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Lama no Rio Doce: 'O desastre não acabou'


15/02/2017 às 19:10
“O desastre não acabou. Nós não estamos numa fase de recuperação. O perigo existe, ainda”, afirma o coordenador do Laboratório de Informações em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Christovam Barcellos, em entrevista ao programa Bate Papo na Saúde, publicada nessa terça-feira (14) no portal da Fundação.

Ele explica que a enorme quantidade de rejeitos depositada às margens do Rio Doce, ao longo de quilômetros, pode ser colocada novamente dentro da calha por meio de chuvas intensas ou dragagens. “É importantíssimo recuperar essas áreas e plantar sobre essas áreas, mesmo que sejam atividades não-agrícolas, para tentar reter esse sedimento onde ele foi depositado”, explana Christovam.

Ao mesmo tempo, prossegue o pesquisador, é preciso oferecer alternativas econômicas para as pessoas atingidas. “Ali tinha gado, plantação de café, algumas culturas de subsistência”, afirma. “Essas pessoas tiveram suas vidas totalmente alteradas”, reclama, acentuando que “é preciso encontrar alternativas de vida para essas pessoas” e aplicar técnicas de engenharia para reter o material mais fino de rejeitos, evitando que ele continue a se dispersar, aumentando os impactos.

Outro púbico que precisa ser amparado, na visão do coordenador do Laboratório de Informações em Saúde da Fiocruz, é o das populações urbanas, cidades inteiras que continuam com problemas de abastecimento de água, que não podem utilizar o rio para a pesca e o lazer, entre outros usos. “É urgente que seja feito [medidas de redução do carreamento de sedimentos depositados nas margens do rio]. E que seja monitorado, a qualidade do Rio Doce tem que ser monitorada, os usos, a pesca, o lazer, o abastecimento de água”, enumera.

Pode plantar? Pode comer o peixe?

Para ambos os públicos, duas perguntas precisam ser respondidas pela academia e pelos governos: “A gente pode plantar nesses lugares que foram soterrados por rejeitos? Podemos comer o peixe desse rio?”.

O pesquisador relembra ainda os impactos imediatos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco/Vale-BHP, no dia cinco de novembro de 2015, considerado o maior crime socioambiental da história do país e um dos maiores do mundo: uma deposição enorme de rejeitos nos primeiros quilômetros do rio, uma contaminação por completo do rio e de parte do Oceano Atlântico, mortandade maciça de peixes, desaparecimento de alguns insetos e anfíbios, impacto estético e visual que aniquilou o turismo em várias comunidades.

No mesmo programa, o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens em Minas Gerais (MAB/MG), Guilherme Camponez, alertou para a forma autoritária como estão sendo conduzidas as ações de reparação e compensação dos danos, executada e decidida pelas próprias empresas, através da Fundação Renova, sem qualquer poder de decisão por parte dos atingidos. “Esse Acordo [feito entre as empresas e os Governos, e que estabeleceu os programas de recuperação e compensação socioambiental em curso] é ilegal e imoral”, denuncia.

Guilehrme também menciona a falta de iniciativa do Ministério da Saúde, que não tomou qualquer tipo de medida especial com relação às populações atingidas. Numa ação em parceria com a Rede de Médicos Populares, o MAB acompanhou os moradores de Mariana e Barra Longa, em Mariana, durante os quatro primeiros meses após o crime e um dos dados que surpreendeu foi o aumento de casos de dengue: mais de 170 notificações em Barra Longa, somente no primeiro trimestre de 2016, proporcionalmente, o maior surto já registrado no país. A comunidade havia registrado somente quatro casos em 2014. 

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