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A democracia manda lembranças


01/02/2017 às 21:09
Causa preocupação o resultado da eleição da nova Mesa Diretora da Assembleia, referendada, na tarde desta quarta-feira (1), por 28 dos 30 deputados. O motivo da preocupação não se deve ao fato de o comando Casa ter sido entregue ao noviço deputado Erick Musso (PMDB), que chega ao mais alto cargo do Legislativo estadual aos 29 anos de idade, depois de cumprir meio mandato de vereador e mais meio de deputado. Mérito dele que soube farejar a oportunidade e se posicionar no lugar certo na hora certa. Reconheçamos, há muitos veteranos por aí que não tem esse time.
 
Mas é preciso ponderar que a eleição de Erick se deve muito mais ao declínio de Theodorico Ferraço (DEM) do que propriamente a uma ascensão fenomenal do neto de Heraldo Musso, por mais espetacular que seja a capacidade de transmissão de "DNA político" entre os Musso.
 
Ferraço, após cinco anos consecutivos no comando da Casa, começou a sentir os desgastes naturais de quem está no centro do poder por um longo período. A queda abrupta de Ferraço é o preço que, mais cedo ou mais tarde, a democracia cobra de quem insiste em se eternizar em cargos de comando. 
 
Mas se a eleição de Musso vem envolta nessa embalagem de renovação, o processo que o elegeu é eivado de velhas práticas. Prevaleceu, mais uma vez, a mão do Executivo estadual na escolha do novo comando da Casa. O velho servilismo do Legislativo ao Executivo nos momentos de decisão.
 
No final das contas, se a democracia, sabe-se lá por quais caminhos, fez o trabalho dela ao fechar as portas para o quarto mandato consecutivo de Ferraço, simplesmente escafedeu-se no processo sucessório que elegeu a nova Mesa Diretora. 
 
Por onde andava a tal democracia quando surge apenas uma chapa para a disputa? Será que os 28 deputados que votaram a favor da chapa se convenceram que essa era a melhor formação para representá-los nos próximos dois anos? Onde estava o tal “grupo independente” que queria renovação? Será que todos se sentiram contemplados com a nova chapa? Não seria mais razoável que houvesse ao menos mais uma chapa para que os deputados pudessem ponderar para fazer suas escolhas? Imagine qual seria o constrangimento do eleitor que tivesse que participar de uma votação com candidatura única? E se por capricho do destino esse candidato “único” representasse antagonicamente tudo que esse eleitor carrega como valores e princípios? O que fazer? Rasgar o título e voltar para casa?
 
Foi mais ou menos a situação enfrentada pelo deputado Sérgio Majeski (PSDB) na tarde desta quarta-feira. O tucano desaprovou a chapa “filha única”, mas simplesmente não teve opção de escolha. Era pegar ou largar. Preferiu largar, assim como Rodrigo Coelho (PDT), que refutou a chapa por ter sido alijado sumariamente do processo que um dia o colocou como postulante à sucessão de Ferraço.
 
Pior foram aqueles que pronunciaram um “sim” contrariado. Percebia-se na leitura dos semblantes que queriam mesmo dizer não. Mas os acordos previamente fechados os impediam de voltar atrás. Àquela altura do campeonato, quando Inês já estava morta e enterrada, não havia mais espaço para dilemas semânticos. Dizer “sim” era imperativo, além de ser a palavra mágica para não desagradar o governador Paulo Hartung que, mais uma vez, conduziu o processo da maneira que já lhe é peculiar: eleição meramente protocolar com os vencedores previamente definidos pelo Palácio Anchieta. É a chamada eleição de gabinete. 
 
No final das contas, depois dos apertos de mãos e afagos nas costas, a foto que fica é que tudo foi transparente e legítimo, com total respeito à independência dos poderes. Para os mais desavisados, pode até parecer, mas isso não lembra em nada a tal democracia.

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