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O livro de Cesário Verde (parte - 1)


05/03/2017 às 14:19

CESÁRIO VERDE – O HOMEM E A OBRA

BIOGRAFIA

Numa praça em Lisboa temos um busto de bronze que tem no pedestal a inscrição: “Cesário Verde – Poeta.” É o reconhecimento ao poeta que teve a sua qualidade de poeta recusada pelos seus contemporâneos, tal que é a compensação pela posteridade que desmentia sua queixa em carta a um amigo: “Literariamente parece que Cesário Verde não existe.”

A biografia de Cesário Verde não possui uma vastidão de informações, pois tanto envolve um breve tempo de vida de 31 anos, como o prosaísmo de sua atividade profissional, uma vez que era um modesto caixeiro que trabalhava na loja de ferragens de seu pai, na Rua dos Fanqueiros, aonde aviava fregueses, e fazia a escrita ou se encarregava da correspondência comercial, numa vida de um cotidiano comum, com a gente sem história que o poeta iria apresentar em seus poemas. Também Fernando Pessoa exerceu uma atividade profissional apagada, mas este, ao contrário de Cesário Verde, integrou-se e participou dos círculos intelectuais do seu tempo, na história das lides culturais com as ideias que comungou na geração de Orfeu de que fazia parte. O que não aconteceu com Cesário, a quem os contemporâneos ignoraram.

O ambiente familiar de Cesário Verde era marcado por um grande espírito positivo e prático, no que não se tinha espaço para expansões idealistas que normalmente se ligam à poesia, pois Eduardo Coelho, por exemplo, que foi o fundador do Diário de Notícias, fora, também ele, empregado de José Anastácio Verde, o pai do poeta Cesário, nos tempos da sua adolescência. E Eduardo, no contexto deste trabalho, vira-se obrigado a abandonar a loja de ferragens por via da oposição que o patrão fazia à sua atividade literária, oposição que tinha uma justificação muito simples: “Versos não dão dinheiro.”

Será também esse espírito positivo, pragmático e utilitarista, que provocará na família de Cesário Verde a ausência de religiosidade, numa atitude de hostilidade face ao fenômeno religioso dominante na sociedade, no que teremos um poeta anticlerical e republicano, que nos deixa alguns testemunhos dessa atitude ao longo dos versos que escreveu. À atividade de produtor juntava-se também a de exportador das frutas da fazenda. E, se o poeta não deixa de se entusiasmar pelo trabalho, revela também um tipo de consciência muito esclarecida dos aspectos concretos dessa atividade, o que refletirá em seus versos um estro com boa dose de prosaísmo.

Comerciante, Cesário Verde nunca conseguiu ser aceito como poeta pela geração de intelectuais seus contemporâneos, estando então vedado o seu acesso às capelas literárias onde se forjam os mitos. E como a sua poesia apresentava traços de novidade, no momento histórico em que vivia ele não podia alcançar o reconhecimento que merecia, no que a crítica foi impiedosa ao apercebê-la impressa em folhas periódicas. A publicação em 1874 no Diário de Notícias do poema “Esplêndida” é acolhida por Teófilo Braga e Ramalho Ortigão, dois pontífices das letras daquele tempo, com ironia e sarcasmo. Ramalho aconselha o jovem autor (ao tempo com 19 anos) a tornar-se “menos Verde e mais Cesário” – uma boa maneira de indicar o abandono da atividade literária. Mais tarde, Teófilo Braga ignorá-lo-á por completo na organização do Parnaso Português Moderno, onde nenhum poema de Cesário Verde foi incluído.

Outro incidente desagradável deu-se com o Diário Ilustrado que, ao transcrever do Diário de Notícias o poema “Em petiz”, não se conteve de comentários ignóbeis, mais dignos do panfleto do que da crítica. Ali se dizia que cada verso do poema era “simplesmente um vomitório”.

Todas estas contrariedades pesaram fundo na alma do poeta, e o poema “Contrariedades” parece ditado justamente por estas desilusões. Ali se tenta um diagnóstico das causas que poderiam estar na base da rejeição de que era vítima. Donde se conclui que os obstáculos que encontrava para singrar nas letras provinham da sua independência, da sua marginalização relativamente aos círculos de literatos. De qualquer modo, não é de crer que a confiança do poeta no seu próprio talento fosse tal que o isentasse de uma sombra de dúvida quanto à qualidade da sua produção literária. E isso explicará por um lado a escassez do que nos deixou e o fato de não ter em vida publicado qualquer livro, embora já em 1874 essa publicação se anunciasse “para breve”.

POEMAS:

CRISE ROMANESCA

DESLUMBRAMENTOS: O poema, da crise romanesca, que Cesário Verde impõe com estro apaixonado, dirige-se com deslumbramento, e a sua milady é um perigo, que aparece no poema então como a clássica contemplação do poeta; “Milady, é perigoso contemplá-la,” (...) “Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,/Eu vejo-a, com real solenidade,/Ir impondo toilettes complicadas! .../Em si tudo me atrai como um tesoiro:”. O poema tem seu tesouro, e o poeta está em fascinação: “Ah! Como me estonteia e me fascina .../E é, na graça distinta do seu porte,/Como a Moda supérflua e feminina,/E tão alta e serena como a Morte! ...”. As rimas fluem, e o estro arde em êxtase: “O seu olhar possui, num jogo ardente,/Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;”. Anjos e demônios surgem na contemplação, que tem no olhar de sua milady a mira de Cesário Verde: “E enfim prossiga altiva como a Fama,/Sem sorrisos, dramática, cortante;”. A fama precípua é de cortante drama, e o luxo surge então nas estradas: “E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,/Sob o cetim do Azul e as andorinhas,/Eu hei-de ver errar, alucinadas,/E arrastando farrapos – as rainhas!”. E assim milady supera as rainhas que se arrastam aos farrapos, glória suprema do poeta e seu deslumbramento.

HUMILHAÇÕES: O poema tem da humilhação ao ambiente do teatro o desdém e os salões que o ignoram, este poeta que em versos sem reconhecimento, se perde com estro pela noite destes salões: “Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job,/Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;/E espero-a nos salões dos principais teatros,/Todas as noites, ignorado e só.”. No poema o teatro tem a presença feminina como um salto: “Na representação dum drama de Feuillet,/Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,/Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra/Saltou soberba o estribo do coupé.”. E sua passada é firme, como uma marcha: “Como ela marcha! Lembra um magnetizador,/Roçavam no veludo as guarnições das rendas;/E, muito embora tu, burguês, me não entendas,/Fiquei batendo os dentes de terror./Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!”. O poeta tonteia de terror, embora com sua visão extática não pudesse sair dali e ficar em paz: “Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;/Via-a subir, direita, a larga escadaria./E entrar no camarote. Antes estimaria/Que o chão se abrisse para a abater.” O poema então termina com um súbito drama final, em que o sujo e infecto se dá como um pedido final, um cigarro: “De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,/Pôs-se na minha frente uma velhinha suja/E disse-me, piscando os olhos de coruja:/_ Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá? ...”.

NATURAIS

CONTRARIEDADES: O poema se dá na contrariedade de Cesário Verde com o seu tempo, ele está cruel, revoltado, incompreendido, o poema tem este azedume típico de uma alma canora que tem seu canto cortado: “Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;/Nem posso tolerar os livros mais bizarros./Incrível! Já fumei três maços de cigarros/Consecutivamente./Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:/Tanta depravação nos usos, nos costumes!”. O poeta aparece aqui em sua face decadente: “O obstáculo estimula, torna-nos perversos;/Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,/Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,/Um folhetim de versos./Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta/No fundo da gaveta. O que produz o estudo?/Mais duma redação, das que elogiam tudo,/Me tem fechado a porta.”. O poeta vê todas as portas fechadas, e tem a ideia sabotadora de queimar seus escritos, num rompante: “Juntei numa fogueira imensa/Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa/Vale um desdém solene.”. A imagem poética é destruidora, o poeta está em convulsão, seus poemas não estão em evidência, resta aos amigos seu mundo particular de poeta histórico póstumo: “Eu nunca dediquei poemas às fortunas./Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas./Independente! Só por isso os jornalistas/Me negam as colunas./Receiam que o assinante ingênuo os abandone,/Se forem publicar tais coisas, tais autores./Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores/Deliram por Zaccone.”. O poeta aqui aparece como o injustiçado, o ressentido, como se ele próprio não tivesse que alçar sua poesia na evidência que ele deseja ardentemente, o que nem sempre é possível, mas que não pode ser objeto de lamento a quem se propõe tamanho empreendimento: “Perfeitamente. Vou findar sem azedume./Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,/Conseguirei reler essas antigas rimas,/Impressas em volume?/Nas letras eu conheço um campo de manobras;/Emprega-se a reclame, a intriga, o anúncio, a blague,/E esta poesia pede um editor que pague/Todas as minhas obras ...”. E o poeta está impotente, no aguardo de um editor que lhe pague a fortuna crítica de seu trabalho imenso.

POEMAS:

CRISE ROMANESCA

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e anormal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.

 

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas! ...

 

Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lúcido perfil!

 

Ah! Como me estonteia e me fascina ...

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte! ...

 

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!

 

O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!

 

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

 

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como um brilhante.

 

Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os bárbaros reais,

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.

 

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos – as rainhas!

 HUMILHAÇÕES

 De todo o coração – a Silva Pinto

 

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job,

Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;

E espero-a nos salões dos principais teatros,

Todas as noites, ignorado e só.

 

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;

As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,

E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos,

Eu analiso as peças no cartaz.

 

Na representação dum drama de Feuillet,

Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,

Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra

Saltou soberba o estribo do coupé.

 

Como ela marcha! Lembra um magnetizador,

Roçavam no veludo as guarnições das rendas;

E, muito embora tu, burguês, me não entendas,

Fiquei batendo os dentes de terror.

 

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!

Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia

De vê-la aproximar, sentado na plateia,

De tê-la num binóculo mordaz!

 

Eu ocultava o fraque usado nos botões;

Cada contratador dizia em voz rouquenha:

_ Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?

E ouviam-se cá fora as ovações.

 

Que desvanecimento! A pérola do Tom!

As outras ao pé dela imitam de bonecas;

Têm menos melodia as harpas e as rabecas,

Nos grandes espetáculos do Som.

 

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;

Via-a subir, direita, a larga escadaria.

E entrar no camarote. Antes estimaria

Que o chão se abrisse para a abater.

 

Sai; mas ao sair senti-me atropelar.

Era um municipal sobre um cavalo. A guarda

Espanca o povo, irei-me; e eu, que detesto a farda,

Cresci com raiva contra o militar.

 

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,

Pôs-se na minha frente uma velhinha suja

E disse-me, piscando os olhos de coruja:

_ Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá? ...

 NATURAIS

CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente.

 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:

Tanta depravação nos usos, nos costumes!

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes

E os ângulos agudos.

 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora

Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;

Sofre de faltas de ar; morreram-lhe os parentes

E engoma para fora.

 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!

Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.

Lidando sempre! E deve a conta na botica!

Mal ganha para sopas ...

 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;

Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,

Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,

Um folhetim de versos.

 

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta

No fundo da gaveta. O que produz o estudo?

Mais duma redação, das que elogiam tudo,

Me tem fechado a porta.

 

A crítica segundo o método de Taine

Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa

Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa

Vale um desdém solene.

 

Com raras exceções, merece-me o epigrama.

Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,

Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho

Diverte-se na lama.

 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas.

Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.

Independente! Só por isso os jornalistas

Me negam as colunas.

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