizer que a interlocução de Temer com a sociedade é falha é o “óbvio ululante”, como diria Nelson Rodrigues. O problema é que o governador capixaba está longe de ser um primor nesse quesito. Se a avaliação fosse sobre a eficácia da comunicação do governo com a imprensa, aí sim teríamos de reconhecer que há uma evolução neste terceiro mandato, que tem a ambição de projetar Hartung para o cenário nacional. 
 
Hartung que tenta se consolidar como exemplo (único) de governador que enfrentou e venceu a crise econômica, quer se notabilizar também como referência quando o assunto é a interlocução do poder público com a sociedade. O problema é que existe aí um abismo colossol entre teoria e prática. O comunicação de Hartung com a sociedade é de sentido único.

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