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Comunidade denuncia morte do manguezal de Campo Grande, em São Mateus


15/03/2017 às 16:33
Campo Grande, em São Mateus (norte do Estado), é uma comunidade que vive tradicionalmente da cata do caranguejo. Quer dizer, vivia. Adeci de Sena, 54 anos de manguezal, presidente da Associação de Pescadores, Catadores de Caranguejo, Aquicultores, Moradores e Assemelhados de Campo Grande (Apescama), na região de Barra Nova, recorda ter visto “o amarelão” da lama da Samarco/Vale-BHP chegar em maio de 2016 e, com ele, o declínio da fonte de subsistência e principal identidade cultural de sua comunidade.

Do ponto de vista econômico, o primeiro impacto foi a redução na venda dos caranguejos, pois as notícias da chegada da lama afastaram os consumidores. Com o passar do tempo, no entanto, o manguezal foi perdendo a vida e os caranguejos desaparecendo.

Em dezembro passado, até os sítios localizados rio adentro foram afetados, "como o do senhor Romildo Thomaz, cujos porcos estão, até hoje, com feridas nunca antes vistas, resultado do contato frequente com a água contaminada”.

Em 2017, o processo de morte se acentuou e, nesta semana, Adeci registrou a situação deplorável do manguezal, seco, com árvores mortas e mortos também os poucos caranguejos que sobraram. O seguro-defeso se encerra esse mês. Irão viver de quê?

“O que a gente sabe fazer é pescar caranguejo e vender. Vai fazer o que, agora? Tanque-rede? Água 'tá' poluída. Agricultura? Água 'tá' poluída. A vida foi viver do caranguejo”, desabafa o líder comunitário.

Festival com caranguejos da Bahia

Até o Festival do Caranguejo, que acontece anualmente desde 2000, este ano vai ser feito com crustáceos comprados em Canavieiras, na Bahia. Serão 250 a 300 dúzias para abastecer os três dias do tradicional evento (19, 20 e 21 de maio).

Mesmo sem o reconhecimento formal da área como atingida, Adeci é firme: “A gente tem conhecimento técnico porque vive aqui há 54 anos, trabalhando só com caranguejo e aprendendo com os mais velhos, que estão aqui há 80, 90 anos. Se mesmo assim a gente não conseguisse entender como é o manguezal, entender o que acontece com ele...”, conta o catador, deixando as reticências no ar, junto de uma risada de ironia, de quem não precisa de acadêmico ou analista ambiental pra lhe dizer o motivo da morte de seu manguezal. “O mesmo produto que apareceu dentro do manguezal é o que está no mar. No mar bate e forma espuma. No mangue não bate, então ele fica parado, matando tudo. Não é só a seca, os rios com pouca água”, explica.

Diante dos fatos, o prognóstico do antigos consegue ser ainda mais duro, seco e triste que a realidade presente: “Pelo que a gente tem conhecimento, acho que eu morro e aquilo não se recupera. Mas acho que nenhum cientista pode dizer isso pra nós”, reflete.

Empresa e Renova nunca foram à região

Durante todo esse tempo, quase um ano, os pescadores e catadores de Campo Grande e região se uniram ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e ao Fórum Norte do Rio Doce, para exigir o reconhecimento da região como atingida pelo crime da Samarco/Vale-BHP.

A nova promessa é que o reconhecimento aconteça no final deste mês, na próxima reunião do Comitê Interfederativo do Rio Doce (CIF), a partir da pressão de uma Nota Técnica emitida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) comprovando, mais uma vez, a expansão da lama desde a divisa do Rio de Janeiro até o Parque Nacional Marinho de Abrolhos, com mais intensidade entre Aracruz e Caravelas/BA.

“Tô'  pedindo em nome da comunidade que a [Fundação] Renova e a empresa venham na nossa comunidade, porque nunca vieram aqui. Venham cá ver o dano que causou na comunidade. E deveriam trazer os profissionais junto, do Incaper [Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural] e da Secretaria de Agricultura, pra estudar no que a comunidade vai poder trabalhar daqui pra frente”, apela Adeci.

 

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