Seculo

 

O Delírio Amoroso e outros poemas (parte - 1)


05/02/2017 às 10:10

BOCAGE:

Bocage foi um poeta que viveu entre duas fronteiras literárias que, deste modo, representavam exatamente a transição que a literatura de sua época vivia. Bocage era um poeta que estava entre suas anedotas sujas e criações obscenas, alternando com poemas de rara sensibilidade, que eram confissões amorosas e sofrimentos de sua vivência. Na questão literária em si, Bocage estava situado entre as regras rígidas de um Arcadismo decadente, que eram a poesia e literatura de um mundo racional, concreto e organizado, e a liberdade de um Romantismo ascendente, com uma nova poesia e literatura que se abria a um individualismo subjetivo e que vinha como renovação do cânone arcadista. Portanto, podemos dizer que Bocage era um homem do seu tempo e também à frente do seu tempo.

O século XVIII, por sua vez, era um momento histórico marcado por movimentos sociais da classe burguesa que havia surgido com a Revolução Industrial, e que politicamente estava em oposição ao absolutismo real, e que tem como culminância a Revolução Francesa, que vai representar, por seu turno, a queda da aristocracia e o estabelecimento do pensamento liberal, que tinha um caráter iluminista e que carregava em si uma ideologia calcada na livre iniciativa e na livre concorrência.

Nesse contexto, portanto, as expressões literárias e artísticas em geral vão refletir um mundo em transição entre a antiga ideologia da classe aristocrática e o novo pensamento burguês. O século XVIII é, então, o século do Arcadismo, mas é, também, já na virada para o século XIX, o da ascensão e consolidação do Romantismo junto ao público europeu. É em tal contexto histórico que Bocage se situa, uma vez que ele nasceu em 15 de setembro de 1765.

Aos dezesseis anos, Bocage é já militar em sua cidade natal, Setúbal, mas vai para Lisboa em 1783, ao alistar-se no corpo da Marinha Real. Mas tal carreira que poderia ter sido promissora é trocada por uma vida dissipada em botequins, lugar da boêmia por onde circulam fidalgos e frades, e toda uma gama de gente de vida fácil e amores incontáveis, e é neste tipo de vida que Bocage dá à luz poemas sensíveis, alternando com suas improvisações satíricas e obscenas.

De seus amores, um se destaca, pois é por amor a Gertrude que, em 1786, Bocage parte para a Índia, com passagem pelo Rio de Janeiro, passa dois anos em Goa, que é um período de grande decepção no que o poeta considerou a pior das terras, com uma profunda saudade de Portugal, e com um ciúme louco de Gertrude, no que vive a sua predestinação sentimental e trágica de acordo com o modelo camoniano, o qual toma para si.  

Em 1789 é promovido a tenente de infantaria, vai para Damão, depois parte para Macau, quando conhece, com sua saudade de Portugal, entre as torturas da ausência de Gertrude, a miséria. Em 1790, com 25 anos, Bocage consegue regressar a Lisboa, onde a predestinação camoniana se confirma: encontra Gertrude casada com o seu irmão mais velho. Então o poeta mergulha na vida boêmia e desregrada, entre botequins e tertúlias.

É neste contexto de vida que Bocage então ingressa na Academia Literária Nova Arcádia, com encontros nos salões da casa do conde Pombeiro. E é aí que Bocage passa a fazer sátiras que mira primeiro seu presidente, depois, os seus pares mais notáveis, no que se constitui como uma implacável guerra verbal, repleta de insultos, e com a obscenidade como guia e inspiração.

 

POEMAS:

O AUTOR AOS SEUS VERSOS: O poema começa em tom melancólico, um choro lamentoso irrompe: “Chorosos versos meus desentoados,/Sem arte, sem beleza, e sem brandura,/Urdidos pela mão da Desventura,”. A ausência ou falta ou vazio, e o poema que então edita a palavra “sem” seguidamente, continua: “não busqueis, desesperados,/No mudo esquecimento a sepultura;/Se os ditosos vos lerem sem ternura,/Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:”. Ao fim, fica uma promessa do futuro deste poema e poeta, a ternura indicada aqui numa inversão da leitura, aos ditosos que o desdenharão e aos desgraçados que buscarão neste poeta o último alento.

DESCREVENDO OS ENCANTOS DE MARÍLIA: O poema descreve tal encanto numa abertura que já diz à sua musa, num tom encantatório que logo vira mitologia: “Marília, se em teus olhos atentara,”. E o poema continua: “Ao vil mundo outra vez o onipotente,/O fulminante Júpiter baixara:/Se o deus, que assanha as Fúrias, te avistara/As mãos de neve, o colo transparente,/Suspirando por ti, do caos ardente/Surgira à luz do dia, e te roubara:”. Desperta Júpiter e a força descomunal tenta irromper, o poema afunda em alma, e o sacrifício do poeta se expande em canto universal, de terra, mar e firmamento: “se a força igualasse o pensamento,/Oh alma da minh`alma, eu te of´recera/Com ela a terra, o mar, o firmamento.”.

FEITO NA PRISÃO: O poema encarcerado, tem seu doído canto num tom noturno, escuro, como o fim do mundo: “Não sinto me arrojasse o duro fado/Nesta abóbada feia, horrenda, escura,/Nesta dos vivos negra sepultura,/Onde a luz nunca entrou do Sol dourado:”. E o sentimento está completamente deslocado, o mundo errado, ou melhor, o mundo repleto de erro e infortúnio, onde está o caos e a inversão de tudo: “bem sei que a frágil criatura/Raramente é feliz no mundo errado:”. E a sorte terrível dá o nome, zombaria por fim: “Só sinto que Marília rigorosa/Entre os braços de Aônio reclinada/Zombe da minha sorte lastimosa.”.

A CAMÕES, COMPARANDO COM OS DELE OS SEUS PRÓPRIOS INFORTÚNIOS: O predestinado camoniano canta a seu rei poeta e lhe dá a homenagem: “Camões, grande Camões, quão semelhante/Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!”. Aqui se compartilha um destino igual: “Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,/Também carpindo estou, saudoso amante:/Ludíbrio, como tu, da sorte dura/Meu fim demando ao céu, pela certeza/De que só terei paz na sepultura:”. Para quem vive desgraçadamente, afunda em boêmia e se dissipa nos botequins, a sepultura, a morte, medo geral, para o poeta aqui representa livramento e uma paz do fim de si mesmo.

A RAZÃO DOMINADA PELA FORMOSURA: O poema joga contra a Razão, e tenta resgatar a lei de Amor, já quase perdida, o desmonte da razão total terá na loucura do poeta um contraponto inútil, uma vez que é a luta da fraqueza (o poeta) contra a força (a ordem pretensamente racional do mundo): “Importuna Razão, não me persigas;/Cesse a ríspida voz que em vão murmura;/Se a lei de Amor, se a força da ternura/Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:”. E o poema segue: “Deixa-me apreciar minha loucura,”. Resta ao poeta um refúgio de abismo, a loucura simples, e o delírio de amor tem como fuga uma loucura mortal, a alma poética se afunda em abismo, carpir, delirar e morrer por Marília, em vão os conselhos de mudar de ideia: “É teu fim, teu projeto encher de pejo/Esta alma” (...) “Queres que fuja de Marília bela,/Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo/É carpir, delirar, morrer por ela.”.

 

POEMAS:

 

O AUTOR AOS SEUS VERSOS

 

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

 

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

 

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

 

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.

 

DESCREVENDO OS ENCANTOS DE MARÍLIA

 

Marília, se em teus olhos atentara,

Do estelífero sólio reluzente

Ao vil mundo outra vez o onipotente,

O fulminante Júpiter baixara:

 

Se o deus, que assanha as Fúrias, te avistara

As mãos de neve, o colo transparente,

Suspirando por ti, do caos ardente

Surgira à luz do dia, e te roubara:

 

Se a ver-te de mais perto o sol descera,

No áureo carro veloz dando-te assento

Até da esquiva Dafne se esquecera:

 

E se a força igualasse o pensamento,

Oh alma da minh`alma, eu te of´recera

Com ela a terra, o mar, o firmamento.

 

FEITO NA PRISÃO

 

Não sinto me arrojasse o duro fado

Nesta abóbada feia, horrenda, escura,

Nesta dos vivos negra sepultura,

Onde a luz nunca entrou do Sol dourado:

 

Não me consterna o ver-me traspassado

Com mil golpes cruéis da desventura,

Porque bem sei que a frágil criatura

Raramente é feliz no mundo errado:

 

Não choro a liberdade, que enleada

Tenho em férreas prisões, e a paz ditosa,

Que voou da minh`alma atribulada:

 

Só sinto que Marília rigorosa

Entre os braços de Aônio reclinada

Zombe da minha sorte lastimosa.

 

A CAMÕES, COMPARANDO COM OS DELE OS SEUS PRÓPRIOS INFORTÚNIOS

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez perdendo o Tejo

Arrostar co sacrílego gigante:

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante:

 

Ludíbrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura:

 

Modelo meu tu és ... Mas, oh tristeza! ...

Se te imito nos transes da ventura,

Não te imito nos dons da natureza.

 

A RAZÃO DOMINADA PELA FORMOSURA

 

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

 

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não dás a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

 

É teu fim, teu projeto encher de pejo

Esta alma, frágil vítima daquela

Que, injusta e vária, noutros laços vejo:

 

Queres que fuja de Marília bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor 

Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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