Seculo

 

Almanaque às avessas


17/02/2017 às 11:35
Em dois anos de mandato, o governador Paulo Hartung (PMDB) surfou soberano na onda do ajuste fiscal. Medalhões do jornalismo nacional e especialistas em economia, os chamados formadores de opinião, elegeram o governador capixaba e o seu pequenino Espírito Santo como um “caso de sucesso” a ser seguido pelos Estados mergulhados na crise financeira que afeta o País. 
 
Mas as boas notícias sobre o Espírito Santo não ficaram restritas ao ajuste fiscal draconiano que Hartung recomendou aos colegas governadores e até mesmo ao presidente Michel Temer. A crise nos presídios do Amazonas e do Rio Grande do Norte que chocou o País, tomando conta do noticiário durante boa parte de janeiro, virou oportunidade para o governador capixaba.
 
Enquanto as autoridades nacionais procuravam soluções para a crise prisional, Hartung arriscou lançar na mídia a experiência do Espírito Santo sobre gestão de presídios para ver se colava. Colou. A narrativa mostrava que o “guru” do ajuste fiscal tinha outras cartas na manga. Ele queria ensinar como transformar  “masmorras medievais” em unidades prisionais “modernas”, construídas a toque de caixa. Não revelou, é claro, alguns segredos. Não contou, por exemplo, que investiu mais de meio bilhão de reais na reconstrução de unidades prisionais, todas sem licitação, em contratos que, no mínimo, levantam suspeição. Mas isso já é conteúdo para outro “almanaque”. 
 
Depois do sucesso retumbante do modelo de “ajuste fiscal a qualquer custo” e “de gestão de presídios”, Hartung deixou a modéstia de lado para reivindicar que nunca na história o Espírito Santo conquistara tantas “boas notícias”. 
 
Em janeiro passado, ainda colhendo os frutos do sucesso, não passava pela cabeça do governador que, alguns dias depois, a palavra Espírito Santo seria top trends nas redes sociais e assunto obrigatória na mídia nacional e internacional, batendo de longe todas as marcas anteriores alcançadas pelo governador. Mas com um infortúnio desconcertante: as notícias sobre o ES eram todas negativas, as piores. A crise sem precedentes que se instalou na segurança pública virou, em poucas horas, o Estado que até então era modelo, de cabeça para baixo. 
 
Desde que a paralisação da PM foi deflagrada, no dia 4 de fevereiro passado, o governador passou a colecionar farto material para lançar um “novo almanaque”, mas esse às avessas, um modelo negativo. Título sugerido: “aprenda como NÃO gerir uma crise na segurança pública em 12 passos”. Um manual obrigatório para governadores que começam a enfrentar o efeito dominó da crise instalado na PM do Espírito Santo e não querem sair queimado do imbróglio como o governador capixaba.
 
O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), ao sentir a crise se instalando nos quartéis fluminenses, se pautou nos erros do vizinho para evitar cair nas mesmas ciladas. Ele parece estar aprendendo com Hartung “como não se deve gerir uma crise na segurança”. A cada passo errado cá, Pezão tenta dar um certo lá.
 
A cronologia dos erros do governo do Estado em 12 passos
 
Passo 1: subestimou um grupo de mulheres de policiais que ameaçava ocupar quartéis, batalhões e unidades da PM em todo o Estado. Apostou que o levante era “fogo de palha” e que depois de algumas horas o movimento se desmancharia naturalmente. Já se passaram 14 dias.
 
Passo 2: o governo demorou mais de 48 horas para tomar as primeiras medidas concretas para abrir um canal de diálogo com o movimento e tentar conter a paralisação antes que ela se alastrasse. Manteve-se omisso, enquanto o movimento ganhava força.
 
Passo 3: o governo tentou agir com naturalidade ante as primeiras ocorrências de mortes, saques e arrastões na Grande Vitória e no interior do Estado. Mesmo aos primeiros sinais mais agudos de convulsão social, o vice-governador em exercício, César Colnago, apenas procurou o governo federal para sondar a possibilidade de receber o apoio das Forças Nacionais e Forças Armadas. Mas ficou, num primeiro momento, só na sondagem. Somente na segunda-feira (6) é que o governo decidiu formalizar o pedido de apoio. A demora excessiva revela que o governo relutou em jogar a toalha e pedir ajuda. Ainda alimentava a esperança que o movimento recuaria somente com os apelos do governo para que os policiais voltassem ao trabalho. 
 
Passo 4: somente 72 horas após a deflagração do movimento, em 6 de fevereiro, o governo anunciou as primeiras medidas para mostrar à população que estava tudo sob controle, embora o Estado estivesse de cabeça para baixo. Trocar o Comando da PM foi uma estratégia para mostrar à opinião pública que a culpa pelo motim estava relacionada à insubordinação da tropa, e que a simples troca do comando poderia resolver o problema. O governo ratificou também que só haveria diálogo depois que os policiais voltassem às ruas. Obter uma decisão da Justiça para determinar a ilegalidade da greve também não teve efeito prático. Que a greve é ilegal, todo mundo sabe. A decisão só serviu para reforçar a retórica do governo nos pronunciamentos e ponto. Inútil como instrumento de pressão.
 
Passo 5: 120 horas depois do início do movimento, ao perceber que a situação havia saído totalmente de controle, o governo decidiu tirar o time de campo e passar o rojão para o governo federal. Transferiu formalmente a gestão da Segurança Pública ao governo federal. As Forças Armadas e Nacionais tiveram que assumir o patrulhamento e todos os reveses de uma crise já instalada há cinco dias. Na coletiva que fez, o governador Paulo Hartung, licenciado para cuidar da saúde, tentou tirar o peso da intervenção federal. Ele preferiu usar o termo “cooperação” federal. A preocupação do governador, que até então era “modelo”, era quebrar um pouco essa ideia de que o Estado fracassou da gestão da crise e precisou apelar para o governo federal.  
 
Passo 6: o governo forçou a barra ao tentar transferir a responsabilidade sobre a crise a outros atores. No caso, o governo tentou jogar na conta dos deputados estaduais o fracasso das negociações com mulheres dos PMs. Essa  estratégia foi útil para tirar da mesa de negociações observadores que poderiam desaprovar os métodos “nada ortodoxos” de cooptação usados pelo governo nas reuniões com as mulheres dos policiais. Instituir um Comitê de Negociações, além do nome imponente, garantiu ao governo manter o total controle sobre os rumos da negociação, assim como entregar a liderança do comitê a um mediador com perfil dócil, quase inofensivo, hábil em conduzir a conversa dentro de um ambiente aparentemente democrático, horizontal. Se precisasse o secretário de Direitos Humanos, Júlio Pompeu, estaria pronto para se sentar no chão e fazer rodinha - como fez com estudantes na ocasião da ocupação da Secretaria de Educação em 2016. A missão desempenhada por Pompeu, que aparenta ser simples, não é para amadores. Fingir-se democrático e ao mesmo tempo manipular as negociações para legitimar um acordo fajuto, é para poucos. Seus recursos de hermenêutica trazidos do curso de filosofia devem ter ajudado, mas não foram suficientes para envolver as mulheres no canto da sereia. Todas as “negociações” fracassaram. 
 
Passo 7: as exaustivas rodadas de negociações serviram apenas para o governo mostrar à mídia e à opinião pública que o Palácio Anchieta sempre buscou o diálogo, e que a intransigência partia do movimento. Apesar do teatro das negociações, o governo sabia, desde o início, que não cederia à pauta do movimento. Após falhar na manipulação das negociações, o governo trocou os legítimos representantes dos policiais pelas associações militares, para anunciar um acordo. A informação do acordo e iminente fim da greve foi noticiada pelo Jornal Nacional. A estratégia era botar o acordo na boca de William Bonner. Conseguiram. Mas o movimento percebeu a armação e se manteve firme, desconfiado do “diário oficial do Brasil”. 
 
Passo 8: durante a crise o governo convocou diversas coletivas. O que menos fez, porém, foi informar sobre a crise, mas usar os pronunciamentos para fazer novas ameaças aos militares. As coletivas serviram apenas para “plantar” fatos estratégicos na imprensa. No que diz respeito à  comunicação da crise em si, a estratégia do governo foi um desastre. Vergonha. Demorou 10 dias para confirmar oficialmente o número de mortos. Numa tragédia, a primeira obrigação das autoridades é informar sobre os mortos. A falta de informação só aumentou o sofrimento dos familiares das vítimas.
 
Passo 9: em meio à crise, o governo recorreu à empresa de comunicação que tem prestado com exemplar competência assessoria ao governador. Foram mobilizados jornalistas importantes nos principais veículos do País para tentar estancar a crise. Cavaram exclusivas de última hora com a “imprensa cordial”. A estratégia costuma ser muito eficaz. Nessas entrevistas é possível falar o que se deseja para um jornalista de boa reputação e ainda fazer com que o conteúdo pareça espontânea. Costuma funcionar muito bem, mas no caso de Hartung, já com a crise fora de controle, a entrevista teve efeito reverso. A partir daí começaram a aumentar as críticas à gestão do governador e o tão festejado ajuste fiscal passou a ser questionado por especialistas de todo o País.
 
Passo 10: após uma semana de crise, o governo passou a adotar medidas mais enérgicas. Depois de deixar claro à sociedade quem era o vilão e quem era o mocinho, o governo apertou o cerco. Passou a recorrer a todas as medidas que pudessem intimidar os grevistas. Prevaleceu a estratégia do erro e acerto. Ameaçavam punir os policiais incitadores do movimento com sanções disciplinares e criminais. Para mostrar que as ameaças não eram blefes, publicaram uma lista dando nomes aos bois. Também tentaram atribuir aos policiais as ações criminosas com o intuito de jogar a população contra o movimento. O governo também recorreu à Justiça para conseguir mandados contra as líderes do movimento. A estratégia de intimidar as mulheres a ameaçando de multas não funcionou. Nem um mandado foi cumprido.
 
Passo 11: como nem uma medida de pressão surtiu efeito após 13 dias de paralisação da PM, o governo passou a tomar medidas mais drásticas. Identificou os principais focos de resistência do movimento e anunciou que os eliminaria. Identificaram que na Rotam estão os principais “cabeças” do motim. A solução foi radical: o governo decidiu implodir o grupamento especial. A estratégia parece ter sido inspirada na mesma usada para conter rebelião em presídios. Tira-se os “cabeças” do movimento  transferindo-os para outras unidades com o intuito de quebrar a resistência do grupo mais coeso. 
 
Passo 12: esse passo ainda está sendo estudado. A constatação é que após 14 dias o movimento continua firme, resultado de que as estratégias do governo falharam uma a uma. O governo insiste agora na estratégia de mostrar à sociedade que tudo está voltando ao normal, mas sabe que a situação é passageira se não solucionar o impasse com os policiais. A Forças Armadas já tem data para partir e as Forças Nacionais, que permaneceriam, só contam com 300 homens no Estado. Efetivo insuficiente para fazer o patrulhamento e garantir a ordem pública. Às vésperas do Carnaval capixaba, que acontece uma semana antes do oficial, o governo tenta se valer de uma grande festa popular para mostrar ao capixaba e ao País que a crise foi superada. Por isso nunca se cogitou suspender o carnaval. Uma festa que é capaz de levar o povo às ruas, não para trabalhar ou estudar, como a maioria das pessoas tem feito nos últimos dias, mas para se divertir, cair no samba, na alegria, esquecer tudo de ruim que ficou para trás. Temos que admitir que isso também não é novidade. Nos anos de chumbo, o futebol fez muito bem esse papel de “ópio do povo”. A diversão numa festa dessa proporção é capaz de promover verdadeiros milagres. Quem sabe o Carnaval não seja capaz de levar a crise embora? Essa é a aposta do governo, que insiste na estratégia do erro e acerto. Uma estratégia um tanto arriscada em meio a uma crise que não tolera mais erros.

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Comentários

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