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O PT descendo a rampa


23/03/2017 às 23:52
Depois do aluvião de denúncias levantadas pela Operação Lava Jato nos seus primeiros dois anos e meio, soubemos recentemente que não foram apenas petistas que prevaricaram, mas membros de praticamente todos os principais partidos brasileiros. Portanto, impõe-se um saneamento geral para higienizar a vida partidária no Brasil.  
 
Para clarear o panorama, precisamos recordar que, logo em sua fundação em 1980, o PT criou uma fórmula original da sobrevivência partidária: estabeleceu uma mensalidade para os filiados e uma contribuição compulsória para os militantes eleitos para cargos públicos. Cada mandatário tinha que dar ao partido 30% dos seus honorários.
 
Ao ascender à Presidência da República, em 2002, o PT havia conquistado centenas de mandatos de vereador, prefeito, deputado, senador e governador. Cada um desses eleitos tinha direito de nomear um número considerável de pessoas para cargos de confiança, os chamados CCs, que também deviam dar o seu quinhão para o sustento da estrutura partidária.  
 
Para coroar seu sucesso como partido de massa, só faltava ao PT filiar um número próximo de um milhão de sócios. Sob o comando do deputado José Dirceu, o partido passou a fazer filiações pela internet.
 
Entre mais de 700 mil filiados, os pioneiros adeptos do socialismo (“sem medo de ser feliz”) foram sendo sufocados por levas de adesistas de última hora, alpinistas de ocasião, carreiristas sem vergonha e oportunistas loucos para ser governo.
 
Nesse cruzamento histórico entre revolucionários da primeira hora e os oportunistas de todos os momentos, o sonho petista diluiu-se no pragmatismo que caracterizou o primeiro governo de Lula, o presidente violinista, que segurava o violino com a mão esquerda enquanto tocava o arco com a direita (segundo a crônica, a troca de mãos não alteraria o resultado final, que a maioria aplaudia).    
 
Falta situar o momento em que a cúpula do partido fez a escolha da peça musical que tocaria enquanto no exercício do poder. Alguns acreditam que o clic se deu durante a redação da Carta ao Povo Brasileiro, assinada por Lula em 22 de junho de 2002, portanto, alguns meses antes da eleição.
 
O fato é que por ambição demasiada, erro de cálculo, soberba ou falta de melhor alternativa o PT decidiu fazer como os outros partidos. E tudo indica que não precisava ser assim.
 
Pois, se todos os petistas seguissem a norma de contribuição ao partido, o PT poderia viver sem depender de doações de empresas interessadas em favorecimentos.
 
Não há dúvida de que parte da cúpula petista compactuou com certas maracutaias, aceitou trabalhar com o caixa 2 e fez vista grossa a práticas ilícitas de alguns dos seus membros. O nome do jogo: pragmatismo, sem o que não seria possível aprovar programas, projetos e políticas de interesse da maioria da população.
 
Deu no que deu. Mesmo sem provas, a Justiça condenou o chefe do partido José Dirceu a mofar na cadeia por conta do Mensalão, nome moderno de uma prática ancestral na administração pública do Brasil e do mundo. Também foram condenados dois tesoureiros do partido. Há quem diga que José Dirceu é um preso político condenado por sua “extrema periculosidade”.
 
Em consequência das evidências dos delitos, o PT perdeu grande parte de sua credibilidade e a presidenta Dilma Rousseff foi tirada do Planalto por uma conspiração de políticos, procuradores e jornalistas com aval do Supremo Tribunal Federal.
 
Nas eleições de 2016 o PT perdeu um monte de votos e de cargos. Se fosse uma empresa, estaria no vermelho.
 
De uma forma ou de outra, o PT contribuiu para a degradação política ao fazer acordos e alianças com escroques, farsantes, traidores e pilantras protegidos por membros da baixa, média e alta magistratura.   
 
O que até agora não se entende é por que o partido não faz a indispensável autocrítica e volta ao caminho inicial, sem medo de ser feliz.
 

LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais. Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de tudo, vamos fazer um Compromisso pela Produção, pelo emprego e por justiça social. O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises. O país não suporta mais conviver com a idéia de uma terceira década perdidas. O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.”
 
 Luiz Inácio Lula da Silva no final da Carta ao Povo Brasileiro em 22 de junho de 2002

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