Seculo

 

Quem vai pagar a conta?


09/02/2017 às 16:46
Se a estratégia para este terceiro mandato é construir uma imagem positiva de dentro para fora do Estado, com a ajuda da mídia nacional, a ideia é não perder o foco e controle, mesmo nos momentos de crise. Isso ficou claro na coletiva dessa quarta--feira (8) quando o governador licenciado Paulo Hartung (PMDB) - mesmo convalescendo da cirurgia que fez há alguns dias em São Paulo - decidiu antecipar seu retorno ao Espírito Santo para se posicionar sobre a crise na segurança pública, que mantém a população em “prisão domiciliar” há seis dias, sem direito à "tornozeleira eletrônica". Que coisa! Até bandido tem mais vantagens que o cidadão.
 
No enredo da coletiva, tudo foi detalhadamente premeditado. Bastante abatido, um pouco pela cirurgia e mais pela crise, o governador licenciado apareceu ladeado por dois médicos. Foram gastos 20 preciosos minutos para os médicos explicarem detalhes da doença, como se estivessem falando a um grupo de residentes de medicina e não a jornalistas. Ora, com todo o respeito ao problema de saúde do governador, se ele recebeu alta médica, voou a 11 mil metros de altitude e foi caminhando para a coletiva, e mais que evidente que ele está em franca recuperação, como adiantaram os boletins médicos do Sírio- Libanês. 
 
O que interessava à população capixaba, após perceber que o governador estava bem de saúde, era saber da boca do líder máximo do Estado qual seria a solução para tirar o Espírito Santo do caos. Mas nos poucos minutos em que dedicou à crise, Hartung se preocupou em salvar a própria pele. Na coletiva - para mostrar que o diálogo com esse governo é nulo - só ele falou. Hartung queria, a qualquer custo, preservar sua imagem junto à mídia e à opinião pública nacional, construída arduamente ao longo desses dois anos de governo. 
 
A estratégia foi convencer seus interlocutores nacionais que o governo do Espírito Santo era tão vítima da crise quanto a população. Não por acaso, Hartung subiu o tom da indignação para reprovar a paralisação dos policiais. Usou frases de efeito (“É a mesma coisa que sequestrar a liberdade, o direito do cidadão capixaba e cobrar resgate”) para esclarecer quem eram os verdadeiros vilões da história, os "chantagistas", como ele classificou os militares, isentando-se de qualquer responsabilidade sobre o caos que se instalou no Estado desde o último sábado (4).
 
Para fora, aparentemente, deu certo. A grande mídia nacional remiu Hartung e passou a criminalizar o movimento, apontando que o caso do Espírito Santo servia de alerta para os outros Estados que estavam represando demandas dos servidores públicos. Não foi tarefa fácil para medalhões do jornalismo, que até outro dia idolatravam o Espírito Santo de Hartung como modelo de excelência, explicar a seus leitores que não foram iludidos ou "comprados" para vender uma embalagem vazia. 
 
Século Diário já assumiu posição sobre a crise. Para o jornal,  governo e polícia são corresponsáveis pelo caos que se instalou no Estado. Não adianta o governo bradar que sempre foi adepto do diálogo e que está sendo surpreendido por uma estratégia abjeta dos policiais. Quando os policiais se queixam que nunca foram ouvidos, estão falando a verdade. Os movimentos sociais, sindicatos e sobretudo o funcionalismo público em geral sabem que o diálogo nunca foi prática desse governo. Mas nada justifica que a PM, para reivindicar suas demnadas, que são justas, torne a sociedade refém da criminalidade. 
 
Nos governos de Hartung, a cultura do diálogo sempre foi construída com o meio empresarial. Até uma ONG (ES em Ação) foi criada para tratar exclusivamente das pautas empresariais. Sempre foi a partir desse núcleo de “notáveis” que Hartung orientou as políticas do Estado. Para eles nunca faltaram recursos dos cofres públicos para isenções fiscais e outras políticas de incentivos paternalistas. 
 
Nunca houve interesse em criar fóruns semelhantes para dar ressonância às demandas da sociedade civil organizada ou do funcionalismo. O governo precisa assumir seus erros e dividir a conta da crise com a polícia. Não tem choro, é fifty-fifty.
 
Quando mais eles demoram para chegar a um consenso, a conta vai crescendo. O subtotal atual: mais de 100 mortos, prejuízos incalculáveis para o comércio e indústria, fora a pena de “prisão domiciliar” imposta à população capixaba: por ora, seis dias de reclusão. 

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