Seculo


  • Lava Jato no ES

 

O rei balançou


31/03/2017 às 14:22
Se Paulo Hartung (PMDB) e Luciano Rezende (PPS) estivessem disputando uma partida de xadrez, o lance dessa quinta-feira (30) do prefeito de Vitória, ameaçando tirar a gestão do sistema de água e esgoto das mãos da Cesan para entregá-la a outra empresa pôs o rei, ou melhor, o governador em xeque. 
 
Mas esse xeque de Luciano, além do elemento surpresa - geralmente o xeque costuma surpreender o adversário - tem outra peculiaridade: é um xeque de peão. Data vênia, sem querer diminuir o prefeito ao compará-lo a uma peça de hierarquia menor no tabuleiro. Mesmo porque, no xadrez, um mero peão, muitas vezes, pode decidir uma partida justamente pela imprevisibilidade. 
 
Mas xeque de peão é sempre surpreendente. Vejamos por quê. Hartung, que veio de uma queda de braço recente para manter o controle sobre a Amunes, viu na disputa pela entidade que representa os municípios uma simulação dos movimentos eleitorais de 2018. 
 
Mas o governador, mesmo sendo um hábil enxadrista, se ateve às “peças” que considerou mais ameaçadoras, usando como critério a hierarquia. Ele não escondia que sua preocupação maior era com a “rainha”, a senadora Rose de Freitas (PMDB). A exemplo da poderosa peça do xadrez, Rose se mexe de todas as maneiras no tabuleiro, especialmente o do interior. De trás pra frente, de frente pra trás, pelos lados, nas diagonais. Uma mobilidade que toma a atenção do adversário quando começa a se movimentar no tabuleiro. 
 
Ainda de olho nas peças potencialmente mais perigosas, Hartung não deixa de monitorar o ex-governador Renato Casagrande (PSB), com quem disputou a última eleição. Se bem que a essa altura do jogo Casagrande faz um papel apenas burocrático. Um adversário coadjuvante. Transpondo para o xadrez, neste momento, ele seria torre ou bispo. A primeira se move em linha reta, horizontalmente e verticalmente, mas costuma ficar imobilizada pelas peças da frente; a segunda também tem movimentos pragmáticos, costuma ser auxiliar, mas geralmente não é decisiva.
 
Há ainda o cavalo. Peça que se encaixaria bem no perfil de Ricardo Ferraço (PSDB). O senador acompanhou a eleição da Amunes à distância, mas Hartung não gosta de perdê-lo de vista. Ele sabe que o cavalo é a única peça do tabuleiro que pode pular sobre as outras. No caso específico desse “cavalo”, a prudência manda monitorá-lo mais de perto, porque descende de uma estirpe tradicional da política capixaba, cujo pai, Theodorico Ferraço (DEM), é uma verdadeira águia — que já faz parte de outro jogo. 
 
Mas voltando ao singelo peão, das peças posicionadas, Luciano, no embate da Amunes, era a que se mostrava mais inofensiva. Não se meteu em polêmica. Não foi a Brasília com a turma de Rose e tampouco escolheu um dos lados: de Gilson Daniel ou de Guerino Zanon. 
 
Por isso, o lance de Luciano foi tão inusitado. Para desconcertar um enxadrista do nível de Hartung só mesmo uma jogada surpreendente. E a jogada contra a Cesan foi insólita. Luciano atacou justamente a jóia mais preciosa da coroa. Entrou no palácio pela porta da frente, nas barbas do rei, sem ser notado. Quando o rei se deu conta, se viu confrontado de maneira capital pelo prefeito. 
 
Xeque de peão costuma desequilibrar o adversário pela ousadia da jogada. Luciano não derrubou o rei, mas que Hartung balançou, balançou.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

Os fantasmas de PH

Delações e medo das ruas assombram Hartung, cada vez mais distante das eleições de 2018

OPINIÃO
Renata Oliveira
Reformas inócuas
A Lava Jato revelou como a classe política articulou sua sobrevivência no ''mundo cão'' enquanto vendia honestidade
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Imperdivel! Já em cartaz!
Flânerie

Manuela Neves

Nenna, em transição
Panorama Atual

Roberto Junquilho

A Odebrecht quebrou a "Omertá", e agora?
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Nossa Terra, nossa gente
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Quem quer ser vizinho de uma siderúrgica?

Envolvimento de Ricardo Ferraço no esquema da Odebrecht inibe oposição de Theodorico na Assembleia

Delações jogam luz sobre passagens obscuras da política capixaba

Com baixa de 119 servidores em três anos, governo adia nomeação de escrivães de Polícia

Polícia Militar antecipa reintegração de posse de área em Vitória