Seculo

 

Carmen Lúcia e o crime


26/01/2017 às 15:43
Nos últimos dois anos, à medida que se aprofundavam as investigações sobre a corrupção de políticos mancomunados com empresários privados e altos funcionários de estatais, três pessoas do Judiciário se tornaram os atores principais da cena brasileira: o chefe do Ministério Público Federal Rodrigo Janot; o juiz de primeira instância Sergio Moro, baseado em Curitiba; e o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, relator do processo da Operação Lava Jato.
 
Ao mesmo tempo em que crescia o trio do Judiciário, saíam do palco, na marra, a presidenta Dilma Rousseff, alvo de um impeachment maroto; e o deputado carioca Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara Federal, preso pela Operação Lava Jato. No lugar dos dois caídos, estão o vice-presidente Michel Temer e o deputado carioca Rodrigo Maia, cujo(s) comportamento(s) não vêm gerando o menor entusiasmo – ao contrário.
 
Com a morte de Zavascki em acidente aéreo no litoral do Estado do Rio de Janeiro, avulta agora a figura da ministra Carmen Lucia, presidenta do STF. Voluntariosa, ela bem que poderia fazer o que se esperava (e se anunciava) que Zavascki estava para fazer: homologar os depoimentos forçados (delações premiadas, segundo o jargão judicial) de 77 executivos da Construtora Odebrecht que, para se livrar da prisão temporária, denunciaram falcatruas em contratos de obras públicas, favorecendo políticos e partidos. Dizem que são tantos os nomes de políticos citados que talvez se torne mais prático transformar o Congresso em prisão temporária.
 
É um imbróglio fenomenal que só encontra paralelos em 1964 (derrubada do governo Jango Goulart) e em 1954 (suicídio do presidente Getulio Vargas). Desta vez, há o agravante de que as denúncias de corrupção vêm com nomes, valores e as circunstâncias dos crimes.
 
Se a primeira mulher eleita presidenta da República não conseguiu segurar a barra, terá Carmen Lúcia coragem de fazer sua parte?
 
A propósito, qual será sua parte no jogo: homologar as denúncias, segurar a bola, passar a responsabilidade para outro, tentar conciliar os adversários numa mesa de pizzaria ou engavetar os processos?
 
Teoricamente, ela pode tudo; na prática, tem as mãos amarradas por diversos regulamentos. E, no frigir dos ovos, talvez resolva simplesmente dar ouvidos aos colegas ministros, a assessores, amigos e parentes. Pois os processos que estavam com a equipe de Teori Zavascki são explosivos por envolver cifras monumentais e comprometer altas figuras da república, incluindo o atual ocupante da cadeira principal do Palácio do Planalto.      
 
Diante disso, tem sido natural pensar que o ministro-relator da Lava Jato foi vítima de uma armação criminosa. Sua morte pode ter sido mais uma brincadeira do D., seja ele o Destino ou o Demônio (Deus provavelmente não tem nada a ver com isso).
 
Não se deve esquecer que no verão, entre o Natal e o Ano Novo ou entre o Ano Novo e o Carnaval, sempre há uma tragédia no Brasil. Assim, pode-se admitir que a morte de Zavascki faça parte dessa quota acidental. Nesse caso é de lamentar que ele tenha saído de cena sem que os brasileiros ficassem sabendo o que ele estava para fazer: ia tocar os processos pra frente ou segurá-los? Era um homem discreto, um típico juiz que “só falava nos autos”.   
 
Se o acidente foi forjado, porém, podemos concluir que não foi “queima de arquivo”, pois os arquivos da Lava Jato estão vivos nos escaninhos do Judiciário. Admita-se então, como hipótese mais robusta de investigação das circunstâncias do acidente, que o avião pode ter sido derrubado para intimidar quem vier a assumir a responsabilidade de avaliar as denúncias feitas pelos prisioneiros da Operação Lava Jato. 
Mais uma vez, o Judiciário está no olho do furacão. E sob a presidência de uma mulher.   
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
Num jogo de futebol no norte do Paraná, algumas décadas atrás, o árbitro marcou um pênalti contra o time da casa. Bola na marca fatal, o chefão do clube mandante entra em campo e desfere um tiro na bola, que “morre” na hora. Fecha o tempo, acaba o jogo.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Choque

Como diz o ditado, dois bicudos não se beijam. É isso mesmo, Fabrício Gandini?

OPINIÃO
Editorial
Política de encarceramento
Não adianta construir novos presídios. É preciso investir em políticas públicas que sejam capazes de prevenir a criminalidade
Renata Oliveira
Fica, gente!
Hartung tem se esforçado para manter ao seu lado os três grandes partidos do Estado: PT, PSDB e PDT
Ivana Medeiros Zon
Mude de vida
Pensar na influência do comportamento e dos hábitos individuais, incluindo os de consumo, vai muito além do que podemos imaginar.
JR Mignone
A volta da reza
Em 2013 escrevi sobre o ''Poder da Reza''. Hoje volto com ela, pois rezar, orar, falar com Deus, meditar, seja como for, nunca é demais
Caetano Roque
Briga desleal
Com a mídia na mão, o capital consegue fazer com que o cidadão acredite nas mentiras que eles querem
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

pelas beiras!
Flânerie

Manuela Neves

Carmélia, um pouco mais dela
Panorama Atual

Roberto Junquilho

Deputado vai propor CPI para apurar crime da Samarco
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Entre sustos e suspresas
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Choque

Centrais sindicais convocam greve geral para 28 de abril

Ferraço afirma que contrato de antecipação de royalties foi 'malfeito'

Política de encarceramento

Dúvida sobre relator do Caso Alexandre pode adiar julgamento de recurso no TJES