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De volta à barbárie


06/02/2017 às 23:56
Nas primeiras horas da manhã de sábado (4), quando familiares, parentes e amigos de policiais ocuparam os acessos de boa parte dos batalhões da PM na Grande Vitória e no interior do Estado, a sociedade não tinha dimensão da situação de terror que deixaria a população sitiada, entregue à própria sorte. Aliás, o governo do Estado, que deveria analisar estrategicamente os desdobramentos do movimento desde o início, parece ter desdenhado da capacidade de mobilização dos policiais. Só isso explica a tomada tardia de decisões.
 
Ainda no sábado o foco da crise estava no impasse das negociações entre o secretário de Segurança André Garcia e os familiares dos policiais. Mais uma vez, o governo do Estado duvidou que a situação poderia sair do controle, como se de uma hora para outra os policiais fossem compreender que o governo está com o caixa vazio e simplesmente não poderia atender às reivindicações da categoria. Em poucas palavras o recado do secretário aos familiares dos policiais foi mais ou menos o seguinte: “Voltem ao trabalho e depois conversarmos”. Afinal, essa é frase pronta que tem sido dada pelo governo às outras categorias do funcionalismo que insistem em bater na porta do Palácio Anchieta para negociar.
 
Da negociação frustrada da tarde de sábado para cá, a sensação é de que o Espírito Santo virou de cabeça pra baixo. Tudo aconteceu muito rápido. Foi o tempo da bandidagem perceber que o caminho estava livre, que o crime poderia correr solto. Se com repressão o crime acontece a torto e a direito, em terra de ninguém vira caos. 
 
Indefesa, a população ficou vulnerável. Reféns da criminalidade que se instalou no Estado. Parecia que os bandidos se multiplicavam. Fica difícil para entender de onde apareceu tanto bandido no Espírito Santo.
 
O domingo foi de pânico geral, que só aumentou nesta segunda-feira (6). Quem alimentava a esperança de que as coisas voltariam ao normal no primeiro dia útil da semana, se desapontaram. As coisas só pioraram com o passar das horas. Restou à população se manter trancada dentro de casa para tentar se proteger dos bandidos. Quem foi obrigado a se arriscar nas ruas presenciou cenas de violência ou se tornou vítima dos criminosos.
 
Encarcerados, os cidadãos grudaram na internet para saber, minuto a minuto, informações sobre a crise. Afinal, manter-se informado se tornou uma estratégia de sobrevivência. Sem exagero. 
 
Nesta segunda-feira a busca por informações aumentou. As pessoas não conseguiam ler ou comentar sobre outro assunto que não fosse a crise na segurança e suas repercussões. As redes sociais se encarregaram de despejar uma enxurrada de vídeos, áudios e textos que revelavam as últimas novidades sobre a crise. 
 
Em meio a esse mar de postagens que se sobrepunham nas timelines, formando um verdadeiro efeito cascata, era difícil fazer qualquer reflexão mais profunda sobre a crise. Quem ficou agarrado na internet se sentiu afogando em informações. Quando se tentava voltar à tona para recuperar o fôlego, uma outra onda de informação cobria o “náufrago” impiedosamente, que agonizava, mas queria mais e mais. 
 
Mas algumas cenas não devem ter escapado aos olhares mais atentos. Chocou saber que havia muita gente se aproveitando do caos para levar vantagem. Foram vários os vídeos postados que exibiam pessoas do “povo” invadindo e saqueando lojas. Esses flagrantes aconteceram tanto na Grande Vitória quanto no interior. É aquele mesma cena deprimente que ocorre quando um caminhão de mercadorias tomba e as pessoas correm para o local do acidente não para socorrer às vítimas, mas para saquear a carga.  
 
Hoje se repetiram as cenas de pessoas carregando  eletroeletrônicos e mantimentos. Homens e mulheres que esbarramos no ônibus ou na fila do banco, mas que ao perceberem que não haveria punição, se transformaram em verdadeiros criminosos. Isso responde a pergunta: mas de onde surgiram tantos bandidos?
 
Não bastassem os saques, os linchamentos revelaram mais contornos dessa face sombria do ser humano. Havia muitos com sede de vingança, que se sentiam realizadas ao espancar um bandido desgraçado que foi malsucedido da empreitada criminosa. A selvageria parecia envolver os vingadores numa espécie de transe. As pessoas gravavam com os celulares ao mesmo tempo que suplicavam a pena máxima ao “condenado”: “Mata essa desgraça”, esganiçava uma mulher, enquanto filmava da janela do seu apartamento um bandido sendo espancado no meio da rua. 
 
Essas cenas de linchamentos bárbaros mixadas às de saques generalizados viralizaram nas redes sociais ontem e hoje. Muitos passaram por essas postagens e acharam tudo normal, tanto os saques quanto os linchamentos públicos. 
 
Talvez, à medida que a bruma vai se esvaindo, outras pessoas enxerguem a faceta mais tenebrosa dos nossos semelhantes, e também se assustem com o que eles são capazes de fazer.
 
O caos na Segurança Pública do Espírito Santo, independente do mérito do pleito dos policiais, da estratégia do movimento paredista e das trapalhadas do governo do Estado na condução da crise, deixa outra reflexão para todos nós: é esta a sociedade que queremos?

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