Seculo

 

Exposição no Arquivo Público Estadual celebra Luz del Fuego


11/03/2017 às 18:29
“Num mundo que está progredindo dia a dia, os preconceitos continuam amarrados a um poste" afirma a capixaba Dora Vivacqua, a Luz del Fuego, na publicação A Verdade Nua, na qual lança as bases das suas ideias sobre o naturismo. Luz del Fuego causou impacto na década de 1950 e apesar das tentativas de silenciá-la – que incluíram duas internações em instituições psiquiátricas e a destruição dos exemplares do seu livro – ela atingiu o seu intento de “fazer-se lembrar mesmo após 50 anos”. 
 
Para trazer à cena a sua trajetória, será aberta na próxima quarta-feira (15), às 18h30, pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), em parceria com a produtora Interferência Filmes, a exposição Cem Anos Luz com fotografias, exibição de documentário e mesa-redonda.
 
Ricardo Sá, diretor do filme Tia Dora, que será apresentado no evento, explica que as imagens que irão compor a Mostra Fotográfica foram selecionadas em pesquisas feitas por ele nos Arquivos Públicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional e na Cinemateca Brasileira, permitindo traçar um panorama sobre a vida da artista. 
 
“Fiz essa busca motivado pelo interesse na personalidade de Luz del Fuego e em promover a memória desta mulher que fez história” afirma Ricardo. Tia Dora é um desdobramento do documentário Divina Luz, contemplado pelo edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) de 2015. Nele são reunidos depoimentos de sobrinhos de Luz del Fuego junto a imagens que ilustram o cotidiano de uma das capixabas mais famosas do mundo.
 
Para discutir o tema “A contribuição de Luz del Fuego para o naturalismo e o feminismo no Brasil” será realizada durante a abertura da exposição uma mesa redonda com a participação de Ricardo Sá, da sobrinha de Dora Vivacqua, Ana Rita Novaes, da educadora popular Edna Calabrez Martins e do conselheiro consultor da Federação Brasileira de Naturismo, Evandro Telles. Também será feita uma homenagem pela jornalista Gerusa Contti, que irá declamar um poema.
 
Nascida em Cachoeiro de Itapemirim, em uma tradicional família de políticos, Luz del Fuego - nome adotado de uma marca de batom argentino - desde criança mostrava-se diferente ao não aceitar as imposições a ela direcionadas e emitia opiniões contundentes sobre o casamento, o divórcio e a liberdade da mulher em um período no qual, em muitos casos, o matrimônio e a maternidade eram tidos como a destinação natural feminina.
 
Encantou-se muito nova por um serpentário e teve a certeza de que um dia se apresentaria com cobras, o que realmente fez. A primeira delas foi uma jiboia encomendada a um fazendeiro mato-grossense. Mantinha-as como animais de estimação, soltas em sua casa, apesar de afirmar ter sofrido 120 mordidas. 
 
As suas aparições nos teatros e circos, inicialmente no Rio de Janeiro e depois em todo o país, causavam furor. Junto com o sucesso vieram as perseguições por parte da censura e da polícia.
 
Após intensa carreira nos palcos dedicou-se aos seus ideais naturistas. Para torná-los mais populares, tentou fundar o “Partido Naturalista Brasileiro”, cujo slogan era “Menos roupa e mais pão. Nosso lema é ação”. A criação do partido e a sua candidatura à deputada não ocorreram, uma vez que a lista de assinatura perdeu-se em condições misteriosas que envolveram até um acidente aéreo.
 
Na década de 1950 ela funda o primeiro clube naturalista brasileiro na “Ilha do Sol” no Rio de Janeiro. O local tinha registro na Federação Internacional Naturalista da Alemanha e alcançou, em sua fase áurea, a marca de 240 sócios pagantes, entre eles governadores, ministros, militares de alta patente, milionários, estrelas do cinema e turistas de todo o mundo, que só podiam permanecer na ilha se estivessem completamente sem roupa. Aos 50 anos ela foi assassinada, junto com o caseiro, por dois homens que ela havia denunciado à polícia por ações criminosas na região da Ilha.
 
Serviço
A exposição Cem anos Luz será aberta na próxima quarta-feira (15), a partir de 18h30, na sede do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Rua Sete de Setembro, 414, Centro, Vitória. Visitação: de 10h às 17h30, de segunda a sexta-feira. Até 17 de maio. Entrada franca.

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