Seculo


  • Lava Jato no ES

 

Deserto verde, 'vocação' do norte e noroeste capixaba, acentua crise hídrica


14/02/2017 às 18:32
Se os plantios do Programa Reflorestar ao menos acompanhassem o ritmo de expansão da silvicultura no norte e noroeste capixaba, a situação hídrica seria um pouco menos catastrófica, mas, nem isso.

Acompanhando o Diário Oficial do Espírito Santo, vemos constantemente os comunicados sobre pedidos e as aprovações, pelo Instituo de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), dos plantios de eucalipto em todo o Estado, mas, ainda, preferencialmente na região mais setentrional.

Os mais recentes registros, nos últimos dias, dão conta de três pedidos de Licença Prévia (LP-S) e Licença de Operação (LO-S) para plantios de 172,41 hectares na Fazenda Santa Rosa, de 126,95 hectares na Fazenda Itaúnas e de 127,55 hectares na Fazenda Cana Brava X. Todos feitos pela Aracruz Celulose (Fibria) e no município de Pinheiros. Total: mais 426,91 hectares de uma monocultura que está avançando sobre outras duas, as de pastagens e de cana de açúcar, numa região já tão castigada pela escassez de água.

“Aqui em Pinheiros, o problema de eucalipto e cana de açúcar é antigo, principalmente na região Centro-leste”, testemunha Aloisio Souza da Silva, da coordenação local do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Baixo IDH

É nesse limite com Conceição da Barra que está se concentrando a expansão do deserto verde em Pinheiros. O município litorâneo é um dos que mais sofrem com a monocultura de eucaliptos e é também um dos que mais viram seus córregos secarem e que detém um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado.

Além da Aracruz Celulose (Fibria), também a Suzano é outra protagonista da transformação das terras agricultáveis da região em desertos verdes, que aniquilam a biodiversidade e os recursos hídricos, expulsam a mão de obra rural e exportam os lucros para as sedes das multinacionais.

Mais recentemente, uma nova empresa, Placas do Brasil, veio se somar à “cadeia produtiva” do eucalipto, por meio da produção de MDF. Há pouco mais de um ano, começou a trabalhar junto aos produtores rurais, para quem plantem o eucalipto que servirá de matéria-prima em sua planta, a ser instalada às margens da BR-101, próximo a Pedro Canário.

No Estudo de Impacto Ambiental divulgado há pouco mais de um ano, Aloisio conta que a empresa anunciava sua intenção de ocupar 30 mil hectares com plantações de eucalipto, num período de dez anos e num raio de até 50 km a partir da planta.

“A leitura que nós fazemos é que as propriedades a partir de 50 hectares do município vão se transformar, praticamente todas, em produtoras de eucalipto, nos próximos anos”, revela o líder camponês. Nesse primeiro momento, avançando sobre pastagens e canaviais abandonados, mas talvez afetem também cafezais num segundo momento.

"Monopólio pelo uso e não pela propriedade”

Nessa fase atual da expansão, as empresas de celulose e papel não mais compram as terras que desertificarão, mas estabelecem contratos com os proprietários, em sistema semelhante a arrendamento, e realizam todo o serviço. “É o monopólio da terra pelo uso, e não propriedade”, observa Aloisio.

Para o proprietário de terra, parece um ótimo negócio, pois o eucalipto tem menor risco fitossanitário e aguenta até três meses sem irrigação, já que as raízes profundas buscam água com mais eficiência, o que, por outro lado, gera toda a tragédia hídrica tão conhecida na região. “Aqui há um dilema: não temos estudos científicos, mas as comprovações empíricas dão conta de que o eucalipto seca muito mais do que o pasto ou a cana”, revela o coordenador do MPA.

O proprietário também não tem mais que contratar mão de obra, pois o serviço é todo feito pela indústria papeleira que, por sua vez, não tem que arriscar capital para adquirir terras. O discurso dos governantes defende que o eucalipto traz desenvolvimento e progresso, mas a realidade mostra exatamente o contrário: baixíssima geração de emprego e de má qualidade, agravamento do estresse hídrico, déficit de produção de alimento para o mercado local e fuga de capital para o exterior.

“Está na hora de um debate sobre o destino das terras agricultáveis do Espírito Santo”, provoca Aloisio. “Qual o custo de se recuperar uma área ocupada por monocultura de eucalipto? Onde estão os estudos científicos sobre o real impacto sobre os recursos hídricos e o solo?”, questiona. “Não é um debate puramente técnico, ambiental, precisa considerar a questão do emprego, da produção de alimentos saudáveis para a mesa do capixaba, da geração de renda e tributos para o Estado”, pontua. 

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Mais um teste

O prefeito Audifax Barcelos articula de um lado, o deputado federal Sérgio Vidigal do outro...e vai ganhando forma o tabuleiro eleitoral da Serra

OPINIÃO
José Rabelo
A vez dos fichas-limpas
No país da Lava jato, pesquisa Datafolha aponta que a corrupção tornou-se a principal preocupação dos brasileiros
Lídia Caldas
Nutrição e gestação
Será que uma gestante tem mesmo necessidade de uma dieta alimentar diferenciada?
JR Mignone
Avalanche de informações
Talvez a juventude seja o seguimento que mais sofre com tantos fatos e versões
Geraldo Hasse
Salgado Filho, um simples herói
Hoje ninguém mais lembra o advogado que regulamentou o comércio dos ambulantes
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Uma festa para Ro Ro que rolou escada abaixo
Panorama Atual

Roberto Junquilho

Mulher "noiada" mostra a falência de programas sociais
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Meu dia, seu dia
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Justiça arquiva investigação contra deputado e juiz citados na Operação Pixote

Comando Geral da PM chama de volta ao trabalho líderes de associações classistas

Mais um teste

A vez dos fichas-limpas

MPA: Programa Compra Direta de Alimentos é 'esmola' do Estado para agricultura familiar