Seculo

 

Crise ética


10/04/2017 às 23:56
A pergunta é inevitável: o que se passa pelas cabeças de sete estudantes de Medicina que decidem postar uma foto de formatura bizarra nas redes sociais? E põe bizarra nisso. A foto exibe os futuros médicos com as calças arriadas, só de jaleco e com estetoscópio enrolado no pescoço. Eles juntam os polegares e os indicadores, formando um triângulo, num gesto obsceno que faz menção ao órgão genital feminino. 
 
A foto, como não poderia ser diferente, causou indignação nas redes sociais. As pessoas que toparam com a imagem ficaram embasbacadas. Alguns reagiram incrédulos, preferindo não acreditar que a foto representava o que eles estavam imaginando. 
 
Logo surgiu um internauta, se dizendo advogado de dois dos estudantes, com uma defesa que tornou a imagem e a história ainda mais bizarras. Ele explicou que se tratava de um protesto contra o Exército Brasileiro, que os obrigava a cumprir o serviço militar etc etc. Absolutamente, uma explicação sem pé nem cabeça. Ainda para um grupo de estudantes que precipitou a “brincadeira” a partir da hashtag "pintos nervosos".
 
Voltando para o mundo real, o Conselho Regional de Medicina, depois de reprovar a atitude dos futuros associados, afirmou que não poderia puni-los porque eles ainda não têm os respectivos registros. Melhor se nunca os tivessem. 
 
A Universidade de Vila Velha (UVV), responsável pela formação acadêmica dos estudantes, também repudiou a pândega. Prometeu, segundo informou ao jornal A Gazeta, que vai instaurar uma sindicância para apurar os fatos. A UVV prevê três tipos de punição para os alunos: advertência pessoal, suspensão ou até o desligamento da instituição. 
 
Daqui a alguns dias ninguém, certamente, se lembrará mais do episódio. Será apenas mais um caso corriqueiros em meio a tantos outros que explodem todos os dias na redes sociais. Aliás, as bizarrices, os escândalos, as fofocas são os tipos de assuntos que bombam nas redes, causam frisson entre os internautas, mas depois somem como a mesma velocidade que aparecem. 
 
Alguém duvida que esses jovens vão apanhar seus canudos? Muito provável que sim. Ninguém paga R$ 5,4 mil mensais num curso e se conforma a perder tudo no último ano. É provável que daqui alguns meses ou anos, quem sabe um desses sete médicos cruze seu destino. Imagine se por peça do destino você descobre que o médico que está fazendo o parto na sua mulher é um desses estudantes? Ou que a vida de seu filho que está sobre uma mesa de cirurgia está nas mãos de um desses fanfarrões? 
 
Faz tempo que a educação se tornou um negócio rentável como outro qualquer. Nas últimas duas ou três décadas a oferta de vagas nos cursos superiores privados explodiram em todo o País. Faculdades são abertas a cada esquina como se abre padarias. Com os cursos de medicina não é diferente. Isso suscitou a pergunta: que tipo de médico está sendo formado pelas faculdades? 
 
O próprio Conselho Federal de Medicina (CFM) fez um levantamento, há cerca de dois anos, para traçar um perfil dos médicos que estão sendo formados. A constatação foi desoladora. Muitos cursos se transformaram em balcão de negócios. A prioridade é encontrar alunos dispostos a pagar mensalidades, que podem custar cinco, seis ou até 10 salários mínimos (R$ 937) por mês. Fora as outras despesas. O valor alta das mensalidades não é garantia de qualidade do ensino. Muitas vezes a qualidade fica em segundo plano. Isso se reflete no tipo de profissional que está sendo formado. 
 
Não queremos aqui responsabilizar a UVV pela atitude insensata de seus alunos. Seria, no mínimo, leviano. A universidade já se manifestou sobre o episódio e promete apurar e punir os estudantes, se for o caso. 
 
Mas que uma história como essa causa apreensão, causa. A brincadeira seria igualmente imprópria se partisse de estudantes de Direito, Psicologia ou Engenharia. Não importa. Uma pessoa em pleno juízo, com toda a certeza, não optaria por contratar os serviços de um profissional, se é que dá para chamar assim, que tem esse tipo de atitude. O que dizer então do profissional que se propõe a salvar vidas?

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Precipitou-se

Com um olho em 2018 e outro em 2020, Luciano Rezende antecipou o processo eleitoral, mas esqueceu a Lava Jato. Aí mora o problema.

OPINIÃO
Renata Oliveira
Bicho-papão
O ajuste fiscal de Paulo Hartung precisa do exemplo do Rio de Janeiro tanto para cortar quanto para supervalorizar a liberação de recursos
JR Mignone
Qual rádio ouviria hoje?
Sinceramente, não saberia explicar que tipo de rádio eu ouviria hoje, isto é, que me motivaria a ligar o botão para ouvi-la: uma de notícia ou uma só de música selecionada
Caetano Roque
Pressão neles
O movimento sindical deve conscientizar o trabalhador sobre quem estará na disputa do próximo ano contra ele
Geraldo Hasse
A doença da intolerância
Ela está nos estádios, nos governos, nas igrejas, nos parlamentos, nas ruas, nos tribunais
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

Branca, o Teatro e a sala de estar
Panorama Atual

Roberto Junquilho

Fuzis e baionetas, nunca mais!
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Turista acidental
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Precipitou-se

Posse de tucano no Turismo é demonstração interna de força de Colnago

Subseção da OAB-ES cobra esclarecimento sobre atuação de Homero Mafra na defesa de acusado

Justiça Federal determina que 14 municípios adotem ponto eletrônico para médicos e dentistas

Dary Pagung vai fechar a porta para emendas de deputados no orçamento