Seculo

 

Como os bairros de baixa renda viveram os dias de crise na segurança?


19/03/2017 às 18:25

No alto de Conquista, um homem magro e negro acocorado no pequeno aclive de terra batida junto ao muro de uma casa interpelou o grupo de homens estanhos que seguia pela viela: “Vocês trabalham onde, irmão?”. A voz era fria, mas não hostil. De algum modo, interessava-lhe saber o que nós, de Século Diário, em plena crise da segurança, com os policiais militares recolhidos dentro dos quartéis e batalhões, fazíamos ali, naquele bairro de vias precárias e casas tristes às margens da Rodovia Serafim Derenzi, em Vitória.
 
Entre os dias 21 e 24 de fevereiro, a reportagem de Século Diário percorreu bairros de baixa renda em Vitória, Serra, Cariacica e Vila Velha para saber como os moradores dessas áreas estavam vivendo a maior crise de segurança pública da história capixaba e, mais ainda, como viveram a primeira semana da crise, sem dúvidas a mais amedrontadora.
 
Sentimos olhares arrevesados, um ar pesado e tenso desde o início - como mostra a cena acima. Aquele homem já nos vigiava desde alguns metros. A suspeição se explicava: na noite do dia 6, um sábado, dois jovens da comunidade foram surpreendidos por homens encapuzados enquanto conversavam em uma praça, levados para o alto do morro e executados. 
 
Duas mortes que se somaram às quase duas centenas que a crise na segurança produziu.
 
O padre Kelder Brandão, da Paróquia São Pedro Apóstolo (agora no Bairro da Penha), nos ciceroneava e dissipou a atmosfera carregada. “Sou eu, o padre Kelder, da paróquia”. Impassível, o homem retornou com a mesma voz: “Tranquilo”. Soou como um consentimento à nossa presença. Continuamos. 
 
Serra

Já à primeira vista, a residência de Dona Rosa é um ponto destoante no cenário arquitetônico da rua em que mora em Jacaraípe. Em meio ao alinhamento de fachadas gradeadas e muros altos, a ampla casa de dois pavimentos brota aberta para a rua no muro baixo que revela, sob a edificação, um pátio em que se espalham roupas no varal, e, ao lado, um quintal dominado por árvores frutíferas e uma horta de ervas aromáticas.
 
A voz e expressão serenas de Dona Rosa se harmonizam com a bucólica paisagem. Em que pese o muro baixo, ela disse que não sentiu medo em momento algum. Não se trancou em casa. Às vezes, até dava-lhe na telha caminhar pelas ruas do bairro. Só sentiu medo quando, numa caminhada, se deparou rua com um veículo do Exército e seus homens de fuzil em punho e olhar hostil. Sentiu-se uma inimiga.
 
Em Eldorado e Nova Almeida, bairros que também visitamos, sentia-se mais tensão que em Jacaraípe - os mesmos olhares arrevesados, a mesma curiosidade vigilante quando o carro passava. De alguma forma, a casa e o jeito de Dona Rosa passaram a impressão de que em Jacaraípe havia menos tensão. Só impressão. Em Jacaraípe, houve saque no comércio. Em Eldorado, o posto de saúde fechou. Em Nova Almeida, escolas fecharam. 
 
A entrevistada de Eldorado mora numa casa simples. Um sofá, duas poltronas e uma TV de tubo ocupam a sala. A tranqüilidade da rua asfaltada não reflete o que ela passou naqueles dias difíceis - cenas que ela só via na TV reproduzidas na sua frente. Já em Nova Almeida, a estreita rua onde mora a outra entrevistada era estranhamente silenciosa. Em frente ao cemitério, mais uma vez fomos questionados sobre o que fazíamos. Era um homem de bicicleta. “Tranquilo. Tem que divulgar mesmo o que acontece aqui”, disse, pedalando.
 
Vila Velha e Cariacica 

Apenas meia hora antes de chegarmos a Cariacica-Sede, uma mulher com filho no colo sofrera assalto à mão armada em uma das ruas que desembocam na bucólica praça central. Entregou a bolsa a dois homens sobre uma moto. Meia hora depois, uma caminhonete da Guarda Nacional estacionou sobre a praça e homens fardados de arma em punho desceram do veículo para transmitir segurança a pedestres e comerciantes.
 
A cena mostra como a Grande Vitória se equilibrava - e ainda se equilibra - entre a normalidade e a insegurança. Os homens da Guarda Nacional permaneceram um bom tempo na praça, pose empertigada e expressão vigilante. Viaturas da Polícia Mililtar passaram logo em seguida. Enquanto isso, ali perto, comerciantes não tiravam o celular da mão, monitorando o movimento do entorno pelas câmeras de vigilância.
 
Encontramos em Divino Espírito Santo, em Vila Velha, o cenário mais tranqüilo nesse périplo. Embora vizinha de bairros com severo histórico de insegurança, como Boa Vista, não foram registradas ali ações mais contundentes de violência. Surpreendente. Talvez por isso não tenhamos nos deparado com a mesma curiosidade alerta que nos monitoravam nas demais comunidades.
 
Nas ruas, crianças iam e vinham das escolas acompanhadas dos pais e, nos bares, homens papeavam sem preocupação, como se via no bar da Dona Avelina. O bairro viveu uma situação peculiar: se não registrou furtos e roubos aos montes ou tiroteios, a ausência de transporte público foi o único problema que compartilhou com os bairros de mesmo perfil na Grande Vitória. 

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