Seculo

 

Silêncio como resposta


03/02/2017 às 20:13
A operação deflagrada em março de 2014, que passou a investigar um monumental esquema lavagem e desvio de dinheiro envolvendo a Petrobras e grandes empreiteiras, seguiu a primeira pista em um posto de gasolina, que não lavava só carros, mas dinheiro. Tinha início a Lava Jato. 
 
Nestes quase três anos de Lava Jato seria até interessante saber a quantidade de conteúdo produzido pela imprensa nacional e internacional sobre o maior escândalo de corrupção do Brasil. Deve ser um número tão astronômico quanto a quantidade de dinheiro desviado dos cofres públicos. Alguém se lembra de um dia que não saiu uma única notícia sobre o caso? A enxurrada de informação é tão impressionante que a prisão do doleiro Alberto Youssef , a primeira, parece que já faz uma eternidade. Alguns dias depois, a Polícia Federal batia na porta de altos executivos da Petrobras. A partir daí, o novelo passou a ser desenrolado e até hoje o juiz Sérgio Moro e seus comandados seguem procurando o fio da meada. 
 
A operação, depois de 34 meses, entra na sua 37ª fase. A “Calicute”, nome que batiza a atual fase, é a que pôs atrás das grades o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Durante as investigações da PF e das inúmeras delações apareceram quase uma centena de nomes que podem estar “envolvidos” com o esquema. 
 
Com os políticos entre os principais operadores do esquema, a Lava Jato tem respingado em muita gente em Brasília. Não por acaso, parte da imprensa, ao noticiar os novos presidentes da Câmara e Senado, eleitos esta semana, se referiu a Rodrigo Maia (DEM-RJ) e a Eunício Oliveira (PMDB-CE) por seus supostos apelidos na lista de delação da Odebrecht. O novo presidente do Senado aparece como “Índio” e o da Câmara como “Botafogo” nos “anais” da relação de propina da empreiteira. 
 
Nem Maia, nem Eunício deixaram de ser eleitos por causa do suposto envolvimento na Lava Jato. Os vazamentos seletivos do Ministério Público e da Justiça, os “atropelos” de Moro e Cia., a espetacularização de algumas prisões (agentes da PF viraram celebridades) e o direcionamento da imprensa, muitas vezes “condenando” e outras “absolvendo” os investigados, de acordo com os interesses de cada veículo, acabaram banalizando a Lava Jato. 
 
Por isso, ter os nomes entre os supostos envolvidos na operação já não tem o mesmo peso. Os investigados que se propõem a dar explicações à imprensa, quase sempre, adotam um discurso que já virou padrão. Primeiramente, criticam o vazamento da delação. Em seguida, afirmam que as acusações são “infundadas”, “falsas”, “absurdas” e outros termos congêneres que demonstram indignação. 
 
Mas a repercussão que alcançou a Lava Jato e a pressão da sociedade por respostas obrigam a imprensa a não se omitir diante de fatos, mesmo que muitas informações ainda não sejam conclusivas e exijam cautela na hora de ser noticiada. 
 
Foi o que aconteceu no início desta semana no anúncio de Michel Sarkis para o comando do Banestes. Uma notícia publicada no jornal Valor Econômico em novembro de 2015 (“Contax passa a ser alvo principal da PF em investigação sobre propina”), põe o então CEO da Contax na condição de suspeito de envolvimento em “organização criminosa responsável por repetidos atos de corrupção e lavagem de dinheiro”, como sustentou, à época, o jornal, apontando a Polícia Federal como fonte da informação.
 
Seria no mínimo leviano, a partir dessa preliminar matéria do Valor e com informações inconclusas, afirmar que Sarkis está envolvido em esquemas de corrupção, mas também não podemos, considerando a utilidade pública do jornal, nos omitir ante a um fato. Quem ele foi citado, foi.
 
Por isso, ao tomar conhecimento da notícia envolvendo Sarkis, o jornal nada publicou sobre o assunto de imediato. Sentiu-se obrigado a ouvir o novo presidente do Banestes. Na última quarta-feira (1), o jornal abriu formalmente a demanda à assessoria do banco. Aguardou, e nada. Ratificou a demanda no dia seguinte, mas não recebeu nenhum um retorno da assessoria, dando a entender que o presidente do Banestes não comentará o assunto, embora também não tenha manifestado essa posição como resposta. 
 
Mesmo sem a versão do presidente do Banestes sobre os fatos, o jornal, que tem em primeiro lugar compromisso com o leitor e vinha sendo cobrado, publicou a notícia com a cautela que o caso inspira. E continua à disposição de Michel Sarkis para o esclarecimento dos fatos. Aliás, a essa altura que o assunto já é público, não é só o jornal Século Diário que aguarda uma resposta, mas a sociedade capixaba, que tem o legítimo direito de saber a versão sobre os fatos direto da boca de Sarkis, o escolhido para receber das mãos do governador Paulo Hartung as chaves do banco público, em última análise, um patrimônio dos capixabas.
 
Caso Sarkis adote o silêncio como resposta, dá azo à célebre frase de Miguel de Unamuno: “Há momentos em que permanecer calado é mentir. O silêncio pode ser interpretado como aquiescência”. O então reitor da Universidade de Salamanca (Espanha) soltou a cotajosa frase em 1936, durante o último discurso que fez antes da sua morte. Corajosa porque ele a pronunciou em meio a franquistas intolerantes, em plena Guerra Civil Espanhola.

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