Seculo

 

Uma tragédia a olho nu


19/02/2017 às 10:15
Saiu no jornal O Globo do Rio um relatório do Banco Mundial sobre o recrudescimento da pobreza do Brasil. O revés recomeçou em 2015, intensificou-se em 2016 e deve manter-se em 2017 e nos próximos anos, caso não sejam adotadas medidas que levem à recuperação da economia, sem o que não se abrirão novamente as portas do mercado de trabalho.  
 
Segundo o estudo, que na realidade se baseia em dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (PNAD 2015), do IBGE, o número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil aumentará entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o fim deste ano.
 
A diferença de 1,1 milhão entre as duas estimativas depende do comportamento da economia. Se a recessão continuar, o número de pobres chegará a 20,9 milhões, sendo 9,4 milhões em estado de miséria. Se a economia der uma arribada, os pobres ficarão em 19,8 milhões (8,5 milhões de miseráveis).
 
Os “novos pobres”, assim chamados porque estavam acima da linha da pobreza em 2015 e já caíram ou cairão abaixo dela neste ano, são na maioria adultos jovens, habitantes (90%) de áreas urbanas; 58,8% deles estavam formalmente empregados até 2015. É uma situação que se configura como tragédia num país marcado historicamente por gritantes desigualdades sociais e regionais.
 
O perfil dos “novos pobres” é bastante diferenciado dos “estruturalmente pobres”, aqueles que já viviam em condição de pobreza em 2015 e continuam nessa situação, no conceito formulado pelo Banco Mundial.
 
A parcela dos “pobres estruturais” é 10% mais velha (média de 41 anos de idade entre os chefes de família), menos escolarizada (17,5% com ensino médio ou mais), e tem presença importante na área rural (36%). Devido ao seu perfil, os “novos pobres” podem ser mais facilmente alcançados por políticas de geração de renda, acredita o Banco Mundial.  
 
Se quiser reduzir a pobreza extrema aos níveis de 2015, base mais atual de dados oficiais sobre renda, o governo terá que aumentar o orçamento do Bolsa Família este ano para R$ 30,4 bilhões no cenário econômico mais otimista e para R$ 31 bilhões no quadro mais pessimista, segundo o relatório do Banco Mundial. Para 2017, o BF dispõe de R$ 29,8 bilhões ou, seja, foi reduzido em 10% nos últimos dois anos.
 
Se o programa não for ampliado, a proporção de brasileiros em situação de miséria subirá para 4,2% este ano no cenário otimista e para 4,6% no pessimista. Em resumo, o número de miseráveis no Brasil está perto nove milhões de pessoas – o mesmo do Estado de Pernambuco.  
 
Conclusão: enquanto o Brasil vive o primeiro aumento da pobreza após uma década de ascensão generalizada da renda das camadas mais baixas da população, nem o governo nem a sociedade se deram conta de que a crise social se tornou mais aguda nos últimos dois anos. E tudo indica que a situação vai continuar se agravando, como se a miséria fosse um mal necessário e inerente à história da humanidade. Pelo que se vê nas ruas, as pessoas se comovem mais com um cãozinho sendo maltratado do que com ser humano passando fome, frio ou sede.
 
Por isso é bom lembrar que aos pobres não falta só comida. Eles não têm habitação decente e carecem das condições mínimas da cidadania: acesso ao trabalho, a uma instrução melhor, a transporte coletivo e saúde pública. Roupa nova, esporte, lazer e viagens de turismo são fantasias irrealizáveis a curto ou médio prazo. Se não quiserem catar lixo ou pedir esmola, talvez lhes reste recorrer às drogas, um caminho praticamente sem volta.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Nunca conheci ninguém podre de rico. Mas já vi milhares de pessoas podres de pobre.”
 
Millor Fernandes (1923-2012)

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Precipitou-se

Com um olho em 2018 e outro em 2020, Luciano Rezende antecipou o processo eleitoral, mas esqueceu a Lava Jato. Aí mora o problema.

OPINIÃO
Renata Oliveira
Bicho-papão
O ajuste fiscal de Paulo Hartung precisa do exemplo do Rio de Janeiro tanto para cortar quanto para supervalorizar a liberação de recursos
JR Mignone
Qual rádio ouviria hoje?
Sinceramente, não saberia explicar que tipo de rádio eu ouviria hoje, isto é, que me motivaria a ligar o botão para ouvi-la: uma de notícia ou uma só de música selecionada
Caetano Roque
Pressão neles
O movimento sindical deve conscientizar o trabalhador sobre quem estará na disputa do próximo ano contra ele
Geraldo Hasse
A doença da intolerância
Ela está nos estádios, nos governos, nas igrejas, nos parlamentos, nas ruas, nos tribunais
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

Branca, o Teatro e a sala de estar
Panorama Atual

Roberto Junquilho

Fuzis e baionetas, nunca mais!
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Turista acidental
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Precipitou-se

Posse de tucano no Turismo é demonstração interna de força de Colnago

Subseção da OAB-ES cobra esclarecimento sobre atuação de Homero Mafra na defesa de acusado

Justiça Federal determina que 14 municípios adotem ponto eletrônico para médicos e dentistas

Dary Pagung vai fechar a porta para emendas de deputados no orçamento