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O outro lado do muro


12/02/2017 às 17:31
Depois de uma semana no olho do furacão, a população capixaba vai aos poucos tentando voltar à normalidade. Mesmo com as Forças Armadas ainda nas ruas e a PM, ainda precariamente, retomando gradativamente, as pessoas começam criar coragem para pôr a cara na rua novamente. Pudera! Afinal, foram oito dias de “prisão domiciliar”. Mais aconchegante seja o lar, ninguém suportava mais o encarceramento.
 
O caos na segurança pública que causou todo esse terror aos capixabas incluiu o pequenino Espírito Santo no mapa do Brasil e do mundo da pior maneira: por um infortúnio. Um episódio que, além do saldo de mais de 140 mortes, deixará muitas sequelas (psicológicas e materiais) na sociedade capixaba. 
 
Apesar do turbilhão de informações e de todos já estarem saturados de falar sobre a crise na segurança pública do Espírito Santo, é importante fazer algumas reflexões ainda no calor dos acontecimentos para não perder o fio da meada. Senão, daqui a pouco as pessoas retomam suas rotinas e acabam guardando isso tudo numa caixinha qualquer, em algum lugar esquecido da memória.
 
Mas antes que isso aconteça, é preciso tirar lições desse trágico episódio. A crise derrubou o muro que separa a sociedade “de bem” do chamado “mundo cão”. E o que se descortinou não foi bonito de se ver. Todos puderam ver e sentir um pouco do “mundo cão”; onde não existe nem lei, nem ordem; onde o Estado é sempre ausente; quem quiser ou tiver coragem que faça sua própria segurança. 
 
A greve da PM não chegou no “mundo cão”, porque eles já são reféns de todo o tipo de violência. Nessas zonas de exclusão urbanas, o crime organizado concentra os três poderes: “Legislativo, Executivo e Judiciário”.
 
As organizações criminosas fazem suas as próprias leis, estabelecem os “impostos” (cobrados na forma de pedágios pelos “serviços de segurança”) e também julgam que desrespeitam as leis. Os “réus” costumam ser submetido ao “júri do tráfico”, que pode aplicar a pena de morte. 
 
Profundo conhecedor do “outro lado do muro”, o padre Kelder Brandão, de São Pedro, bairro pobre da periferia de Vitória, fez uma das reflexões mais impressionantes sobre a crise na segurança do Espírito Santo. 
 
Com a propriedade de quem está não há oito dias, mas há oito anos do lado de lá do muro, o padre Kelder enfia o dedo fundo numa ferida que a sociedade insiste em esconder, mas que sempre esteve aí, bem guardada debaixo do tapete. 
 
"Estou aqui pensando: há quase oito anos estou em São Pedro e tem sido assim, com constantes tiroteios de dia e de noite, e tropeçando em corpos estirados nas ruas, becos e escadarias. Com greve ou sem greve da PM, a segurança pública nunca fez parte do cotidiano das periferias e não vai fazer depois que a greve da PM acabar. A greve da PM só democratizou a violência e está mostrando para todo mundo que o governo e a Polícia Militar estão pouco se lixando com a carnificina e tenho certeza que boa parte da sociedade também estaria se não tivesse correndo riscos. Enquanto os jovens, pretos, pobres e favelados estavam sendo exterminados, estava tudo certo e o ES era modelo de gestão e segurança para o país. Agora que a violência afetou todo mundo..."
 
Talvez esses oito dias conhecendo a realidade do “mundo cão” sejam didáticos para mostrar à sociedade que a vulnerabilidade do lado de cá será constante enquanto esse muro não for derrubado. E ele não será derrubado com uma política fiscal que até agora só serviu para promover a imagem do governador Paulo Hartung (PMDB) nacionalmente. Esse muro só será derrubado quando houver políticas públicas amplas, suficientemente capazes de mudar a realidade de quem vive nos guetos sociais criados pela desigualdade. Esse muro só será derrubada quando os governantes, a classe política e sociedade de maneira geral entenderem que é preciso encarar o outro lado. Do contrário, ficaremos nessa espiral insana de levantar o muro e torcer para quem está do lado de lá não ouse transpô-lo.

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