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Manobra grosseira joga CPI no ralo


06/04/2017 às 00:12
A investida do prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), que ameaça retirar a concessão de água e esgoto da Capital das mãos da Cesan, alegando que o serviço oferecido pela companhia deixa a desejar, do ponto de vista político, foi uma manobra espetacular.
 
Espetacular porque o prefeito, além de surpreender o governador Paulo Hartung (PMDB) ao pôr em xeque a “jóia da coroa”, conquistou o apoio da opinião pública porque mexeu com um problema que afeta diretamente a vida (e o bolso) dos moradores de Vitória que, convenhamos, não devem estar muito satisfeitos com os serviços da Cesan.
 
Foi dentro desse contexto, que acusa o momento político vulnerável do governador, que os deputados Euclério Sampaio e Josias da Vitória (ambos do PDT) perceberam o ambiente favorável para deflagrar uma CPI na Assembleia para investigar as denúncias contra a companhia, que vinha sendo cuidadosamente preparada pelo governo para ser negociada.
 
O momento político do governador é tão adverso que a dupla pedetista não precisou de muita verborragia para convencer quatro deputados da base governista a pularem para o barco dos chamados independentes, que hoje assumem uma postura de oposição ao governo na Assembleia como há muito tempo não se via. Nesse grupo, além dos dois pedetistas, estavam os deputados Theodorico Ferraço (DEM), Sérgio Majeski (PSDB), Freitas (PSB) e Marcos Bruno (Rede), que conseguiram seduzir José Esmeraldo (PMDB), Enivaldo dos Anjos (PSD), Padre Honório (PT) e Gilsinho Lopes (PR). 
 
Nessa terça-feira (4), após Euclério e Da Vitória protocolarem o requerimento com os dez nomes (um terço da Casa) necessários para abrir a CPI da Cesan, o grupo considerou a primeira etapa da empreitada vencida. Afinal, eles estavam escorados no Regimento Interno, que impedia a retirada dos nomes após o protocolo do requerimento. Só que não. 
 
Uma manobra improvável do governo jogaria a CPI no ralo. Se o líder do governo na Casa, deputado Gildevan Fernandes (PMDB), tomou uma bolada nas costas ao ser pego de surpresa com a CPI, revidou a manobra com um golpe abaixo da linha da cintura. 
 
Só mesmo um deputado com o perfil de Gildevan aceitaria fazer o “trabalho sujo” encomendado pelo governo. Nesta quarta (5), após a sessão ordinária, o deputado manobrou ardilosamente para incluir num Projeto de Resolução do deputado Sérgio Majeski (PSDB) - que prevê a divulgação da votação nominal dos projetos submetidos ao Plenário no diário do legislativo e no site da Assembleia - uma emenda que altera o parágrafo 13 do artigo 59 do Regimento Interno da Casa. 
 
O texto original impedia que o deputado retirasse o nome após o protocolo do requerimento da CPI. O líder do governo alterou o texto, impedindo que o parlamentar retirasse o nome após o deferimento do requerimento. A simples troca permitiu que o governo esvaziasse a CPI. 
 
Com a mudança, a tropa de choque do Palácio Anchieta ganhou tempo para pressionar os quatro deputados aparentemente mais vulneráveis: Enivaldo, Gilsinho, José Esmeraldo e Padre Honório. Com a brecha aberta no Regimento, eles não teriam como dizer não ao governo. Dos quatro, comenta-se na Casa, que os três últimos estariam propensos a voltar atrás. 
 
É remotíssimo a probabilidade de a CPI sair. A parte mais complicada era operar a manobra. Demover os deputados “rebeldes” parece ser a parte mais fácil para o governo. 
 
Independentemente do aborto prematuro da CPI, o episódio confirmou a fragilidade política de Hartung. A manobra grosseira, como último recurso, operada pela base palaciana, além de manchar a imagem do Legislativo, representa mais um desgaste para o governador.
 
A CPI pode ter ido para o ralo, mas levou junto o plano do governo de negociar a Cesan.

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