Seculo

 

Do céu ao inferno


08/02/2017 às 02:12
Até outro dia, o governador Paulo Hartung e seu Espírito Santo estavam na crista da onda. O investimento vultoso numa das melhores assessorias de comunicação do País, transformou o Estado em modelo de excelência. O segredo estrondoso do sucesso: o pacote de ajuste fiscal do peemedebista, que foi posto em prática no primeiro dia do seu terceiro mandato, em 2015. 
 
A “mágica” de Hartung para manter as contas do Espírito Santo no azul, enquanto a maioria dos colegas governadores mal conseguia pagar os salários do funcionalismo em dia, não escondia nenhum truque espetacular. O governador capixaba simplesmente fez um corte linear geral, cancelou investimentos e paralisou obras. Ao pisar fundo no freio dos gastos, o cobertor da área social, que sempre foi curto em seus governos, praticamente desapareceu. 
 
A Segurança Pública foi uma das áreas que sentiram a lâmina afiada da guilhotina dos gastos. Para quem já se esqueceu, uma das primeiras polêmicas do início do governo Hartung foi o corte de combustíveis das viaturas das polícias Civil e Militar. Com combustível racionado, as escalas de patrulhamento foram reduzidas. 
 
À época, o secretário de Segurança André Garcia prontamente rebateu as críticas, alegando que estava apenas fazendo um racionamento de gastos, que não traria prejuízo algum ao patrulhamento ostensivo e ao atendimento de ocorrências. Na prática, porém, a população notava a redução do policiamento. 
 
Antes que a polêmica ganhasse força, o governo passou a comemorar os resultados na segurança. Gráficos bem ilustrados no Power Point apontavam a queda nos índices de homicídios. Os dados positivos sepultaram os questionamentos e ainda serviam para dar suporte a mais uma espetacular campanha de marketing do governo, enaltecendo que o Espírito Santo conseguiu a maior redução de homicídios dos últimos 20 anos. Os números da Segurança caíam na mesma velocidade que as perdas salariais dos policiais, que começaram a se sentir usados pelo governo.
 
Outros que também não estavam nada satisfeitos eram os servidores públicos, que pleiteavam reposição e reajustes salariais. Com estratégia muito bem planejada, lançaram a campanha “Abraça o Paulo”, uma crítica ao personagem criado pelos marqueteiros de campanha do então candidato ao governo. Os estrategistas políticos queriam humanizar a imagem de Hartung, tentando convencer o povão que ele era de carne e osso. 
 
Apesar dos protestos dos servidores serem todos pacíficos, criativos e organizados, acabaram perdendo força ante a política econômica do governador, que já começava a cair nas graças dos analistas econômicos e jornalistas dos principais veículos de comunicação do País.
 
Em 2016, Hartung já era apontado como “queridinho do mercado”. O governador que fez o dever de casa com nota dez e louvor e estava mostrando ao Brasil que o pequenino Espírito Santo poderia ser a solução para a crise econômica que afetava a maioria dos estados. Numa entrevista em janeiro deste ano, quando ele ainda desfrutava do reconhecimento do seu modelo de ajuste fiscal, chegou a admitir que o Estado nunca alcançara projeção nacional tão espetacular, fazendo referência à ampla exposição das ações de seu governo mídia nacional. 
 
Talvez naquele momento, quando acelerou o voo pensando em pousar  no PSDB, Hartung já tenha percebido que a onda de sucesso estava perdendo força. Sinal dessa desaceleração, foi que os tucanos acabaram fechando a porta para o governador, que tinha convicção que acumulara um retrospecto positivo nos últimos dois anos capaz de lançá-lo por cima no ninho tucano. Ledo engano.
 
Foi exatamente a partir desse episódio que a montanha russa do governador começou a descer. Todo trabalho de promoção nacional de imagem arduamente construído em dois longos anos, num trabalho de comunicação impecável, ruiu em 72 horas. Nesse período, o Espírito Santo de Hartung deixou de ser o modelo de excelência do País para se tornar o Estado do medo, o rascunho do inferno. Mas o observador mais absorto irá perguntar: ora, mas como é possível ir do céu ao inferno tão rápido? 
 
Uma hora a conta chega. Avesso ao diálogo, Hartung pagou pela soberba, pela intransigência. Agora que a água já passou do pescoço, o governo jura de pés juntos que sempre foi afeito ao diálogo. Mostrou-se espantando quando os policiais militares se queixaram que este governo é avesso ao diálogo. O secretário André Garcia chegou a dizer que essa era uma acusação mentirosa. Então todas as outras categorias do Estado que reclamam da falta de interlocução com o governo estão mentindo?
 
Basta olhar para seus dois mandatos anteriores para relembrar que Hartung nunca foi simpático ao diálogo. Não é de hoje que os policiais militares (e também os civis) batem na porta do governo em busca de diálogo. Afinal, são sete anos sem reposição salarial e outros três sem reajuste. 
 
Esses dias de caos têm mostrado à sociedade capixaba que a polícia é imprescindível para manter a ordem pública. O policial merece ter uma remuneração à altura de sua importância? Claro, assim como o professor, o médico e tantos outros servidores que integram o setor público. 
 
Que o pleito é justo, parece que quase todo mundo concorda. Mas não dá para concordar que a sociedade fique refém, desamparada, abandonada à própria sorte, enquanto policiais e governo esticam a corda para ver quem a solta primeiro. 
 
Nessa queda de braço insana, a grande vítima é a população. É preciso pôr os pingos nos is para esclarecer que o governo do Estado, na figura da sua autoridade máxima, o governador Paulo Hartung, e os policiais militares, são corresponsáveis pelos 75 corpos que jazem no Departamento Médico Legal (DML), alguns pelo chão, assim como pelos crimes contra o patrimônio que explodiram nos últimos quatro dias. Sem contar os efeitos psicológicos do pânico que se instalou no Estado e condenou a sociedade à prisão domiciliar. 
 
Governo e polícia precisam parar de olhar para o próprio umbigo e pensar um pouco na população. Já basta!

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