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Casamento Guarani: celebração e conquista


05/02/2017 às 14:01
Um casamento indígena, na nova aldeia Guarani, na região de Aracruz, ao sul da fábrica da Aracruz Celulose (Fibria), marcou a retomada de mais um trecho de suas terras em poder da empresa. Dando existência à Ka-guy Porã (Aldeia Nova Esperança, em tradução livre). Os povos indígenas brasileiros tratam a aldeia como propriedade coletiva e o casamento, por sua exigência de indissolubilidade, sustenta a instituição família, que é o cerne da vida do povo Guarani. (Veja abaixo as fotos do casamento pelas lentes de Rogério Medeiros, Leonardo Sá e Gustavo Louzada)
 
 
A programação, inicialmente prevista para três casórios de jovens noivos, acabou na celebração de um único enlace. É que na fase da preparação, dois deles, diante da necessidade de firmarem compromisso de fidelidade e zelo familiar, desistiram diante do pajé Tupã, curandeiro das aldeias Guarani no Espírito Santo e incumbido da celebração dos casamentos. Na ausência dos outros dois casais, casaram-se o jovem Guarani, de 19 anos, com uma moça de 20 anos, mestiça Tupinikin com branco.
 
Uma união seria impraticável se ainda estivesse viva a Xamã Tatatin Rua Retée, pois todo o tempo em que regeu a vida dos Guarani no Espírito Santo fez do casamento um instrumento de preservação existencial. Ela era uma guia sagrada, à semelhança de um Papa da Igreja Católica. Poder que exerceu na caminhada do Rio Grande do Sul à chegada em Santa Cruz, em Aracruz, que pelas características geográficas, deu-lhe a impressão de haver chegado, finalmente, à chamada “Terra Sem Males”.
 
Enquanto Xamã Tatatin Rua Retée esteve viva (morreu aos 104 anos de idade), guarani só casava com guarani. Só havia também uma aldeia (Teká Porã, Boa Esperança, em tradução livre). O cacique era o seu marido que, inclusive, morreu antes dela. Só depois de sua morte é que Teká Porã viria a conhecer outro cacique: Werá Kwaray, seu neto. A morte da Xamã geraria mais duas aldeias, com caciques também descendentes dela e uma quarta, agora, a ser dirigida também por outro neto dela.
 
 
A sua morte trouxe uma profunda mudança de vida das aldeias Guarani. Sobretudo no que diz respeito ao comportamento. Embora hoje o guarani dê ainda preferência ao casamento entre eles, não há mais a exigência dos tempos de Tatatin Rua Retée. Tanto que o cacique dessa nova aldeia, Werá Dejekkupe, casou-se, recentemente, em segunda núpcias, com uma Tupinikin.
 
As mudanças ocorreram também em outras linhas. Em vida, Tatatin Rua Retée nunca permitiu que os Guarani entrasse em luta. Até mesmo para conquista ou reconquista de territórios indígenas. Ela era extremamente pacifista. Fixada na missão religiosa de conduzir o seu povo à “Terra Sem Males”. O que, de certa forma, o fez até a sua morte. Inclusive, no leito de morte, delegou missões, principalmente ao seu neto, o pajé Tupã, de ir ao encontro do Deus da Montanha, uma espécie de último recurso para redirecionar os Guarani na busca do caminho da “Terra Sem Males”, que ela, com o tempo, acabou convencida de que se equivocara sobre o local exato.
 
 
Em busca de cumprir essa missão, os Guarani instalaram-se num dos pontos mais altos do Caparaó, onde ergueram um Opu (templo religioso) para melhor cumprir a missão delegada pela Xamã Tatatin Rua Retée, principalmente ao neto curandeiro, que nos últimos 10 anos já fez várias tentativas de levar a bom termo a missão. Em vão, no entanto, pelo menos, por ora. Mas que o fazem sempre no mês de agosto, primavera para os Guarani. No resto do ano, ficam em reza para melhor encontrar o caminho do Deus da Montanha.
 
 
Enquanto uns se posicionam na montanha para cumprir a missão de religiosa da Xamã, seus netos, à frente de suas aldeias, assumiram tarefas políticas, junto com os Tupinikin, de retomada do território indígena em poder da Aracruz Celulose. Culminando com essa última conquista que gerou a quarta aldeia Guarani. Pela proximidade da fábrica da Aracruz (hoje Fibria), gerou uma insana violência registrada em Século Diário pelos repórteres Uberwalter Coimbra e Flávia Bernardes.
 
O registro de Flávia Bernardes, como não podia ser diferente, é repleto de indignação: “Meninos, eu vi jorrar sangue, suor e lágrimas. Vi e presenciei uma luta intensa, com tanta violência, sem uma reação violenta dos índios. Onde também pude conhecer verdadeiros guerreiros indígenas. Vi velhos guerreiros apanhando em busca de suas terras. Sobretudo os que cultivavam a esperança da volta de suas terras. Vi, para a minha emoção, pintados com as cores indígenas das lutas. Tomando posse de suas terras”, relatou a repórter, que segue: “Ofendidos, injustiçados e apanhados. Sangrando dos instrumentos de violências usados pelos policiais. Mas firmes e resistentes diante de um paredão de policiais, fartamente armados de roupa negra com escudos e armas (eram policiais federais). O local ficou coberto de fumaça com os índios em posição de luta. Valeu. Acabou na retomada de mais um importante trecho das terras indígenas em poder de uma transnacional construindo riquezas à custa de terras indígenas e de quilombolas. Valeu testemunhar esse glorioso momento dos índios do Espírito Santo, numa situação clara que os índios não renunciam à liberdade por vontade própria”, registra Flávia Bernardes.
 
 
O culto do casamento, dando origem a posse desse novo território indígena, ocorrido há pouco mais de um semana, consagra essa luta recente. Pois está ali o instinto de liberdade e invencibilidade de um povo condenado para ser esmagado e aniquilado pelo totalitarismo que não renuncia nunca à violência. 
 
 
Embora já instalado num canto desses 502 hectares, que formam essa nova aldeia Guarani, encontra-se a principal liderança do momento inicial da luta pela retomada das terras indígenas (nos anos 1970), mas que infelizmente não pôde assistir ao casamento que comemora essa conquista. Numa casa modestíssima, a pouca distância do evento, ele encontrava-se inerte numa cadeira de roda e totalmente cego, sem, contudo, deixar de ser o grande guerreiro filho de Tatatin Rua Retée, que deu início ao ciclo da reintegração do território indígena no Espírito Santo e que ficou célebre com o nome aportuguesado de João Carvalho. Entre a tradição e a tragédia indígena encontra-se esta lendária figura.
 
Na cerimônia do casamento, em que foi servido um banquete especial de comida indígena, os convivas que foram festejar a união, principalmente os jovens índios, eram só alegria. E com razão. É um mundo novo que chega construído pelos mais velhos, como João Carvalho.

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