Seculo

 

Bocage – O Delírio Amoroso e outros Poemas – Parte II


12/02/2017 às 13:45
Em 1791, Bocage publica o primeiro tomo das Rimas, e é com este trabalho que o poeta consegue se firmar em sua reputação poética, enquanto suas composições satíricas e eróticas entram para demolir com golpes violentos à moral, à política e à religião de sua época. Com esta veia crítica, Bocage acaba por ser expulso da Nova Arcádia e, três anos mais tarde, em 1797, é preso e processado por ter feito irreverências antimonárquicas e anticatólicas, também sendo acusado de conspiração contra a segurança do Estado e pela autoria de papéis ímpios, com conteúdo crítico e sedicioso. É então recolhido à cadeia do Limoeiro, e depois, por influência de amigos, e após muitas súplicas e movimentos de retratações, é transferido para o mosteiro de São Bento e, deste, para o mosteiro dos Oratorianos. Então é retirada a acusação contra o Estado, mantendo a que ele fez contra a religião, de teor menos grave como delito.
 
Em 1799, Bocage volta então à liberdade, e é neste momento que ele se entrega ao álcool, ao tabaco e ao trabalho, e é quando publica seu segundo tomo de Rimas. Porém, os excessos de uma vida dissipada cobram a fatura com um aneurisma que acomete o poeta, no que ele vai parar no leito. Em 1804, é publicado o terceiro volume de Rimas e, um ano mais tarde, em 21 de dezembro de 1805, aos 40 anos, Bocage morre em Lisboa.
 
A poesia de Bocage pode ser bem definida em três fases, que são a da mentira arcádica, a da confissão amorosa escrita sob as regras árcades e a dos poemas curtos, de sofrimento e morte, com tais fronteiras sendo porosas e não estanques. Bocage, quando se analisa a sua poesia, era um poeta que está à frente dos escritores do seu tempo, embora também seja um excelente representante do Arcadismo, com seu pleno domínio lírico e de temática amorosa de sua poesia e poética.
 
O belo, na poesia árcade, vem como uma metáfora depurada, sem excessos, uma linguagem convencional, harmoniosa, tudo atua como se o natural viesse com o filtro da razão, constituindo a base do ideário neoclássico do século XVIII. Pois aqui o trabalho do poeta é estabelecer, em cânones harmoniosos, simples e diretos, a dinâmica da vida, no que a criação individual torna-se coletiva através das leis convencionais de criação artística. Então temos a poesia árcade como uma poesia racional que tem como temas a vida simples, bucólica, com um desprezo pelo luxo, e que tem poemas que podem ser modos de louvar as origens espontâneas de um mundo primitivo, tudo isso idealizado por uma natureza e um tempo imaginários.
 
Bocage, que tinha domínio das regras da poesia árcade, também tinha um temperamento inquieto e que era insatisfeito, no que Bocage conseguiu, com esta inadaptação, um possível afastamento dos cânones árcades quando quis, sendo um dos melhores exemplos deste período histórico de poeta que estava na fronteira entre um cânone e algo novo, ele era a figura representativa desta crise, que ia para além das simples questões estéticas do gosto e do estilo, tendo sim inserção no próprio teor do modelo de vida literária e dos preceitos aceitos na poesia árcade e no mundo iluminista.
 
Em sua poesia, Bocage, como homem e poeta entre fronteiras, está entre seus cenários bucólicos e camponeses, de pastores apaixonados, seres alienados da realidade e do tempo, imersos no mundo mitológico de uma imaginária Grécia pastoril, e tendo em paralelo uma atividade poética que ia contra o cânone árcade, que era, por sua vez, a expressão de uma nova poesia entranhada nas emoções, com reflexos pessoais e subjetivos de amor desventurado, de homem torturado pela vida e pelo medo da morte.
 
POEMAS:
 
CONFORMANDO-SE COM OS REVESES DA SORTE: O poema levanta a ideia mestra de destino, este ser completo, inexorável, e que tem na palavra cruel um adjetivo ao abuso de suas faculdades, no que o poeta, atormentado, nos dá os versos, que é o seu sopro: “Se o Destino cruel me não consente/Que o ferro nu brandindo irado, e forte,/Lá nos horrendos campos de Mavorte/De louros imortais guarneça a frente:” A batalha está posta, brande o ferro, o fio da espada: “Que o meu nome apesar da negra morte/Fique em padrões e estátuas permanente:/Se as suas ímpias leis inexoráveis/Não querem que os mortais em alto verso/Contem de mim façanhas memoráveis:/Submisso à má ventura, ao fado adverso,/Ao menos por desgraças lamentáveis/Terei perpétua fama no universo.”. A luta clássica entre o infortúnio e a glória, num mesmo homem, ou melhor, poeta, e que na certeza dos píncaros da fama universal, enfrenta o leão cruel do destino, laços de aço da dor e esperança sublime de sua poesia em alta paragem na montanha do futuro, que todo poeta o faça em vida, façanhas vivas são melhores que gemidos de um ser da penumbra.  
 
VENDO-SE ACOMETIDO DE GRAVE ENFERMIDADE: A doença aparece como tema poético, e temos aqui o instinto de decadência bem desenvolvido por quem levou parte de sua vida como um dissipado: “Pouco a pouco a letífera Doença/Dirige para mim trêmulos passos;” (..) “Virá pronunciar final sentença,/Em meu rosto cravando os olhos baços,/Virá romper-me à vida os tênues laços/A foice, contra a qual não há defensa.” (...) “Espero que primeiro que o teu corte/Me acabe viva dor dos meus delitos.”. Fala ou declamação de um preso, e que na liberdade se espalhou em boêmia, e a face ou foice da morte lhe acaba as dores de seu delito.
 
CONTRA O DESPOTISMO: Despotismo, o inexorável, o poema contra tal força se debate, contra o ateísmo do poder: “Sanhudo, inexorável Despotismo,/Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,/Que em mil quadros horríficos te enlevas,/Obra da Iniquidade, e do Ateísmo:/Assanhas o danado Fanatismo/Porque te escore o trono onde te enlevas;/Porque o sol da Verdade envolva em trevas,/E sepulte a Razão num denso abismo:”. A luta da razão sepultada, e o fanatismo que evolve a verdade nas trevas, iniquidade que o poeta enfrenta, davi e golias, e que se salva na independência de seu coração poético: “Mas, apesar da bárbara insolência,/Reinas só no ext`rior, não tiranizas/Do livre coração a independência.”. O governo despótico é externo, a liberdade ainda está preservada nos recantos do coração e seus versos.  
 
À NOVA ARCÁDIA: O poema anuncia o novo, e de como este enfrenta os cânones vigentes, a sátira é uma destas armas novas, no que o poeta nos dá o seu relato: “Oh triste malfadada Academia!/O vate Elmano em sátiras se espraia;”. No que o poema segue: “Apolo exulta, o povo te assobia;/A glória tua em convulsões desmaia;”. E a reação da velha arcádia contra a nova não demora, o satírico e o declamador aparecem aqui na luta do progresso, sempre alvíssaras a quem luta, pois o cânone aqui é flagelado pelos novos poetas: “Ao satírico audaz põe duro freio,/Pune o declamador, que te flagela;”.  
 
 
CONFORMANDO-SE COM OS REVESES DA SORTE
 
Se o Destino cruel me não consente
 
Que o ferro nu brandindo irado, e forte,
 
Lá nos horrendos campos de Mavorte
 
De louros imortais guarneça a frente:
 
 
Se proíbe que em sólio refulgente
 
Faça os povos felices, de tal sorte
 
Que o meu nome apesar da negra morte
 
Fique em padrões e estátuas permanente:
 
 
Se as suas ímpias leis inexoráveis
 
Não querem que os mortais em alto verso
 
Contem de mim façanhas memoráveis:
 
 
Submisso à má ventura, ao fado adverso,
 
Ao menos por desgraças lamentáveis
 
Terei perpétua fama no universo.
 
 
 
VENDO-SE ACOMETIDO DE GRAVE ENFERNIDADE
 
 
 
Pouco a pouco a letífera Doença
 
Dirige para mim trêmulos passos;
 
Eis seus caídos, macilentos braços,
 
Eis a sua terrífica presença:
 
 
Virá pronunciar final sentença,
 
Em meu rosto cravando os olhos baços,
 
Virá romper-me à vida os tênues laços
 
A foice, contra a qual não há defensa.
 
 
Oh! Vem, deidade horrenda, irmã da Morte,
 
Vem, que esta alma avezada a mil conflitos,
 
Não se assombra do teu, bem que mais forte:
 
 
Mas ah! Mandando ao céu meus ais contritos,
 
Espero que primeiro que o teu corte
 
Me acabe viva dor dos meus delitos.
 
 
 
CONTRA O DESPOTISMO
 
 
 
Sanhudo, inexorável Despotismo,
 
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
 
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
 
Obra da Iniquidade, e do Ateísmo:
 
 
Assanhas o danado Fanatismo
 
Porque te escore o trono onde te enlevas;
 
Porque o sol da Verdade envolva em trevas,
 
E sepulte a Razão num denso abismo:
 
 
Da sagrada Virtude o colo pisas,
 
E aos satélites vis da prepotência
 
De crimes infernais o plano gizas:
 
 
Mas, apesar da bárbara insolência,
 
Reinas só no ext`rior, não tiranizas
 
Do livre coração a independência.
 
 
 
À NOVA ARCÁDIA
 
 
 
Oh triste malfadada Academia!
 
O vate Elmano em sátiras se espraia;
 
Fervem correios ao loquaz Talaia,
 
Que a todos teu descrédito anuncia:
 
 
 
Apolo exulta, o povo te assobia;
 
A glória tua em convulsões desmaia;
 
Ah! primeiro que a pobre em terra caia,
 
Corte-se o voo da fatal porfia:
 
 
 
Ao satírico audaz põe duro freio,
 
Pune o declamador, que te flagela;
 
Dá-lhe assento outra vez no magro seio:
 
 
Bem como a quem profana uma donzela,
 
Que em pena do afrontoso estupro feio
 
Fazem próvidas leis casar com ela.
 
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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