Seculo

 

O livro de Cesário Verde (parte - 2)


12/03/2017 às 11:06
CESÁRIO VERDE – O HOMEM E A OBRA
 
BIOGRAFIA – CONTINUAÇÃO
 
O poeta Cesário Verde viveu sob a sombra da tuberculose, sua família teve nisso a sua fonte de tragédia, pois, além de levar-lhe dois irmãos, a doença ceifaria prematuramente a vida do poeta. O que ocorreu foi que em 1872 morreu a sua irmã Júlia, a mais velha, e grande parte do poema “Nós” dedica-se a narrar esta perda. Dez anos mais tarde, em 1882, é o irmão mais novo, Joaquim Tomás, que é levado também por esta doença, e tal também aparece registrado no poema citado. E o poeta, com isso, já sentia a ameaça sobre a sua vida em relação a esta doença, com vastas referências sobre isso nos seus poemas. No poema “Nós” ele, por fim, lamenta esta fraqueza congênita da família, e nele também expressa como à riqueza possuída mas inútil preferiria a saúde.
 
O livro de Cesário Verde (parte - 1)

E a morte de Cesário Verde veio, portanto, em consequência da doença maldita, a tísica, envolvido em meio disso na sua luta por reconhecimento literário, no que malogrou quando vivo e no momento de sua morte, que o levou a 19 de Julho de 1886. Cesário Verde morreu ignorado, como ignorado tinha vivido. Nenhum vulto das letras se manifestou, como também no necrológio, o Diário de Notícias, por sua vez, onde ele publicara parte dos seus versos, alinhava algumas banalidades sobre o “malogrado poeta e comerciante”, e somente o Comércio do Porto deixava entrever um pouco que alguém de muito valor tinha deixado este mundo: “Cesário Verde morre quase ignorado. Circunstâncias especiais da sua vida fizeram talvez com que ele não pudesse apurar as suas faculdades, nem aperfeiçoar os seus processos artísticos; mas o que dele fica basta para revelar uma decidida vocação poética, original e independente como poucas.”
 
A OBRA DE CESÁRIO VERDE
 
Como dito, a obra poética de Cesário Verde passou quase despercebida aos seus contemporâneos e até mesmo foi objeto tanto de troça e sarcasmo como também de insulto. E, passando um bom tempo de sua morte, os elogios, por outro lado, ganharam contornos extremos. Como, por exemplo, quando João Cabral de Melo Neto afirma que a poesia de Cesário Verde está na mesma dimensão de valor da poesia de Fernando Pessoa, este sim, com reconhecimento universal como um dos maiores poetas da História mundial, e não tanto Cesário Verde.
 
Cesário Verde, por sua vez, morreu sem ter publicado um livro sequer, uma vez que a sua poesia só apareceu, enquanto este era vivo, de forma dispersa em diversas publicações, como quando em 1873, a 12 de Novembro, este publicou no Diário de Notícias os seus primeiros versos. E em seguida mais versos aparecem em Dezembro de 1873 no Diário da Tarde do Porto, que são os poemas “Eu e ela” e “Lúbrica”. Sua produção continua, e catorze poemas, entre os quais “Esplêndida”, vêm a público durante o ano de 1874, com a promessa da publicação de um livro “para breve”. Mas entretanto, e a propósito de “Esplêndida”, vêm as palavras de Ramalho Ortigão, que desanimam Cesário Verde, então ainda um jovem autor. E com a sua saída do Diário de Notícias, o projeto do livro fica adiado.
 
E foi somente depois da morte do poeta que Silva Pinto, por sua vez, concretizou esse sonho, fazendo imprimir, a expensas suas e sem a colaboração nem sequer financeira da família, O Livro de Cesário Verde, com a obra aparecendo em Abril de 1887, com uma tiragem limitada de duzentos exemplares, e que não ultrapassa o círculo dos amigos do poeta. Este livro continha vinte e dois poemas dos cerca de quarenta que o poeta nos deixou, e só em 1901, com a 2ª edição, se pode dizer que o público tomou conhecimento da obra. Dos outros poemas que não entraram no livro póstumo de Cesário Verde se encontram sobretudo seus sonetos, que são uma faceta importante de sua escassa poesia.
 
A poesia de Cesário Verde é de difícil definição nas correntes literárias de sua época, pois este configura como um caso único na literatura portuguesa que não deixou entrever modelos definíveis que o antecedam ou ainda pelo fato de não ter o poeta tido seguidores que o tenham prolongado a sua fortuna crítica ou influência literária. E a sua época, portanto, o colocava como um ser estranho entre a derrocada do ultrarromantismo e a ascensão das correntes literárias provenientes da escola coimbrã. Com João Penha afirmando em 1868 a existência ainda dessas duas escolas literárias: “A dos metrificadores do ai, ou a de Lisboa; e a dos sacerdotes da ideia vaga, ou a de Coimbra.” A primeira seria constituída pelos românticos e a segunda viria a assumir a designação de realismo.
 
É bom frisar que tal realismo emergente estava ainda num plano de abstração, pois ao se afastar da melopeia dos românticos, tais novos escritores ainda se encontravam num plano geral de ideias tomadas em si mesmas, quando não ganhavam contornos panfletários de uma postura revolucionária. E comparando tal escola nova com a poesia de Cesário Verde, temos que este é bem mais concreto, pois seus poemas não apresentam somente ideias, mas sim personagens humanas reais, a vida real na poesia de Cesário Verde o coloca num plano de realismo completamente diverso do que era praticado por tais revolucionários, pois nele não está retratado operários na sua dimensão de classe social, e nem são os pobres idealizados na indigência, mas são sim figuras muito concretas de calceteiros, de varinas, de vendedeiras, de regateiras, de marçanos, em ambientes concretos e não atmosféricos, resultando numa realidade prosaica e banal, e não ideológica como destes outros escritores.
 
CRISTALIZAÇÕES
 
O poema é de uma dureza e de uma secura que antecipa a verve realista, com o título cristalizações, é algo pétreo como o trabalho manual que lhe dá inspiração e conteúdo: “Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,/Vibra uma imensa claridade crua./De cócoras, em linha, os calceteiros,/Com lentidão, terrosos e grosseiros,/Calçam de lado a lado a longa rua.”. O trabalho e a pobreza, eis: “Luzem, aquecem na manhã bonita,/Uns barracões de gente pobrezita”. Aqui nada se ouve, o trabalho manual, duríssimo, se impõe, e o poema segue: “Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!/Tomam por outra parte os viandantes;/E o ferro e a pedra – que união sonora! –/Retinem alto pelo espaço fora,/Com choques rijos, ásperos, cantantes.”. A canção e a massa sonora que o poema retrata é prosaica, um ambiente hostil se desenha: “A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!/Que espessos forros!” (...) “E nesse rude mês, que não consente as flores,/Fundeiam, como esquadra em fria paz,/As árvores despidas. Sóbrias cores!”. E a imagem do frio, recorrente neste poema de Cesário Verde: “Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente! –/Carros de mão, que chiam carregados,/Conduzem saibro, vagarosamente;/Vê-se a cidade, mercantil, contente:/Madeiras, águas, multidões, telhados!”. À imagem do frio se soma a da cidade, o trabalho enfrenta o clima e sua lida hostil, mais uma vez: “E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,/Eu tudo encontro alegremente exato./Lavo, refresco, limpo os meus sentidos./E tangem-me, excitados, sacudidos,/O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!”. Os sentidos do poeta entram nesta contenda forte de que o trabalho manual é o moto do estro: “Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!/Que vida tão custosa! Que diabo!”. O lamento e não só o elogio aparecem, o poema é um registro cotidiano em roupagem mais que real, o poema é uma crônica do esforço, e eis que é do povo que o poeta nos conta a lida: “Povo! No pano cru rasgado das camisas/Uma bandeira penso que transluz!/Com ela sofres, bebes, agonizas:” (...) “Como lajões. Os bons trabalhadores!/Os filhos das lezírias, dos montados:/Os das planícies, altos, aprumados;/Os das montanhas, baixos, trepadores!”. O poema então dá uma imagem animal do trabalho manual, de bestas de carga e como animais comuns, fortes, portanto: “Neste Dezembro enérgico, sucinto,/E nestes sítios suburbanos, reles!/Como animais comuns, que uma picada esquente,/Eles, bovinos, másculos, ossudos,”.  
 

POEMA:

CRISTALIZAÇÕES

 

                       A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,

Vibra uma imensa claridade crua.

De cócoras, em linha, os calceteiros,

Com lentidão, terrosos e grosseiros,

Calçam de lado a lado a longa rua.

 

Como as elevações secaram do relento,

E o descoberto sol abafa e cria!

A frialdade exige o movimento;

E as poças de água, como em chão vidrento,

Refletem a molhada casaria.

 

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,

Disseminadas, gritam as peixeiras;

Luzem, aquecem na manhã bonita,

Uns barracões de gente pobrezita

E uns quintalórios velhos com parreiras.

 

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!

Tomam por outra parte os viandantes;

E o ferro e a pedra – que união sonora! –

Retinem alto pelo espaço fora,

Com choques rijos, ásperos, cantantes.

 

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços.

Cuja coluna nunca se endireita,

Partem penedos. Cruzam-se estilhaços.

Pesam enormemente os grossos maços,

Com que outros batem a calçada feita.

 

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!

Que espessos forros! Numa das regueiras

Acamam-se as japonas, os coletes;

E eles descalçam com os picaretes,

Que ferem lume sobre pederneiras.

 

E nesse rude mês, que não consente as flores,

Fundeiam, como esquadra em fria paz,

As árvores despidas. Sóbrias cores!

Mastros, enxárcias, vergas. Valadores

Atiram terra com as largas pás.

 

Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente! –

Carros de mão, que chiam carregados,

Conduzem saibro, vagarosamente;

Vê-se a cidade, mercantil, contente:

Madeiras, águas, multidões, telhados!

 

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;

Em arco, sem as nuvens flutuantes,

O céu renova a tinta corredia;

E os charcos brilham tanto, que eu diria

Ter ante mim lagoas de brilhantes!

 

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,

Eu tudo encontro alegremente exato.

Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.

E tangem-me, excitados, sacudidos,

O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!

 

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem

De tão lavada e igual temperatura!

Os ares, o caminho, a luz reagem;

Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;

Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

 

Mal encarado e negro, um para enquanto eu passo;

Dois assobiam, altas as marretas

Possantes, grossas, temperadas de aço;

E um gordo, o mestre, com um ar ralaço

E manso, tira o nível das valetas.

 

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!

Que vida tão custosa! Que diabo!

E os cavadores pousam as enxadas,

E cospem nas calosas mãos gretadas,

Para que não lhes escorregue o cabo.

 

Povo! No pano cru rasgado das camisas

Uma bandeira penso que transluz!

Com ela sofres, bebes, agonizas:

Listrões de vinho lançam-lhe divisas,

E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

 

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,

Surge um perfil direito que se aguça;

E ar matinal de quem saiu da toca,

Uma figura fina desemboca,

Toda abafada num casaco à russa.

 

Donde ela vem! A atriz que tanto cumprimento

E a quem, à noite na plateia, atraio

Os olhos lisos como polimento!

Com seu rostinho estreito, friorento,

Caminha agora para o seu ensaio.

 

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados

Como lajões. Os bons trabalhadores!

Os filhos das lezírias, dos montados:

Os das planícies, altos, aprumados;

Os das montanhas, baixos, trepadores!

 

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,

Furtiva a tiritar em suas peles,

Espanta-me a atrizita que hoje pinto,

Neste Dezembro enérgico, sucinto,

E nestes sítios suburbanos, reles!

 

Como animais comuns, que uma picada esquente,

Eles, bovinos, másculos, ossudos,

Encaram-na sanguínea, brutamente:

E ela vacila, hesita, impaciente

Sobre as botinhas de tacões agudos.

 

Porém, desempenhando o seu papel na peça,

Sem que inda o público a passagem abra,

O demônico arrisca-se, atravessa

Covas, entulhos, lamaçais, depressa,

Com seus pezinhos rápidos, de cabra!


Gustavo Bastos, filósofo e escritor 
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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