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ES já ‘derrubou’ dois aviões da Chape


15/02/2017 às 23:58
O queda do avião que transportava a equipe da Chapecoense nas proximidades de Medellín, na Colômbia, onde o time brasileiro jogaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, foi sem dúvida a tragédia mais marcante de 2016 para os brasileiros. Entre jogadores do time catarinense, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e a tripulação, 71 morreram. 
 
Nesses 12 dias sem a presença da Polícia Militar nas ruas do Espírito Santo, 155 foram vítimas, não de um acidente, mas de mortes violentas no Estado. Mais que o dobro da tragédia com o avião da Chape.
 
Enquanto o número de mortes segue subindo, o governo do Estado e os familiares dos policiais continuam esticando a corda. 
 
Irredutível em não ceder à pressão do movimento que reivindica reajuste salarial aos policiais, o governador Paulo Hartung (PMDB) aposta que a corda acabará arrebentando, não importa quanto tempo essa tensão possa durar, para o lado dos policiais. 
 
Convicto na vitória iminente, embora essa luta insana só deixará derrotados, Hartung parece não se preocupar muito com o crescimento das mortes violentas. A propósito, como costuma acontecer em tragédias, o dever das autoridades responsáveis é informar imediata e sistematicamente sobre os mortos. É o mínimo que se pode fazer para aliviar a dor dos parentes das vítimas, que já sofrem naturalmente pela perda. 
 
Ante a omissão do governo, o Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo (Sindipol) vem fazendo a contagem das mortes desde o início da crise. Nesta quarta-feira (15), o Sindipol atualizou o número de mortes até ontem (14): 149. Apresentou também o perfil das vítimas.
 
O “mapa das mortes” ajuda a atender porque o governo segue segurando firme a corda. Frio como um caçador em tocaia, Hartung espera a hora certa para abater a caça. 
 
O perfil das mortes do levantamento do Sindipol segue o mesmo padrão dos homicídios que são registrados em períodos normais, ou seja, com a PM atuando. Dos 149 mortos, a maioria esmagadora é composta pelo seguinte perfil: jovens negros pobres moradores das chamadas zonas de exclusão social das cidades. 
 
Além de traçar o perfil étnico, etário, o levantamento não oficial do Sindipol acrescenta que as mortes foram causadas por armas de fogo e armas brancas. Sem base científica, mas a partir da experiência, o sindicato arrisca dizer que um número importante de mortes está relacionado à guerra do tráfico de drogas. 
 
Os perfis das vítimas explicam muito mais. O impasse está se estendendo porque a maioria dos mortos são "anônimos sociais". Todos os dias os jornais trazem notícias sobre jovens negros de periferia mortos na guerra do tráfico. 
 
Quem se importa? Hartung, pelo retrospecto dos seus governos, supõe-se que não. Nos seus dois primeiros mandatos (2003 - 2010), o Espírito Santo foi vice-líder do ranking nacional de homicídios. No penúltimo ano do segundo mandato, em 2009, Hartung e seu então secretário de Segurança Rodney Miranda (André Garcia era subsecretário) assistiram quase 2 mil pessoas serem assassinadas. Em janeiro daquele ano, Rodney incluiu na sua coleção de recordes mórbidos a impressionante marca de 210 homicídios num mesmo mês. Uma média diária de 7 homicídios - dois a mais do que os cinco dessa segunda-feira (13). Mesmo com a greve da PM e o Estado sob intervenção federal, com as Forças Armadas e Guarda Nacional nas ruas, ainda assim será difícil para Garcia bater a marca do padrinho. Para quem se esqueceu, foi Rodney que trouxe o então procurador pernambucano para o Espírito Santo. 
 
Com taxas de homicídios de guerra civil, o perfil das vítima nos governos Hartung era muito semelhante ao das mortes relacionadas à crise na segurança pública do Espírito Santo. 
 
O trio Hartung-Rodney-Garcia fechou o período de 2003 a 2010 com o saldo impressionante de mais de 14 mil mortes em oito anos. No Espírito Santo da Era Hartung eram registrados de quatro a cinco homicídios por dia. Para rebater os dados, Rodney apresentava as desculpas mais estapafúrdias. Em 2010, após a explosão de homicídios em janeiro e fevereiro, o então secretário soltou a pérola: "Neste ano teve mais calor, e no ano passado foram dois dias de chuva. Por causa da alta do dólar, houve maior presença de turistas em nosso Estado”. 
 
Hartung e Garcia, para não recorrer a uma explicação patética como à de Rodney, preferem se calar sobre as mortes. Estão mais preocupados em usá-las para criminalizar seus adversários do que para confortar as famílias das vítimas. O silêncio é tolerado pela sociedade porque os mortos, em sua maioria, são “indigentes sociais”. Fossem as vítimas jovens brancos universitários moradores dos bairros mais abastados da Grande Vitória, o governador já teria largado a corda faz tempo, Não esperaria cair o “terceiro avião”. 

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