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Luciano 'canalizou' a informação


03/04/2017 às 23:53
Há certas informações que são tratadas estrategicamente pelos agentes políticos. Não há nada errado nisso. Às vezes é uma questão de preferência, identidade editorial ou mesmo a relação de confiança entre fonte e jornalista - em outras palavras, a convicção de que a informação não sofrerá distorções pelo caminho antes de ser publicada. 
 
De outro lado, há informações de interesse público, que não podem ser entregues com exclusividade ao jornal A ou B. Ao questionar a qualidade do serviço de água e esgoto prestado pela Cesan aos moradores de Vitória e anunciar que encomendara estudo a uma empresa do Paraná com a intenção de trocar de mãos a concessão do serviço, o prefeito Luciano Rezende (PPS), como esse jornal registrou, pôs o governador em xeque. Paulo Hartung (PMDB) viu ameaçado seu plano de negociar a companhia. 
 
Mas se o prefeito fez uma jogada política magistral, surpreendendo o governador, errou grosseiramente ao entregar a informação com exclusividade ao jornal A Gazeta. Não houve “furo” por parte do jornal. Houve, sim, uma ação deliberada do prefeito e de seu supersecretário de Gestão, Planejamento e Comunicação, Fabrício Gandini, para anunciar estrategicamente a notícia por uma única fonte difusora. 
 
A dupla Luciano e Gandini premeditou tudo. Decidiu entregar a informação com exclusividade ao jornal. A reportagem publicada na quinta-feira (30), que ganhou destaque de capa, anunciava: “Vitória quer tirar sistema de saneamento da Cesan”. Dentro do jornal, mais duas páginas foram dedicadas ao assunto. Gandini e Luciano, além de Luiz Emanuel (Meio Ambiente), trataram a negligência da Cesan com indignação. Trazendo a população para o seu lado, o prefeito advertiu: “É o primeiro passo para tornarmos justas as contas que os moradores de Vitória pagam”. O supersecretário Gandini foi terminativo: “É preciso abrir o sistema”. Já Luiz Emanuel fez uma crítica mais direta: “A gente trabalha, e quem lucra é a Cesan”. 
 
Uma foto emoldurava o esgoto impune sendo cuspido no endereço mais nobre da cidade. A legenda alertava: “Esgoto sendo despejado na Praia do Canto, próximo à entrada da Ponte da Ilha do Frade, na Capital”. 
 
Horas depois a reportagem era repercutida pelo próprio Luciano na Rádio CBN Vitória, do mesmo grupo. E, em seguida, na prestação de contas de sua gestão, na Câmara de Vitória. O encadeamento dos fatos deixou claro que tudo fora premeditadamente pensado para estourar como uma bomba naquela quinta-feira. Se a intenção era causar impacto, o prefeito conseguiu. 
 
Obviamente, não cabia ao jornal A Gazeta ensinar o prefeito que uma informação daquela importância, que afeta diretamente a vida todos os moradores de Vitória, deveria ser tratada em uma coletiva de imprensa. Seria o formato mais democrático e ético para a prefeitura tratar de um tema de interesse público. 
 
A obrigação do prefeito era convocar a imprensa para apresentar o plano da prefeitura para a gestão de água e esgoto de Vitória. Após a exposição, como é praxe, o chefe do Executivo municipal deveria abrir para perguntas dos jornalistas, dando a prerrogativa para cada um dos veículos publicar a informação a partir de suas orientações editoriais. 
 
Luciano e Gandini, porém, ficaram convencidos de que fizeram uma jogada espetacular. Do ponto de vista político, não resta dúvida: acertaram na mosca. Mas se considerarmos o viés do jornalismo a estratégia da dupla foi um verdadeiro desastre. 
 
Luciano e Gandini prestaram um desserviço aos moradores de Vitória ao impedir que os leitores conhecessem as diferentes matizes sobre um tema, no mínimo, polêmico, que merece ser amplamente debatido pela sociedade. 
 
Ao “canalizar” a informação para um único veículo, Luciano perdeu a oportunidade de legitimar a discussão no campo técnico. Ao excluir os demais veículos de cumprirem sua função de utilidade pública, o prefeito abre precedente para que a proposta seja interpretada como uma manobra meramente política. 
 
Em tempo: causa estranheza o “namoro” de Luciano com A Gazeta. Justamente o prefeito que acusou o jornal e o instituto (Futura) de manipulação deliberada de pesquisas eleitorais com a finalidade de prejudicá-lo nas eleições de 2012 e 2016. Parece que Luciano já superou o trauma.

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